Dez anos depois da derrubada de Dilma Rousseff, o PT continua aliado a boa parte dos responsáveis pelo golpe de 2016. Alguns ocupam cargos no governo Lula. Outros fazem parte da base parlamentar. Há ainda antigos golpistas que recebem diretamente o apoio do partido nas eleições deste ano.
Levantamento publicado pelo Poder360 nesta segunda-feira (31), quando se completaram dez anos da votação final contra Dilma no Senado, identificou pelo menos 25 políticos favoráveis à sua derrubada que hoje estão associados ao PT ou ao governo Lula.
A lista é uma demonstração do fracasso da política de conciliação do partido. Em 2016, o PT foi derrubado justamente por setores da direita com os quais havia governado durante anos. Em vez de romper com esses setores depois do golpe, nunca os abandonou nas alianças estaduais e municipais e voltou a procurá-los assim que Lula recuperou seus direitos políticos e chegou novamente à Presidência.
O MDB é o caso mais evidente.
Michel Temer foi eleito vice-presidente duas vezes na chapa de Dilma. O PMDB, como se chamava o partido na época, tinha ministérios, cargos e enorme influência sobre o governo. Quando a burguesia decidiu retirar Dilma, Temer e seu partido passaram para o lado do golpe. O vice tomou o lugar da presidenta e comandou o governo instalado depois de sua deposição.
Apesar disso, o MDB voltou a ser um dos principais aliados de Lula.
Renan Calheiros votou pela condenação de Dilma no Senado e hoje atua como aliado do governo. Eunício Oliveira fez o mesmo e integra a base governista na Câmara. Omar Aziz votou pela derrubada da presidenta e disputa agora o governo do Amazonas com apoio de Lula.
Davi Alcolumbre também votou contra Dilma. Em 2025, chegou novamente à presidência do Senado com apoio do governo federal e hoje está envolvido em um relacionamento amoroso com Lula.
A experiência de 2016 mostrou exatamente o valor desse tipo de aliança. Quando o PT serviu aos interesses de seus parceiros burgueses, eles permaneceram no governo. Quando deixou de servir, ajudaram a derrubá-lo.
Nem por isso o partido mudou sua política.
Mais grave ainda é que Lula não se limitou a recompor a aliança com os antigos integrantes de sua base. Incorporou também adversários declarados do PT que apoiaram o golpe desde fora do governo.
Geraldo Alckmin é o exemplo mais conhecido. Durante décadas, foi um dos principais dirigentes da direita golpista. Disputou a Presidência contra Lula em 2006, apoiou a campanha pela derrubada de Dilma e, em 2022, acabou escolhido pelo próprio Lula para ser vice-presidente.
A latifundiária Simone Tebet votou pela cassação de Dilma quando era senadora. Em 2022, concorreu à Presidência contra Lula. Depois, ganhou o Ministério do Planejamento e tornou-se uma das figuras centrais da política econômica do governo. Nas eleições atuais, o PT faz campanha para ela se eleger ao Senado por São Paulo.
Marina Silva atacou duramente Dilma nas eleições de 2014 e buscou dividir seu voto para beneficiar Aécio Neves. Financiada pelos banqueiros nacionais e estrangeiros (Itaú, Natura e Open Society), ela apoiou a derrubada de Dilma. Voltou ao governo com Lula em 2023 e hoje, assim como Tebet, é apoiada pelo PT ao Senado em São Paulo.
Aloysio Nunes foi candidato a vice de Aécio Neves contra Dilma, votou pela sua cassação e depois se tornou ministro de Michel Temer. Era um dos tucanos mais golpistas, denunciado por toda a esquerda à época. Anos mais tarde, recebeu de Lula uma indicação para a direção da ApexBrasil.
A lógica é sempre a mesma: a direita não precisa sequer romper politicamente com aquilo que fez em 2016. É o PT que se adapta a ela.
Marta Suplicy deixou o partido em 2015, entrou no PMDB e votou pela deposição de Dilma no Senado. Em 2024, foi trazida de volta ao PT por iniciativa de Lula para ser candidata a vice-prefeita de São Paulo na chapa de Guilherme Boulos, o grande esquerdista da nova geração.
José Múcio, escolhido por Lula para o Ministério da Defesa, também teve participação no processo que antecedeu o golpe. Como ministro do Tribunal de Contas da União, recomendou a rejeição das contas de Dilma, uma das decisões utilizadas na ofensiva contra o governo petista.
Não foram pequenas divergências eleitorais.
Depois da derrubada de Dilma, veio uma ofensiva ainda mais profunda contra o PT. A Operação Lava Jato levou Lula à prisão e o retirou das eleições de 2018. O principal dirigente popular do País passou 580 dias preso e só recuperou seus direitos políticos depois que suas condenações foram anuladas.
Mesmo essa experiência não levou a direção petista a romper com a conciliação.
Lula retornou ao poder e o compartilhou com os mesmos políticos que derrubaram Dilma. Entregou ministérios, recompôs a aliança com o MDB e escolheu Alckmin como vice. Agora, o PT oferece sua máquina eleitoral para fortalecê-los ainda mais, quem sabe entregando o bastão a eles no próximo período.
Expedito Netto votou contra Dilma na Câmara e no Senado, posteriormente recebeu cargo no governo Lula e neste ano disputa uma eleição pelo próprio PT. Eliziane Gama também votou contra Dilma e posteriormente entrou no partido. Cristovam Buarque participou da votação pela cassação no Senado e hoje está novamente no campo eleitoral governista.
A justificativa apresentada para essa política é o suposto combate à direita.
Para derrotar a direita, o PT afirma que precisa se aliar a Alckmin. Para governar, precisa do MDB. Para controlar o Senado, precisa de Alcolumbre. Para formar palanques estaduais, precisa apoiar os golpistas. Para aprovar projetos no Congresso, precisa entregar espaço ao Centrão.
A cada nova dificuldade, aumenta a dependência em relação aos próprios setores que o partido afirma combater. É uma areia movediça.
Foi justamente essa política que deixou Dilma cercada em 2016. O governo acreditava que os acordos parlamentares, os ministérios entregues aos partidos burgueses e a moderação diante da direita garantiriam sua sobrevivência. Quando começou o golpe, os chamados aliados mudaram imediatamente de lado.
O PT não apenas voltou a fazer acordos com esses partidos. Em vários casos, passou a apresentar esses marginais como defensores da democracia.
O contraste aparece com particular clareza nas eleições de 2026. Enquanto dirigentes petistas voltam a falar no perigo representado pela direita, Lula e seu partido participam da eleição de candidatos que votaram para derrubar o próprio governo do PT dez anos atrás.
Não houve aprendizado algum. Houve a retomada, em escala ainda maior, da política que permitiu aos aliados de ontem preparar o golpe de amanhã.



