No artigo Janja e o machismo crítico e recreativo das esquerdas, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (26), Moisés Mendes critica setores da esquerda que questionaram a participação de Janja no ato da Vila Euclides em São Bernardo, onde ela cantou uma música gospel ao lado do pastor Kleber Lucas. Para Mendes, essas críticas ajudam a extrema direita, que já mantém uma campanha permanente contra a esposa de Lula, e seriam ainda uma expressão inventada de um suposto “machismo recreativo e cultural” existente dentro da própria esquerda.
Mendes pretende estabelecer que, diante da proximidade das eleições e da ofensiva da extrema direita, criticar politicamente Janja é inoportuno e acaba fazendo o jogo do inimigo. Por isso, pergunta: “mas por que atacar Janja por cantar uma música que enquadram como gospel? E numa hora dessas?”.
E qual seria a hora certa? A resposta é: nunca! Se esse critério for aceito, qualquer crítica à política de Lula, do PT ou de seus aliados pode ser condenada pelo mesmo motivo. Sempre será possível dizer que a eleição está próxima, que existe o fascismo, que a direita está atacando etc.
Uma coisa é denunciar a política do governo em meio a um golpe de Estado, como fez o PSOL. Outra completamente diferente é criticar a direitização do PT em meio à frente ampla que a direção petista tenta impor sobre as bases. No primeiro caso, é uma frente única com os golpistas; no segundo, uma tentativa de empurrar o PT à esquerda diante da pressão exercida pela burguesia.
Mendes chega a ironizar uma “esquerda chata, destemida para dizer o que Janja deve ou não fazer, a menos de dois meses da eleição”. Ou seja, o problema não seria demonstrar que determinada crítica está errada. O problema seria fazê-la quando, segundo ele, seria necessário cerrar fileiras com os golpistas da frente ampla em torno da candidatura de Lula.
Esse método, ao contrário do que sugere o jornalista, não fortalece a luta contra a direita, apenas impede que os trabalhadores saibam quais políticas estão sendo defendidas em seu nome.
Absurdamente, Mendes tenta colocar críticas políticas feitas pela esquerda no mesmo terreno dos ataques da extrema direita. “Renan Santos ataca Janja. O fascismo tem Janja como pauta permanente”. E pergunta se os críticos estariam “fazendo o jogo de Renan Santos”.
Mendes não discute as críticas da esquerda, prefere utilizar a acusação de machismo. Já no título fala-se em “machismo crítico e recreativo das esquerdas”. Afirma que parte da esquerda age “pelo vício do machismo recreativo e cultural”. Mas em nenhum momento demonstra que a crítica à participação de Janja no ato religioso tenha necessariamente conteúdo machista.
O próprio Mendes reconhece que “todas as figuras públicas estão expostas à avaliação”. Mas imediatamente procura estabelecer uma exceção prática: Janja poderia ser avaliada, desde que não seja “numa hora dessas”, desde que a crítica não desagrade à campanha e desde que não possa ser aproveitada pela direita.
A liberdade de crítica, para o jornalista, existe apenas quando não produz consequências políticas, o que elimina a liberdade.
Janja não foi criticada simplesmente por ser “a mulher de Lula”. O próprio Mendes escreve: “não importa se é a mulher de Lula fazendo política”. Exatamente: está fazendo política. E quem faz política está sujeito à crítica. Apresentar essa crítica como agressão contra as mulheres serve para retirar da discussão o problema concreto.
Mendes escreve: “bateram em Janja, bateram na música gospel, batem em quem ouve música gospel”. Mas isso não faz sentido. Aliás, quem bate em música gospel é justamente a esquerda pequeno-burguesa, que trata essas pessoas como “gado” em vez de considerar que milhões de evangélicos trabalham, recebem baixos salários, enfrentam desemprego, pagam aluguel e são explorados como qualquer outro trabalhador.
Essa esquerda não faz debate político com as pessoas a partir de seus problemas concretos; prefere estigmatizá-las. Além disso, esse tipo de música soou, sim, como oportunismo. Para conquistar os setores evangélicos, não é preciso tentar demonstrar afinidade religiosa.
No final do artigo, o autor amplia ainda mais o ataque. Fala na “esquerda branca e descolada dos garotos de Ipanema” e afirma que parte das esquerdas pode ser “tão insuportável quanto a extrema direita”.
Não é de se estranhar que, para condenar os críticos de Janja por supostos ataques pessoais e preconceitos, Mendes termine substituindo o debate político por uma caricatura dos próprios críticos.
Mas essa caracterização grosseira pode ser deixada de lado; o problema é a política que ela procura encobrir.
A suposta luta contra a extrema direita está sendo utilizada para estabelecer uma patrulha dentro da esquerda. Quem critica é acusado de ajudar o fascismo. Quem questiona uma iniciativa da campanha está “fazendo o jogo” de Renan Santos, ou é parte de uma esquerda irresponsável que não compreendeu a gravidade da eleição.
É a mesma política na base da frente ampla: diante da ameaça da direita, seria preciso suspender divergências, evitar críticas e reunir todo mundo em torno de um objetivo eleitoral imediato. A questão é que, com isso, estão fazendo acordos com um “campo progressista” que nada mais é do que uma coleção de golpistas de primeira hora.
Existe uma questão sobre Janja que precisa ser esclarecida: ela é a primeira-dama, ou seja, a esposa do presidente da República, e isso não é cargo político. Janja não foi eleita para nada, não foi eleita por ninguém. No entanto, tem cada vez mais entrado em questões que não lhe dizem respeito, como a censura às redes sociais como o TikTok e o Discord.
Janja tem sido um vetor do identitarismo dentro do PT, o que é também prejudicial, pois se trata de uma política liberal que enfraquece a esquerda. Nesse sentido, a crítica precisa ser feita, e a hora é esta.





