José Múcio cumpriu a promessa antes mesmo de os Estados Unidos precisarem bater à porta. O ministro da Defesa, que recentemente declarou que “abriria o portão” diante de uma invasão norte-americana, autorizou a entrada de militares dos EUA no Brasil para participar do Exercício Formosa 2026.
O treinamento ocorrerá entre 3 e 25 de setembro, em Goiás e no Distrito Federal. A autorização permite a entrada de 55 militares norte-americanos com armamentos, munições, equipamentos de comunicação e material de observação de alvos. Militares franceses e paraguaios também participarão.
A presença de contingentes estrangeiros no exercício não começou neste ano. O escândalo está no momento em que o governo brasileiro decide aprofundar a colaboração com as Forças Armadas dos Estados Unidos.
O imperialismo acaba de levar sua ofensiva militar para dentro da América do Sul. A Venezuela foi atacada, Nicolás Maduro foi sequestrado e levado para os Estados Unidos e o governo norte-americano passou a intervir diretamente sobre o país e suas riquezas. No Caribe e no Pacífico, embarcações continuam sendo bombardeadas sob o pretexto de combate ao narcotráfico.
Ao mesmo tempo, crescem as pressões sobre os demais países latino-americanos. O Brasil é alvo de chantagens econômicas, ameaças e ingerência norte-americana sobre assuntos internos.
A resposta do Ministério da Defesa é receber as tropas da potência agressora para fazer exercícios em território brasileiro.
Já abriu
A autorização ganha um caráter quase cômico diante da declaração de Múcio no começo de agosto.
Questionado sobre uma eventual invasão dos Estados Unidos, o ministro respondeu que teria de abrir o portão. Justificou-se alegando a enorme superioridade militar norte-americana.
“Me perguntaram se os Estados Unidos quisessem invadir o Brasil, o que é que eu faria. Temos que abrir o portão. O Brasil não tem equipamento para enfrentá-lo, nem tem dinheiro para consertar o portão”, disse diante dos capitalistas da Confederação Nacional da Indústria.
A fala causou indignação – não nos industriais, que são tão capachos quanto Múcio – porque partiu justamente do homem encarregado da Defesa Nacional.
Um ministro poderia reconhecer que o Brasil enfrentaria enormes dificuldades numa guerra contra os Estados Unidos. Poderia usar essa constatação para defender o fortalecimento da capacidade militar do País, sua independência tecnológica e uma política destinada a preparar a resistência contra qualquer potência estrangeira.
Sobretudo, deveria dizer que o Brasil, mesmo fragilizado pelo saque neoliberal, enfrentará qualquer invasão. Cuba, asfixiada e destroçada por um bloqueio cruel, Gaza dizimada por um genocídio e o Iêmen esfomeado resistem. Mas o ministro da Defesa do Brasil escolheu anunciar antecipadamente a rendição, comprovando seu capachismo.
O problema não era uma comparação do número de aviões, navios ou mísseis disponíveis de cada lado. Sua declaração revelou a disposição política do governo e, principalmente, do alto comando militar diante do imperialismo.
Essa disposição aparece agora na prática.
Enquanto os Estados Unidos ampliam suas operações militares no continente, o Brasil não estabelece distância do Pentágono. Faz exercícios com ele.
O agressor está dentro de casa
A presença norte-americana ficaria menos absurda se Washington estivesse mantendo relações pacíficas e normais com a América Latina. Ocorre justamente o contrário.
A Venezuela, país que possui mais de 2 mil quilômetros de fronteira com o Brasil, foi alvo de uma operação militar dos Estados Unidos. Não foi uma ameaça distante, um exercício hipotético ou uma declaração diplomática agressiva. Tropas norte-americanas atacaram um país vizinho.
O governo Trump também intensificou as operações armadas no Caribe e no Pacífico e vem utilizando o combate às drogas como justificativa para ampliar a presença militar norte-americana na região.
