Soros brasileiro

Por que este banqueiro bilionário financia PSOL, PT e PSB?

Herdeiro da fortuna do Unibanco já destinou R$400 mil a cinco candidaturas da esquerda; entre os beneficiados estão Manuela d’Ávila e Anielle Franco

Walter Salles já destinou R$400.000,00 a cinco candidaturas do PT, PSOL e PSB nas eleições deste ano. Cineasta premiado e herdeiro de uma das maiores fortunas do Brasil, Salles pertence à família que controlava o Unibanco, instituição que se fundiu com o Itaú em 2008.

Os registros da Justiça Eleitoral mostram três doações de R$100.000,00. O dinheiro foi destinado a Manuela d’Ávila, candidata do PSOL ao Senado pelo Rio Grande do Sul; Anielle Franco, candidata do PT a deputada federal pelo Rio de Janeiro; e Chico Rubens Paiva, candidato do PSB à Câmara pelo mesmo estado.

Vilma Reis, candidata do PT a deputada estadual na Bahia, recebeu R$50.000,00. Outros R$50.000,00 foram para Abidan Henrique, candidato do PSB a deputado estadual em São Paulo.

São cinco candidaturas de três partidos diferentes, escolhidas pelo mesmo bilionário.

Walter Salles é conhecido principalmente por seus filmes, mas sua fortuna não veio do cinema. Ele é filho de Walther Moreira Salles, fundador do Unibanco, e membro de uma das famílias mais ricas do País. A Forbes calcula sua riqueza em mais de US$5 bilhões, proveniente principalmente dos setores bancário e mineral.

A família Moreira Salles também possui participação na Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), uma das maiores empresas do setor de nióbio no mundo.

Sua atuação cinematográfica, por sua vez, está ligada aos grandes grupos brasileiros e imperialistas da indústria cultural. Ainda Estou Aqui, seu filme de maior repercussão recente, foi o primeiro longa-metragem Original Globoplay. A distribuição internacional passou pela Sony Pictures Classics. É um homem ligado à Rede Globo e a Hollywood.

Salles reúne, portanto, duas características importantes. É herdeiro direto de uma dinastia do grande capital brasileiro e, ao mesmo tempo, uma figura de prestígio no setor cultural, apresentada como representante de uma burguesia liberal, esclarecida e preocupada com as chamadas causas sociais.

Essa imagem ajuda a esconder uma questão elementar: por que um homem cuja riqueza se mede em bilhões de dólares e tem origem no sistema financeiro coloca centenas de milhares de reais em campanhas de partidos considerados de esquerda?

As doações de 2026 não são um episódio isolado.

Walter Salles financia candidatos há anos. Levantamentos das eleições anteriores mostram que suas contribuições ultrapassaram R$1 milhão somente em 2022, quando apoiou candidatos do PT, PSB, PSOL, PCdoB e de outros partidos.

Naquela eleição, Douglas Belchior, do PT de São Paulo, recebeu R$150.000,00. Vilma Reis, que voltou a receber dinheiro de Salles neste ano, teve R$100.000,00 em sua campanha. Wesley Teixeira, então candidato pelo PSB, recebeu R$70.000,00. Outros nomes da esquerda também apareceram entre os beneficiários.

Houve até discussão interna no PSOL sobre o assunto. Em 2022, Walter Salles realizou uma doação para a candidatura de Henrique Vieira. A contribuição provocou protestos dentro do partido e acabou sendo devolvida. Dois anos antes, a relação de candidatos do PSOL com o dinheiro do bilionário já havia causado controvérsia.

Em 2026, porém, Manuela d’Ávila recebeu R$100.000,00 para sua campanha ao Senado.

A ex-deputada passou a maior parte de sua trajetória no PCdoB e atualmente está filiada ao PSOL. É uma das figuras de maior projeção nacional entre os candidatos financiados por Salles.

