Consta que Graciliano Ramos, anos após a publicação de “Angústia” (1936), demonstrou enormes reservas à qualidade do seu próprio livro. Apesar de o romance despontar como uma das mais altas expressões artísticas do chamado romance regionalista brasileiro, a restrição revelada pelo escritor tinha alguma justificativa por conta da forma como a obra saiu à lume, notadamente pela impossibilidade de sua revisão.
Isso porque o manuscrito que daria origem ao livro foi literalmente entregue às pressas à secretária de Graciliano Ramos no dia da sua prisão em março de 1936, alguns meses antes da instauração da ditadura do Estado Novo por Getúlio Vargas. O escritor alagoano era então Diretor de Instrução Pública de Maceió, o equivalente ao secretário estadual de educação, e fora acusado pelos integralistas de associação ao comunismo, dentro do contexto de recrudescimento da repressão após o fracassado levante comunista de 1935.
Por conta disso, o escritor não teve tempo de fazer a dilapidação, a revisão obsessiva que marcou as suas obras demais obras, marcadas pela concisão, pela escolha precisa de cada palavra e por uma certa aridez que poeticamente se confunde com o cenário da seca do nordeste e que remontam aos demais livros, o mais conhecido deles chamado “Vidas Secas” (1938).
Isso fez com que Antônio Cândido, o mais importante estudioso da obra de Graciliano Ramos, e pessoa que travou relações pessoais com o escritor, falar que “Angústia” se trata de o livro mais gorduroso do escritor. O que não lhe retira o mérito literário; trata-se de um livro bastante singular dentro das obras de Graciliano Ramos que, por meio do protagonista Luís da Silva e a descrição do seu colapso psicológico, constrói uma narrativa que o coloca no mesmo patamar dos livros mais viscerais de Dostoievski.
É uma obra em que a mais profunda sondagem psicológica e a experimentação em torno das temporalidades da narrativa, quando a história contada se embaralha com as memórias da infância dentro de um mesmo fio condutor, evidenciam algo bastante distinto dos outros escritores da chamada 2ª Fase do Modernismo Brasileiro: Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Jorge Amado, os mais conhecidos deles. Trata-se do livro mais vanguardista daquela geração.
Graciliano Ramos iniciou na literatura relativamente tarde. O seu primeiro romance, chamado “Caetés”, foi publicado em 1933, quando o escritor já tinha sido prefeito de uma cidade no interior de Alagoas e contava, então, com 41 anos de idade.
Antes disso, já havia colaborado com artigos literários na imprensa através de pseudônimos. Curiosamente, a sua descoberta literária se deu após se tornar público um relatório burocrático do prefeito ao governador de Alagoas prestando contas do seu trabalho no município. Esse documento chegou às mãos do poeta e editor Augusto Schmidt, que procura Graciliano Ramos para saber se tem outros escritos que possam ser publicados.
“Caetés” é um romance que vale a pena ser lido mas se trata de uma história mais convencional. A obra acaba se apagando por conta da potência dos livros subsequentes: Angústia, São Bernardo e Vidas Secas certamente estão entre o que de melhor já foi produzido na história da língua portuguesa.
Esse primeiro livro conta a história de um guarda livros que mora numa Casa de Pensão em Palmeira dos Índios; a história se centra na descrição dos tipos populares e da pequeno burguesia num contexto histórico de transição da decadência do mundo rural lastreada no coronelismo e a modernização e urbanização ancorada na emergência da burguesia.
Mas há algo nesse primeiro livro que vai se desdobrar nas demais obras, incluindo Angustia.
Essa mesma tensão entre a herança agrária do passado nordestino e a emergência das cidades se expressa em “Angústia” na figura do protagonista Luís. Ele é o último de uma linhagem que remete ao seu avô, um latifundiário poderoso chamado Trajano Pereira Aquino Cavalcanti, que simbolicamente morre senil e deixa a fazenda em situação de abandono. Isso porque o herdeiro do coronel, Camilo Pereira da Silva, prefere passar os dias na rede lendo livros, usufruindo e exaurindo a riqueza do pai. E aqui nasce o protagonista Luís da Silva, já amargando a pobreza e sendo obrigado a se transferir para a capital Maceió, onde irá amargar a fome, até conseguir um trabalho numa repartição pública e morar numa casa alugada na cidade, acossado por dívidas, sendo constantemente ameaçado de despejo pelo Dr. Tavares.
Note que essa transição do mundo patriarcal rural baseado na riqueza do avô, passando pelo pai indolente, pródigo e remediado, até o filho amargando a pobreza na cidade, se desdobra simbolicamente na extensão dos nomes de cada personagem: o avó chamado pomposamente de “Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, o filho na zona intermediária chamado Camilo Pereira da Silva e o último da linhagem, como o mero Luís da Silva.
O esquema da história é relativamente simples. Luís da Silva exerce um cargo burocrático numa repartição e à noite escreve no jornal artigos elogiando o governo, sujeitando-se a escrever o que lhe for ordenado para receber um magro ordenado. Trava relações com Moisés, um judeu simpatizante do comunismo que lhe empresta dinheiro e depois se envergonha de cobrá-lo, enquanto o devedor se envergonha de enfrentar o credor. Essa situação curiosa ressalva a contumaz solidão do protagonista. Moisés que poderia ser o único amigo, um laço que prendesse Luís à solidariedade humana é afastado pelo mútuo vexame em torno dos empréstimos.
Vive numa casa do subúrbio onde rondam ratos pela despensa lhe devorando os livros. Tem em sua companhia Vitória, uma senhora meio senil, que conversa com o papagaio e nas poucas conversas, se limita a dizer platitudes, informando Luís da Silva sobre os nomes dos passageiros que chegavam à cidade de acordo com as notícias dos jornais.
O protagonista se apaixona por uma vizinha jovem e bonita chamada Marina enquanto lia um romance no quintal da casa:
“Fiquei lendo o romance, péssimo romance, enquanto a tipinha se mexeu entre as roseiras. Notei, notei positivamente que ela me observava. Encabulei. Sou tímido: quando me vejo diante de senhoras, emburro, digo besteiras. Trinta e cinco anos, funcionário público, homem de ocupações marcadas pelo regulamento. O Estado não me paga para eu olhar as pernas das garotas. E aquilo era uma garota. Além de tudo, sei que sou feio. Perfeitamente, tenho espelho em casa”.
Ainda assim, Luís consegue travar um relacionamento amoroso com a vizinha, ainda que desprovido completamente de algum afeto verdadeiro. O protagonista se entrega ao impulso sexual e deseja o casamento com a racionalidade de um comerciante; Marina se entrega não por gosto, mas pelo interesse nos presentes e no dinheiro do enxoval. Vai defendendo a virgindade com unhas e dentes em troca de dinheiro. Luís vai contando os niqueis para conseguir atender os desejos da noiva até o surgimento de Julião Tavares, um herdeiro de um rico comerciante que lhe toma Marina por conta dos seus recursos financeiros.
O ódio de Luís por Julião Tavares irá conduzi-lo à tragédia que remonta ao fim da história. Luís vai sendo aniquilado pelos seus próprios pensamentos, movidos de forma cada vez mais obsessiva pelo desejo de matar Julião. Carrega consigo no bolso uma corda e vai fantasiando e planejando a forma de matar o rival. Há no final do livro um crescente estado de colapso mental que conduz Luís à alucinação – o assassinato é o coroamento da loucura. As últimas páginas do livro são manifestações da perda da consciência e da razão.





