Apesar do evento na Vila Euclides, que tentou resgatar um certo “PT das origens” que vive no imaginário popular, o fato é que o Partido dos Trabalhadores mudou sua base social, como demonstra o artigo Apoio dos partidos de esquerda e centro-esquerda farão suas bancadas crescerem, de Alberto Cantalice, publicado no Brasil247 nesta quarta-feira (27).
Cantalice comemora dizendo que “pela primeira vez desde as eleições presidenciais de 1989, um único candidato consegue congregar o apoio de todo o campo progressista em uma eleição. Esse fato carregado de simbolismo além de demonstrar maturidade nos segmentos populares, transformou a candidatura de Lula na única a ter uma coligação de partidos. O que ampliou significativamente o seu tempo de exposição nos rádios e nas TVs. E, não só isso. Ao passo que PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, PV e Rede têm uma candidatura forte e conhecida como a de Lula, isso auxilia que os candidatos ao Senado e a deputado possam fazer suas campanhas sem terem que explicar ao eleitorado quem é ou o que já fez esse determinado candidato majoritário”.
O que Cantalice chama de “campo progressista” está recheado de golpistas. No golpe de 2016, o PSB, de seus 32 votos no Congresso, destinou 29 a favor do impeachment de Dilma Rousseff; o PDT, por sua vez, de 19 votos, deu 6 para o golpe. Já o PV não teve dúvidas; de seus 6 votos, todos foram contra Dilma, enquanto a Rede ficou no empate: dois contra e dois a favor. Com um “campo progressista” assim, quem precisa de reacionários?
Ao contrário do que diz Cantalice, não se trata de demonstração de maturidade de “segmentos populares” — que de populares não têm nada —, mas de colaboração de classes. O PT, que deveria representar os interesses da classe trabalhadora, está se unindo cada vez mais aos golpistas, tendência que já tinha sido demonstrada quando o senador Humberto Costa (PT-PE), em 2017, disse que era preciso “virar a página do golpe”. No mesmo ano, o candidato à reeleição para a Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, disse em uma entrevista que “golpe” era uma palavra “muito dura” para descrever o que tinham feito contra Dilma Rousseff e seu partido.
Cálculos e mais cálculos
O que importa, não são os interesses da classe trabalhadora, mas que a coligação “ampliou significativamente o seu tempo [de Lula] de exposição nos rádios e nas TVs”.
Cantalice demonstra que o PT virou uma verdadeira lavanderia de reputações ao dizer que “os candidatos ao Senado e a deputado possam fazer suas campanhas sem terem que explicar ao eleitorado quem é ou o que já fez esse determinado candidato majoritário”. Simone Tebet, por exemplo, não precisa explicar que votou pelo golpe. Uma verdadeira maravilha.
Para o dirigente petista, “isso não é pouca coisa em uma eleição de ‘tiro curto’, cuja duração é de meros 45 dias. Outro dado a se relevar é o fato de Lula já partir para a disputa com um patamar de 40% na pesquisa espontânea, o que delimita um campo de ação alto para os candidatos proporcionais. Identificado regionalmente e localmente esse eleitor, pode o candidato majoritário e proporcional afirmar: “Não basta só eleger Lula. É preciso que ele tenha deputados e senadores que o ajudem a governar”. Pelo que tenho visto e escutado de vários candidatos, esse tipo de abordagem está ajudando muito”.
Nenhum partido, tirando o Partido da Causa Operária, denuncia o fato de uma eleição ser de “tiro curto”. O TSE atenta contra a democracia ao impedir que o eleitorado conheça candidatos e propostas, o que só serve para favorecer determinados políticos e partidos tradicionais do regime.
Quanto a ter deputados e senadores, quem garante que vão ajudar a governar? Essa gente não deve fidelidade a Lula. Neste mandato, o petista tem o centrão como base e não consegue aprovar nada.
Senso de humor
Um dos méritos de Cantalice é ter um ótimo senso de humor e saber fazer piadas, como no trecho em que alega que “outro dado significativo dessa ampla aliança é, sem sombra de dúvidas, a forma elegante e companheira no tratamento entre os proporcionais dessa ampla aliança. Pela primeira vez, a grande política preside essa disputa. ‘Derrotar o golpismo e a extrema direita, para avançar nas conquistas do povo brasileiro’”. Alguém pode se perguntar: como derrotar o golpismo se unindo a golpistas? Mas é justamente essa a piada.
Para o petista, “esses fatos além de motivadores demonstram a maturidade adquirida por essas forças na luta contra o bolsonarismo e contra a ameaça de golpe de Estado por Bolsonaro e sua turma”. Vejam só, contra quem “ameaça” dar um golpe de Estado, nada melhor do que se unir àqueles que não ameaçaram, mas deram efetivamente um golpe. O nome disso é maturidade?
Fazendo suas contas, Cantalice diz que, para Lula governar, “um cenário ideal para sustentar as mudanças seria a eleição de 200 deputados e deputadas federais desse campo e aproximadamente 20 senadores. É difícil? É. Mas não impossível. Perseguir essa meta e conquistá-la daria uma estabilidade sem precedentes ao governo Lula. Sem contar que o presidente tem apoios sólidos em outras legendas que não compõem o campo das forças populares. O que lhe garantiria maioria nas duas Casas legislativas, is“”olando o extremismo direitista”.
Estabilidade para fazer o quê? Esses golpistas que o PT está apoiando vão aprovar medidas que entrem em choque com o grande capital ou contra o latifúndio? Quem Cantalice acha que está enganando? Sem base popular, Lula fará ainda menos do que fez neste mandato.
Não é necessário se preocupar com “mentiras ou a pós-verdade com o apoio sistemático dos algoritmos”, com “interferência estrangeira”, quando os sabotadores estão dentro das próprias alianças.





