Durante o recente debate transmitido pelo podcast Três Irmãos, que colocou frente a frente Rui Costa Pimenta, candidato à Presidência da República pelo PCO, e Hertz Dias, candidato à Presidência pelo PSTU, o público foi testemunha de uma cena cômica. Com a solenidade de quem está prestes a revelar ao mundo uma verdade oculta pelos séculos, o representante do PSTU sacou da bagagem um livro recém-lançado. Não se tratava, segundo ele, de um documento eleitoral qualquer, mas de um texto “muito superior ao que está no TSE”, fruto de “anos e anos de debate” para explicar as transformações do mundo pós-Segunda Guerra Mundial.
No entanto, quando a montanha de “anos de debate” finalmente pariu seu rato teórico, o que se ouviu foi uma das maiores aberrações já proferidas por uma organização que ainda se reivindica marxista. Ao tentar descrever a situação política internacional, o candidato disparou sem piscar:
“Tem os Estados Unidos querendo manter a sua hegemonia no mundo (…) E tem um imperialismo, um país ascendente na nossa opinião, que é a China.”
Eis a grandiosa contribuição da direção do PSTU para a teoria revolucionária do século XXI: a “descoberta” do imperialismo chinês!
É preciso ter uma dose extraordinária de cara de pau — ou de pura ignorância política — para ostentar anos de elaboração teórica para, no final das contas, chegar exatamente à mesma conclusão que qualquer editorialista do The New York Times, da CNN ou do Departamento de Estado norte-americano.
Bastou a China crescer economicamente, expandir suas rotas comerciais e rivalizar com o capital norte-americano para que o PSTU sacasse o carimbo de “imperialista” do bolso. Uma “descoberta” que nada tem de revolucionária, mas que atende perfeitamente aos interesses da propaganda de guerra da OTAN.
Para tentar sustentar a tese do “imperialismo chinês”, a direção do PSTU é obrigada a fazer o que todo grupo revisionista faz de melhor: rasgar a teoria marxista e jogar a obra de Lênin na lata do lixo.
Em sua obra clássica O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, Lênin definiu com precisão científica os critérios que caracterizam essa etapa histórica do capitalismo: a fusão do capital bancário com o industrial criando a oligarquia financeira, a exportação de capitais em detrimento da exportação de mercadorias, a formação de monopólios internacionais que partilham o mundo entre si e a dominação territorial e militar promovida pelas grandes potências para extorquir e escravizar as nações atrasadas.
Já para o PSTU, qualquer país que cresça, construa infraestrutura no exterior e exporte produtos manufaturados vira automaticamente “imperialista”. É uma confusão tão primária que confunde o simples desenvolvimento econômico e comercial com a pilhagem parasita do capital financeiro global.
A realidade, no entanto, teima em desmentir os profetas do PSTU. Onde estão as bases militares chinesas? Enquanto os Estados Unidos cercam o planeta com mais de 800 bases militares ostensivas, chantageando qualquer povo que ouse resistir, a China não possui uma rede de agressão militar global destinada a derrubar governos e subjugar soberanias nacionais. Onde estão os golpes e as sanções? O imperialismo real sufoca populações inteiras com bloqueios econômicos criminosos (como na Venezuela, Cuba e Irã) e organiza golpes de Estado para saquear petróleo e minérios. A China, por sua vez, atua no mercado mundial por meio de acordos comerciais e investimentos em infraestrutura, sem impor a fórceps a troca de regimes.
Ignorando metodicamente a diferença brutal entre a máquina de guerra do capital financeiro imperialista e um país de desenvolvimento capitalista recente e de economia planejada, o PSTU prefere inventar um “imperialismo de fantasia”. Substituem o método científico do marxismo por um esquema infantil e impressionista, incapaz de distinguir o tubarão que devora o mundo dos países que buscam sobreviver ao cerco da ditadura do dólar.
A tese do “imperialismo chinês” cumpre uma função política extremamente reacionária na luta de classes internacional. Quando se trata de enfrentar a máquina de guerra do capital financeiro, o erro teórico se converte, inevitavelmente, em cumplicidade com o inimigo.
Ao decretar que a China é “imperialista”, a direção do PSTU adota a conveniente e covarde política do “nem-nem”. Trata-se de uma falsa neutralidade que coloca no mesmo patamar a maior potência agressora da história da humanidade — responsável por milhões de mortos, golpes de Estado e guerras de pilhagem — e um país asiático que é o alvo direto do cerco econômico e militar desse mesmo imperialismo.
Na prática, essa operação ideológica funciona como uma autêntica linha de transmissão da propaganda do Departamento de Estado norte-americano para dentro do movimento operário. Ao igualar o agressor imperialista e a nação cercada, o PSTU impede que os trabalhadores compreendam quem é o inimigo principal da humanidade. Em vez de mobilizar contra o imperialismo real, o grupo morenoista cria um “imperialismo fantasma” para justificar sua recusa em defender os países oprimidos ou não imperialistas contra os ataques do bloco ocidental.
Vestindo uma fraseologia supostamente radical, com citações descontextualizadas e jargões revolucionários, o PSTU presta um serviço para a burguesia imperialista. Afinal, para o grande capital, não há nada mais útil do que uma “esquerda” que, em nome do combate ao “imperialismo chinês”, acaba chancelando a política agressiva do próprio imperialismo.
O disparate teórico do PSTU é a expressão acabada e inevitável da falência histórica do morenoismo — uma corrente revisionista que carrega em seu código genético a marca da capitulação sistemática diante da pressão da opinião pública burguesa. Toda vez que o imperialismo ergue as garras contra um país que se recusa a se curvar integralmente aos seus ditames, o morenoismo cede à pressão e inventa uma “teoria” sob medida para justificar sua covardia política.
Foi exatamente esse o roteiro na Líbia, na Síria, na Ucrânia e, agora, na questão chinesa. Em cada um desses cenários, a receita do PSTU é rigorosamente a mesma: identificar onde a máquina de guerra da OTAN está atacando, encontrar um pretexto qualquer para demonizar o alvo da agressão e decretar uma “neutralidade” fraudulenta que, na prática, deixa o caminho livre para a intervenção imperialista.
A verdadeira tradição do marxismo e do trotskismo não guarda qualquer relação com esse neutralismo de covardes. O dever elementar de qualquer organização que se pretenda revolucionária é direcionar todo o fogo contra o imperialismo real, que é a verdadeira força parasitária que sufoca a economia mundial e ameaça a humanidade com a barbárie e permanecer incondicionalmente no campo das nações oprimidas e dos países não imperialistas quando estes são cercados, chantageados ou atacados pelas potências imperialistas, independentemente da natureza de seus governos.


