Frente ampla

Candidatos petistas votaram a favor do impeachment de Dilma

Expedito Netto e Eliziane Gama ajudaram a derrubar a presidenta em 2016 e, dez anos depois, concorrem pelo próprio PT

Dois políticos que votaram pela abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016 disputam agora as eleições de 2026 pelo Partido dos Trabalhadores. Expedito Netto é candidato ao governo de Rondônia e Eliziane Gama concorre ao Senado pelo Maranhão.

Na votação de 17 de abril de 2016, ambos eram deputados federais e deram voto favorável ao processo que terminou com a deposição da presidenta.

Expedito, então filiado ao PSD, participou diretamente da ofensiva contra o governo petista. Anos depois, entrou no governo Lula, ocupou a Secretaria Nacional de Pesca Industrial e, neste ano, filiou-se ao PT para disputar o governo de Rondônia.

Eliziane Gama estava no PPS, atual Cidadania. Além de votar pela abertura do impeachment, integrou a comissão especial que analisou o processo na Câmara. Agora concorre ao Senado pela mesma legenda da presidenta cuja derrubada ajudou a encaminhar.

Os dois casos são particularmente significativos porque não se trata apenas de apoio eleitoral a políticos de outros partidos. Antigos participantes do golpe foram admitidos no próprio PT e receberam candidaturas pela sigla.

A política vai muito além de Expedito e Eliziane. Levantamento do Poder360 identificou dezenas de políticos que apoiaram a derrubada de Dilma e que posteriormente passaram a ocupar cargos no governo Lula, integrar sua base ou receber apoio eleitoral do petismo.

Em São Paulo, por exemplo, Marina Silva e Simone Tebet integram a aliança de Fernando Haddad para o Senado.

Tebet votou pela cassação de Dilma quando era senadora pelo PMDB. Depois concorreu contra Lula à Presidência em 2022, tornou-se ministra do governo petista e hoje participa da chapa organizada em torno de Haddad.

Marina não tinha mandato parlamentar em 2016 e, portanto, não participou da votação. Defendeu, porém, o afastamento de Dilma.

Sua atuação durante a perseguição contra Lula foi igualmente significativa. Em 2018, no momento em que a Lava Jato preparava a retirada do petista da eleição presidencial, Marina defendeu o cumprimento da decisão que poderia levá-lo à prisão e exaltou publicamente a operação.

Agora, participa da aliança eleitoral dirigida pelo PT em São Paulo.

Marta Suplicy é outro exemplo dessa política. Depois de deixar o PT e ingressar no PMDB, votou no Senado pela cassação de Dilma. Em 2024, Lula articulou sua volta ao partido para que fosse candidata a vice-prefeita na chapa de Guilherme Boulos.

Nem a participação direta no golpe impediu sua reintegração.

O caso mais conhecido continua sendo Geraldo Alckmin. Durante décadas, o atual vice-presidente foi uma das principais figuras do PSDB, partido que comandou a destruição do Brasil e as preparações para o golpe de 2016.

Quando enfrentou Lula na eleição presidencial de 2006, Alckmin explorou intensamente o caso do Mensalão e acusou o governo de abrigar uma organização criminosa. Dez anos depois, participou das mobilizações pelo afastamento de Dilma.

Em 2022, foi escolhido para ser vice de Lula e continua compondo sua chapa presidencial.

Outros nomes que participaram da derrubada de Dilma foram incorporados à base governista ou às alianças eleitorais do petismo. Omar Aziz votou pela cassação e hoje recebe apoio de Lula. Renan Calheiros também votou pelo afastamento e tornou-se um dos aliados do governo no Senado. Políticos do antigo PMDB que apoiaram a substituição de Dilma por Michel Temer passaram novamente a ocupar posições importantes ao lado do PT.

A aproximação não se restringiu, portanto, a adversários ocasionais. Foram absorvidos políticos que participaram das principais campanhas da direita contra o petismo: o Mensalão, o golpe de 2016 e, em diversos casos, a ofensiva da Lava Jato.

Após a derrubada de Dilma, o PT denunciou corretamente que o impeachment serviu para entregar o governo a Michel Temer e acelerar uma política contra os trabalhadores. Vieram o congelamento dos gastos públicos, a reforma trabalhista e uma ofensiva geral contra direitos sociais.

A Lava Jato completou a operação ao condenar e prender Lula, impedindo sua candidatura presidencial em 2018.

Dez anos depois, parte dos políticos que participou daquele processo está dentro da aliança eleitoral de Lula. Alguns foram além: receberam filiação e candidatura do próprio PT.

Essa política é consequência da chamada frente ampla. Em nome do combate à direita bolsonarista, o partido abriu espaço para representantes tradicionais da burguesia e para políticos que estiveram entre seus principais adversários, inimigos do povo.

Isso não ocorreu porque essas figuras tenham adotado um programa progressista. O movimento aconteceu na direção contrária: o PT ampliou suas alianças até abrigar setores que participaram diretamente das ofensivas contra seus próprios governos. O PT vai cada vez mais à direita.

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