O artigo Quatro mulheres em uma semana e o país nem parou, assinado por Érika Andreassy e publicado no sítio Opinião Socialista na quarta-feira (20), inicia descrevendo três casos de assassinatos e uma agressão de mulheres.
“Quatro mulheres vítimas da violência machista em uma semana. Três delas morreram. E o país nem parou”. O PSTU, como toda a esquerda identitária e pequeno-burguesa, atribui o assassinato de mulheres ao machismo, não à violência generalizada à qual a classe trabalhadora foi atirada em virtude dos abismos sociais.
O título reclama que o Brasil nem parou, ou seja, não deu atenção. Porém, no ano passado, 2025, foram registrados 40.775 assassinatos, o que dá algo em torno de 112 assassinatos por dia. Nesse montante, as mulheres representam 10 assassinatos diários, sendo 4 deles especificamente feminicídio, que, segundo o ordenamento jurídico brasileiro, é quando o crime envolve violência doméstica e familiar, aquele cometido por parceiros ou ex-parceiros (maridos, namorados, ex-companheiros). E também por menosprezo ou discriminação; casos em que o assassino demonstra aversão, ódio ou sentimento de posse pela vítima pelo fato de ela ser mulher.
Para acrescentarmos alguns dados, desses assassinatos, 6.602 foram por ação da polícia. 97% das vítimas eram homens; 82% das vítimas eram negras e a metade disso tinha menos de 30 anos de idade. O Brasil parou?
Vale lembrar ainda que os números podem estar muito subnotificados, pois há inúmeras maneiras de se maquiar as ocorrências.
Não se trata de menosprezar o assassinato de mulheres, apenas deixar estabelecido que a violência é cotidiana.
Para a autora do texto, “a ironia dessa sucessão de corpos estendidos é temporal. Todos esses crimes aconteceram em pleno Agosto Lilás, mês dedicado nacionalmente à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Enquanto prédios públicos se iluminam de roxo e tribunais publicam campanhas digitais sob o slogan “Medidas Protetivas Salvam Vidas”, a realidade das ruas e dos lares desmente a propaganda. Agosto nem terminou e já deixa um rastro de sangue feminino pelo caminho”.
Alguém pode acreditar que “conscientização” vá diminuir a violência, que é fruto de condições materiais objetivas? Toda a gritaria da esquerda contra o “machismo”, “machosfera”, “redpill”, etc., é inútil, pois a vida continua a mesma. Os agentes que motivam a agressão doméstica continuam atuando e, portanto, a violência seguirá existindo.
O esforço identitário de aumentar as penas, de criar uma categoria especial de homicídio, o feminicídio, não resolveu absolutamente nada, apenas deu mais ferramentas para o Estado burguês oprimir a população e fechar o regime. A direita aprova todas essas leis sobre racismo, misoginia, fobias em geral, que a esquerda apresenta, porque interessa à direita a repressão.
Não foi falta de aviso
Érika Andreassy escreve que “no Brasil, o combate à violência transformou-se em uma engrenagem de leis, pactos e compromissos governamentais que falam demais em reduzir os feminicídios, mas falham miseravelmente em garantir a vida das mulheres”. O problema é que isso estava colocado desde o começo. A esquerda desmiolada que vendeu a ideia de que o Estado burguês iria de fato defender as mulheres. Assim como prega leis de censura para proteger as crianças. É uma gente que não aprende.
Não basta dizer que “o ano de 2025 amargou os maiores patamares históricos de criminalidade letal de gênero, totalizando mais de 1.571 feminicídios consumados, além de centenas de milhares de registros de lesão corporal dolosa em contexto doméstico”. É preciso explicar o porquê. A tendência natural da esquerda pequeno-burguesa é atribuir a violência ao “machismo”, à extrema direita, aos perfis da “machosfera”, ao “discurso de ódio”, uma série de ‘explicações que não explicam nada’, pois sempre recorrem a subjetividades.
Adiante, a autora diz que “o feminicídio não é uma fatalidade imprevisível, é o desfecho anunciado de um ciclo que a sociedade e o Estado têm o dever de interromper”. Qual ciclo? Não é explicado, nem como deve ser interrompido. Aliás, com quase 41 mil assassinatos em um único ano no Brasil, e na esmagadora maioria de pessoas de baixa renda, o feminicídio aparece lá embaixo na tabela do ponto de vista da quantidade. Além disso, não é possível resolver a questão do feminicídio se a classe trabalhadora está exposta a todo tipo de violência.
O identitarismo acaba dando ênfase a um tipo de crime, setoriza, como se fosse um problema específico, e tira o foco da luta do proletariado. Uma das funções do identitarismo é justamente essa: fragmentar as lutas e enfraquecê-las.
Quando a autora diz que “a repetição dos casos produz uma certa anestesia social”, é isso que acontece com a sociedade, que está “acostumada” a ver diariamente um número enorme de assassinatos.
O feminicídio em 2025 ficou em 1.571 casos registrados. Se o número tivesse sido zero, teríamos tido no Brasil 39.204 assassinatos. Essa dimensão do problema da classe trabalhadora está sendo deixada de lado, ou ocultada, por uma luta identitária. Ninguém quer que as mulheres sejam mortas ou agredidas, mas os números mostram o quanto a esquerda se deixou levar por uma política que não atende aos interesses gerais da classe trabalhadora.
O identitarismo é uma ideologia burguesa. Em vez de lutar contra as péssimas condições de vida e mostrar as consequências disso na vida da população, a esquerda pequeno-burguesa gasta tempo e energia fazendo “meses temáticos”, o que, literalmente, só serve para atrasar a luta pelos interesses dos trabalhadores, bem como aumentar o poder do Estado burguês e de suas forças repressivas.




