O governo de Donald Trump anunciou nesta semana mais uma acusação de terrorismo dentro dos Estados Unidos. Jessica Bowie, de 35 anos, foi presa sob a acusação de planejar um atentado contra o Capitólio estadual de Nova Iorque e de prestar apoio material ao Estado Islâmico.
Segundo o Departamento de Justiça, Bowie teria discutido a fabricação de explosivos e manifestado intenção de atacar parlamentares. O caso chama a atenção também pelo papel desempenhado pelo FBI: três informantes participaram da investigação, um deles forneceu dinheiro para a compra de materiais e outro vendeu à acusada uma arma e munição, além de ensiná-la a utilizá-las.
As acusações ainda precisam ser demonstradas judicialmente. Contudo, nos EUA não é crime planejar um atentado, conforme a constituição americana. Mas nem ali as leis, criadas pela burguesia, são realmente respeitadas pela burguesia.
O episódio, ainda, oferece um novo exemplo da facilidade com que o governo norte-americano emprega a categoria de “terrorismo” para colocar cidadãos sob os poderes excepcionais do aparato federal.
Trump não criou esse método. Encontrou-o pronto.
Durante seu primeiro mandato e, principalmente, depois das eleições de 2020, o atual presidente e seus seguidores foram os alvos de uma vasta campanha que procurou transformar a oposição política em problema de segurança nacional.
O ponto culminante ocorreu em 6 de janeiro de 2021.
Naquele dia, milhares de apoiadores de Trump foram a Washington contestar a certificação da vitória de Joe Biden. A eleição havia sido acompanhada por numerosas denúncias de fraude e irregularidades feitas pelo então presidente, por seus advogados e por seus eleitores. Essas acusações não foram aceitas pelos tribunais de maneira a alterar o resultado oficial – uma vez que o aparato da burguesia apoiou a eleição de Biden –, mas os partidários de Trump tinham pleno direito de protestar contra aquilo que consideravam uma fraude eleitoral.
Parte dos manifestantes entrou no Capitólio. Houve depredações, confrontos e agressões. Quem cometeu um crime determinado poderia ser investigado e julgado pelo ato cometido.
Não foi isso, porém, que dominou a campanha posterior.
A imprensa imperialista, o Partido Democrata e setores decisivos do aparelho estatal passaram a apresentar o conjunto da mobilização como uma tentativa de golpe de Estado. “Insurreição”, “terrorismo doméstico” e “ataque à democracia” tornaram-se expressões repetidas diariamente para descrever uma manifestação que reuniu milhares de pessoas com comportamentos e objetivos distintos.
A generalização tinha uma função política.
Era preciso transformar uma mobilização contra o resultado eleitoral numa ameaça excepcional à existência do regime para justificar uma repressão igualmente excepcional.
O FBI iniciou uma gigantesca operação de identificação dos participantes. Fotografias, gravações, registros de deslocamento e comunicações pessoais foram utilizados para localizar pessoas que estiveram em Washington. Centenas acabaram processadas.
Paralelamente, a noção de “terrorismo doméstico” ganhou novo peso na política norte-americana. O então diretor do FBI, Christopher Wray, chegou a utilizar a expressão ao falar dos acontecimentos de 6 de janeiro.
Foi aberto assim um caminho perigoso: uma posição ou mobilização política poderia ser tratada não apenas segundo os atos concretos praticados por indivíduos, mas como parte de uma ameaça interna à segurança do Estado.
Naquele momento, isso parecia conveniente aos adversários de Trump.
A grande imprensa imperialista apresentava a repressão como defesa da democracia. Os democratas exigiam punições cada vez mais duras. Setores que se dizem progressistas também aceitaram a ideia de que, por se tratar da direita, os direitos democráticos dos acusados tinham importância secundária.
O problema é que os poderes entregues ao Estado não desaparecem quando muda o presidente.
Trump voltou à Casa Branca e passou a utilizar contra seus adversários um terreno que seus inimigos haviam ajudado a preparar.
Um dos exemplos mais claros é a ofensiva contra a Antifa.
Em 2025, o governo Trump declarou a Antifa uma organização terrorista doméstica e ordenou aos órgãos federais que perseguissem aquilo que classificassem como suas estruturas, integrantes e fontes de financiamento.