No Rio de Janeiro, Chico Rubens Paiva também recebeu R$100.000,00. Nesse caso há uma relação particular. Chico é neto do ex-deputado Rubens Paiva e de Eunice Paiva, cuja história serviu de base para Ainda Estou Aqui.

O candidato, porém, não recebeu dinheiro apenas de Salles. Entre os financiadores de sua campanha também aparece Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e um dos representantes mais conhecidos da política econômica neoliberal no Brasil.

Esse dado torna ainda mais claro o meio social que cerca determinadas candidaturas apresentadas como progressistas.

Anielle Franco recebeu outros R$100.000,00 de Walter Salles.

Antes de ocupar o Ministério da Igualdade Racial no governo Lula, Anielle trabalhou como consultora do Programa para a América Latina da Open Society Foundations, fundação criada pelo especulador bilionário George Soros. A própria organização informou que ela havia iniciado essa atividade no final de 2018.

A Open Society também colocou dinheiro em projetos relacionados ao legado de Marielle Franco. A fundação anunciou recursos milionários para iniciativas desse campo e aparece entre apoiadores de trabalhos desenvolvidos pelo Instituto Marielle Franco.

Agora uma candidata que passou por essa estrutura recebe dinheiro eleitoral de outro bilionário.

Walter Salles pode ser considerado uma espécie de George Soros brasileiro. Não porque os dois façam parte de uma organização comum, mas pelo papel político desempenhado por uma determinada ala da burguesia.

Em vez de aparecer apenas como banqueiro, grande empresário ou especulador, esse setor procura apresentar-se como um filantropo progressista. Financia organizações ligadas às mulheres, aos negros, ao meio ambiente e aos direitos humanos. Patrocina produções culturais e mantém relações próximas com partidos e personalidades da esquerda.

A origem e os interesses de classe, porém, continuam os mesmos.

A fortuna da família Moreira Salles cresceu ligada ao sistema bancário. O Unibanco acabou fundido ao Itaú, formando o maior banco privado do País. Enquanto isso, os bancos brasileiros estão entre os maiores beneficiários dos juros elevadíssimos impostos à população e ao Estado.

O Itaú teve lucro de bilhões de reais somente no segundo trimestre deste ano. No mesmo período, os dados do Banco Central mostram uma população cada vez mais endividada e incapaz de pagar suas contas.

O fato de um herdeiro dessa fortuna financiar candidatos que discursam sobre problemas sociais não transforma os interesses do capital financeiro em interesses populares.

O que mudou profundamente foi a própria esquerda.

Uma parte muito grande dela se integrou ao regime da burguesia a tal ponto que passou a receber normalmente dinheiro dos capitalistas mais ricos da sociedade. Bilionários financiam campanhas, fundações privadas sustentam organizações e grandes empresas aparecem como parceiras de projetos apresentados como progressistas.

A questão não é saber se a doação está declarada ao Tribunal Superior Eleitoral. Ela está. O problema é político.

Quem depende do dinheiro dos grandes capitalistas não organiza uma política independente contra esses mesmos capitalistas.

Como diz o ditado, quem paga a banda escolhe a música.

E a música dos banqueiros não é o fim dos juros extorsivos, igualdade social ou direitos para a população. É a preservação do capitalismo e a intensificação da política neoliberal, ainda que acompanhados por um discurso liberal sobre determinadas questões sociais.

Por isso um homem com bilhões de dólares pode financiar PT, PSOL e PSB sem enxergar nessas candidaturas uma ameaça aos seus interesses.

Não é Walter Salles que se tornou socialista. É uma parcela da esquerda que deixou de representar qualquer perigo para os banqueiros.

As doações deste ano fornecem uma demonstração concreta desse processo. Em poucos dias, um único herdeiro de uma das principais famílias do capital financeiro brasileiro distribuiu R$400.000,00 entre Manuela d’Ávila, Anielle Franco, Chico Rubens Paiva, Vilma Reis e Abidan Henrique. O dinheiro atravessa três partidos e três estados diferentes. O financiador é o mesmo.

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