Para qualquer país latino-americano minimamente preocupado com sua independência, esses acontecimentos deveriam provocar uma revisão completa das relações militares com Washington.
No Brasil acontece o inverso.
Os militares norte-americanos serão recebidos, conhecerão procedimentos das Forças Armadas brasileiras e treinarão com elas. Entrarão com suas próprias armas e seus equipamentos justamente quando seu governo demonstra, na prática, que considera perfeitamente aceitável empregar as Forças Armadas contra países da América Latina.
A submissão dificilmente poderia ser mais explícita.
Uma antiga relação de subordinação
A relação de dependência das Forças Armadas brasileiras diante dos Estados Unidos não surgiu agora.
O oficialato brasileiro mantém há décadas vínculos estreitos com o aparelho militar norte-americano. A influência dos EUA sobre as Forças Armadas teve um papel importante no golpe de 1964 e continuou durante a ditadura militar.
O resultado dessa formação aparece até hoje.
Contra a população brasileira, as Forças Armadas sempre encontram uma função. Participam de operações de Garantia da Lei e da Ordem, ocupam regiões pobres, são utilizadas contra mobilizações sociais e permanecem como uma permanente ameaça de intervenção na política nacional.
Quando aparece o problema elementar de enfrentar uma potência estrangeira, porém, o ministro da Defesa diz para abrir o portão.
Rui Costa Pimenta já havia chamado atenção para o significado da declaração. Reconhecer que o adversário é militarmente superior não significa concluir que a resistência é inútil. Povos muito mais pobres e militarmente inferiores enfrentaram o imperialismo norte-americano.
O Vietnã foi devastado pelos Estados Unidos e venceu a guerra. O Afeganistão foi ocupado durante duas décadas e terminou expulsando as tropas norte-americanas.
A diferença está na decisão de resistir.
O ministro brasileiro anunciou que essa decisão não existe.
“Soberania” para propaganda eleitoral
A situação também expõe a falsidade de todo o discurso oficial sobre soberania nacional.
O governo Lula procura utilizar os conflitos comerciais com Donald Trump para apresentar-se como defensor da independência do Brasil. Mas soberania não consiste apenas em reclamar de tarifas.
O problema decisivo é a independência política, econômica e militar diante do imperialismo.
Não adianta fazer discursos sobre soberania enquanto o próprio Ministério da Defesa desenvolve uma política de subordinação com o Pentágono.
Muito menos quando essa política continua depois de uma agressão militar norte-americana contra um país vizinho.
O Brasil deveria defender a Venezuela, romper a subordinação militar com o imperialismo e organizar uma política comum dos países latino-americanos contra qualquer intervenção dos Estados Unidos no continente.
Múcio segue na direção oposta. O imperialismo aumenta sua pressão e o ministro aumenta a entrega.
Para que serve o Exército?
A declaração de Múcio deveria ter provocado uma crise no governo e no comando das Forças Armadas.
Se um país mantém Exército, Marinha e Aeronáutica, a primeira justificativa para sua existência é a defesa do território contra agressões estrangeiras.
Se a política oficial diante da principal ameaça militar do continente é abrir passagem, sobra perguntar qual é a finalidade de toda essa estrutura.
A resposta oferecida pela história brasileira é pouco honrosa para os militares.
As Forças Armadas demonstraram muito mais disposição para interferir na política interna, golpear governos e reprimir a população do que para enfrentar o imperialismo que submete o País.
O Exercício Formosa é mais uma demonstração desse problema.
Não é preciso imaginar tanques norte-americanos atravessando a fronteira brasileira para perceber a gravidade da situação. No momento em que Washington militariza a América Latina, o ministro da Defesa coloca o aparelho militar brasileiro para confraternizar e treinar com as tropas dos Estados Unidos.
Múcio havia dito o que faria. Está cumprindo sua palavra, devemos reconhecer.