A medida é especialmente ampla porque a Antifa não constitui uma organização nacional centralizada, com direção única e lista definida de integrantes. A expressão é utilizada para designar grupos e militantes antifascistas muito diferentes entre si.
Isso permite que o governo decida com grande liberdade quem será associado ao rótulo.
Neste ano, o Departamento de Justiça anunciou pesadas condenações contra pessoas apresentadas oficialmente como integrantes de uma “célula Antifa” no Texas. Um dos réus recebeu pena de 100 anos de prisão.
Quando a burguesia norte-americana transformou os apoiadores de Trump em paradigma do “extremista interno”, ajudou a tornar aceitável a existência de uma categoria de cidadãos contra os quais o Estado poderia mobilizar instrumentos extraordinários.
Trump apenas trocou o alvo. Antes, o suposto inimigo interno era o manifestante trumpista acusado de tentar destruir a democracia. Agora, pode ser um ativista liberal ou progressista acusado de integrar uma rede terrorista. O aparelho é o mesmo.
A hipocrisia dos setores democratas torna-se particularmente evidente diante dessa continuidade. Eles denunciam hoje o autoritarismo de Trump como se o fortalecimento da repressão política tivesse começado com sua volta ao governo. Claro que não começou.
Foram as próprias instituições apresentadas como guardiãs da democracia que ajudaram a criar o ambiente político no qual a acusação de terrorismo passou a ser usada com crescente naturalidade contra opositores internos.
O Partido Democrata, os grandes jornais e os órgãos de segurança transformaram a mobilização de 6 de janeiro em argumento permanente para ampliar a vigilância e a repressão contra setores da população. Agora colhem o resultado.
O governo Trump demonstra que está perfeitamente disposto a utilizar todos os recursos deixados à sua disposição contra qualquer setor popular que considere inimigo.
O problema é justamente esse. A máquina repressiva não possui fidelidade ideológica aos democratas que a fortaleceram, nem aos republicanos ou aos trumpistas. Quem controla o Executivo procura utilizá-la segundo seus próprios interesses.
A nova acusação contra Jessica Bowie também recorda que esse problema não se limita às grandes organizações políticas.
A utilização de informantes pelo FBI em investigações de terrorismo possui um histórico particularmente obscuro. Uma reportagem da Al Jazeera sobre a questão relembra o caso dos Newburgh Four, quatro homens condenados após uma operação na qual um informante federal teve papel decisivo na elaboração do suposto plano criminoso.
O agente ofereceu dinheiro e incentivos aos acusados. Anos depois, uma juíza que examinou o processo declarou que o verdadeiro articulador da conspiração havia sido o próprio governo.
Casos desse tipo mostram o perigo de conceder poderes cada vez maiores a um aparelho que opera com enorme sigilo e dispõe de recursos para infiltrar, vigiar e até estimular indivíduos a avançar em ações que depois servirão de fundamento para acusações gravíssimas.
O discurso do terrorismo fornece a cobertura perfeita.
Depois que alguém recebe esse rótulo, a defesa de seus direitos passa facilmente a ser apresentada como cumplicidade com a violência. As garantias democráticas tornam-se obstáculos à “segurança”.
Foi exatamente essa mentalidade que se procurou consolidar depois de 6 de janeiro.
Durante anos, a chamada invasão do Capitólio serviu para convencer a população de que era necessário abrir exceções em nome da proteção da democracia. Poucos perguntaram o que aconteceria quando essas exceções fossem controladas pelo outro partido.
A resposta está aparecendo agora.
Trump persegue seus próprios adversários utilizando a mesma concepção segundo a qual determinados movimentos políticos podem ser tratados como ameaças terroristas internas.
Os democratas não têm moral para apresentar esse processo como uma deformação exclusivamente trumpista. Ajudaram a legitimar seus fundamentos e continuam defendendo grande parte do aparato policial e judicial que torna essa perseguição possível.
A chamada democracia norte-americana demonstra mais uma vez seu verdadeiro funcionamento: cada setor da burguesia fortalece o aparelho de repressão quando acredita que ele será utilizado contra seu adversário; depois protesta quando a arma muda de mãos.
A campanha sobre 6 de janeiro não protegeu as liberdades democráticas. Ajudou a estreitar seus limites e a tornar aceitável a perseguição política sob o rótulo de defesa do Estado. Trump encontrou esse caminho pavimentado.




