No artigo O que é ser trotskista no século XXI?, publicado em 23 de agosto no sítio Revista Movimento, ligado ao MES-PSOL, Pedro Fuentes procura explicar por que o trotskismo teria tido pouca influência sobre as revoluções posteriores à Revolução Russa. Na terceira e última parte desta polêmica, aparece a fórmula que amarra sua argumentação. Segundo Fuentes, o problema dos trotskistas teria sido defender o programa e não saber fazer política: “É sabido que a política não se faz com o programa.”
Fuentes afirma que o programa organiza as necessidades presentes em relação à luta pelo socialismo, enquanto a política deveria partir “da correlação concreta de forças que há entre as classes sociais neste momento”. Vai além: “A política e o programa coincidem se voltam a mesma coisa só em um momento da luta de classes, quando a crise revolucionaria coloca a questão de poder.”
Aqui está o problema inteiro.
Para que serve um programa?
Fazer política não significa repetir o programa inteiro diante de qualquer acontecimento. Um partido pode apoiar uma greve salarial sem exigir dos grevistas adesão prévia à revolução socialista. Pode realizar uma frente única para uma luta determinada e adaptar palavras de ordem às condições concretas.
Mas sua política não pode caminhar contra seu programa.
O programa existe justamente para definir quais classes estão em luta, qual o objetivo da organização e quais limites uma tática não pode ultrapassar. Se, até chegar a uma situação revolucionária, a política prática pode seguir outra direção, o programa deixa de orientar a ação e vira uma declaração para os dias de festa.
Fuentes chega a afirmar que “fazer política com o programa é o que leva ao propagandismo” e critica os trotskistas que procuram a “diferenciação programática com o centrismo ou o reformismo”.
Mas, se a diferença entre revolucionários e reformistas não aparece na política concreta, para que serve afirmá-la no programa?
‘Construí-los lealmente’
Fuentes oferece exemplos de sua política. Propõe “ser parte dos novos processos políticos e construí-los lealmente sem ocultar por isso nossas ideias e nosso programa”. Entre esses “processos” cita Syriza, Podemos, PSOL e Bernie Sanders, candidato nas primárias do Partido Democrata norte-americano.
A experiência posterior de Syriza e Podemos torna a formulação ainda mais comprometedora.
O Syriza chegou ao governo grego em 2015 impulsionado pela rejeição popular à austeridade imposta pela União Europeia. Seu governo terminou aceitando justamente um novo pacote de austeridade, apesar de a população grega ter rejeitado as exigências europeias num plebiscito.
Na Espanha, o Podemos surgiu apresentando-se como alternativa à velha ordem partidária. Poucos anos depois, entrou no governo de coalizão dirigido pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), ocupou ministérios e passou a administrar o mesmo Estado burguês que dizia pretender transformar.
Essas organizações não romperam com o sistema político tradicional. Serviram como uma renovação de sua aparência: recolheram o descontentamento produzido pela crise e o canalizaram novamente para a administração do Estado capitalista.
É exatamente aqui que aparece o problema de “construí-los lealmente”. Uma coisa é atuar entre trabalhadores que possuem ilusões em determinada organização para conquistá-los a uma política revolucionária. Outra é assumir como tarefa o fortalecimento dessa própria organização.
Um revolucionário não pode trabalhar “lealmente” para construir uma organização reformista, ou submete sua política às suas necessidades e o programa revolucionário permanece no discurso enquanto a prática fortalece outra direção.
O caso de Sanders leva essa contradição ainda mais longe. É necessário disputar trabalhadores que tenham ilusões no Partido Democrata. Outra coisa é ajudar a construir uma candidatura dentro de um dos dois grandes partidos da burguesia imperialista norte-americana.
O programa diz independência da classe operária. A “política concreta” permite fortalecer organizações reformistas e até uma campanha dentro do Partido Democrata. Depois, a preocupação com a diferenciação diante do reformismo recebe o nome de “propagandismo”.
É justamente para permitir essa contradição que serve a separação entre programa e política.
Até a restauração vira ‘revolução’
O mesmo método aparece quando Fuentes trata da destruição dos Estados operários do Leste Europeu. Ele afirma que “foram revoluções democráticas” que derrubaram as burocracias, embora reconheça que “não abriram o caminho até um socialismo com democracia, senão à restauração do capitalismo”.
Ou seja, processos que terminaram com a restauração capitalista recebem o nome de “revoluções democráticas” em vez de contrarrevolução.
Não basta que haja mobilizações e que um regime político caia para definir um processo como revolucionário. É preciso perguntar qual classe saiu fortalecida, o que aconteceu com a propriedade e qual regime social resultou da transformação.
Se a consequência foi a destruição da propriedade estatal e a restauração do capitalismo, tratar o processo como “revolução democrática” significa separar novamente a aparência política de seu conteúdo de classe.
Uma Internacional em que os trotskistas sejam minoria
A contradição chega também à organização internacional. Fuentes defende “a bandeira sem máculas da IV Internacional” e, ao mesmo tempo, propõe “uma nova internacional onde […] os trotskistas sejamos minoria”.
Se o programa da IV Internacional continua correto em seus fundamentos, por que construir uma organização em que os defensores desse programa sejam minoria? Se foi superado, qual programa deve substituí-lo?
Novamente, conserva-se Trótski como referência histórica enquanto a política real é realizada dentro de organizações de outro programa. Em outras palavras, é uma falsficação.
As três partes desta polêmica revelam uma sequência. Primeiro (leia), Fuentes estabelece que ser trotskista significa começar por “superar” Trótski. Depois (leia) minimiza sua luta contra a Frente Popular na Espanha. Finalmente explica o mecanismo que permite realizar essas revisões: “a política não se faz com o programa”.
Syriza e Podemos mostram aonde esse método conduz. Em nome de acompanhar os “novos processos”, organizações que se apresentavam como alternativas acabam integradas à administração da ordem capitalista. Os revolucionários que assumem como tarefa “construí-las lealmente” não estão usando o reformismo para construir um partido revolucionário; estão usando seus militantes para fortalecer o reformismo.
Uma tática revolucionária pode ser extremamente flexível. O que ela não pode fazer é caminhar contra a independência política dos trabalhadores.
O programa que não dirige a política cotidiana não é um programa. É um documento guardado na gaveta enquanto a política real caminha para a direita.





