O presidente do birô político do Hamas, Khalil al-Haia, reuniu-se neste domingo (16), na cidade egípcia de Alamein, com Jared Kushner, enviado especial do presidente norte-americano Donald Trump para o Oriente Médio. O encontro teve como centro a aplicação da segunda etapa do acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza, diante da recusa de “Israel” em cumprir os compromissos assumidos e de sua exigência de desarmamento da resistência palestina.
Al-Haia havia chegado ao Egito na noite de sábado (15), à frente de uma delegação do Hamas que inclui integrantes da equipe de negociação do movimento, entre eles Zaher Jabarin. Pela manhã, o dirigente palestino reuniu-se separadamente com o chefe da Inteligência Geral egípcia, Hassan Rashad, para discutir os mecanismos de aplicação do roteiro negociado para Gaza.
Foi a primeira visita de Al-Haia ao Cairo desde que assumiu, no final de julho, a presidência do birô político do Hamas. Veterano das negociações sobre Gaza, ele se tornou nos últimos anos um dos principais representantes do movimento nas conversações com mediadores árabes e com os países que participam das tratativas em torno do cessar-fogo.
No encontro com Kushner também participaram Rashad; o diplomata catariano Ali Al Thawadi; um alto funcionário turco; o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair; e Nikolay Mladenov, representante do chamado “Conselho da Paz” para Gaza.
A reunião é particularmente significativa porque os Estados Unidos mantiveram durante décadas a política oficial de não estabelecer contatos com o Hamas, organização incluída por Washington em sua lista de grupos “terroristas”. O governo Trump, no entanto, passou a manter conversações diretas com representantes da resistência palestina como parte das negociações sobre Gaza.
Segundo uma fonte palestina ouvida pela Al Jazeera, a direção do Hamas apresentou a Kushner um relato das sucessivas violações do cessar-fogo cometidas por “Israel”. O enviado norte-americano teria afirmado, por sua vez, que Washington rejeita qualquer plano de expulsão da população palestina da Faixa de Gaza.
O Hamas declarou após a reunião que reafirmou sua aceitação do roteiro para a segunda etapa do acordo. O movimento destacou, porém, que a primeira etapa foi cumprida pela resistência palestina, enquanto “Israel” manteve suas operações militares, assassinatos e incursões e, além disso, rejeitou os termos previstos para a fase seguinte.
“Chamamos as partes mediadoras e o Conselho da Paz a cumprir suas responsabilidades e obrigar a ocupação a implementar todas as suas obrigações da primeira fase, pôr fim a todas as violações, interromper os assassinatos e incursões, aceitar o roteiro da segunda fase do plano do presidente Trump e começar a elaborar um cronograma para sua implementação”, afirmou o Hamas.
O ponto principal da disputa continua sendo a tentativa de “Israel” de impor o desarmamento unilateral da resistência. O primeiro-ministro sionista, Benjamin Netaniahu, rejeitou o documento de 15 pontos apresentado para a segunda etapa e declarou que as tropas de ocupação não se retirarão enquanto não ocorrer o que chamou de “verdadeiro desmantelamento das armas do Hamas”.
A posição entra em choque com a ordem prevista no próprio acordo. O roteiro estabelece uma retirada gradual das tropas sionistas de amplas regiões da Faixa de Gaza e a transferência das funções civis para um comitê palestino. O Hamas sustenta que qualquer medida relacionada ao armamento da resistência depende do cumprimento prévio das obrigações assumidas por “Israel”, especialmente a retirada das forças de ocupação e o fim dos ataques contra os palestinos.
Mladenov chegou a declarar anteriormente que “Israel” não teria de assumir novos compromissos antes de o Hamas entregar todas as armas, incluindo fuzis Kalashnikov. A exigência procura inverter completamente os termos do acordo, fazendo com que a resistência abandone seus meios de defesa enquanto o Exército sionista permanece dentro de Gaza e continua atacando a população.
O chamado “Conselho da Paz” foi criado em janeiro deste ano, a partir da proposta norte-americana que sucedeu ao cessar-fogo estabelecido em outubro de 2025. Inicialmente apresentado como órgão encarregado de acompanhar o acordo e a reconstrução de Gaza, teve posteriormente suas atribuições ampliadas para outros conflitos internacionais.
As divergências em torno do plano aumentaram depois que Netaniahu qualificou como “inaceitável” o novo roteiro apresentado pelos norte-americanos. Neste domingo, os chanceleres de Egito, Emirados Árabes Unidos, Catar, Jordânia, Indonésia, Paquistão, Turquia e Arábia Saudita condenaram a rejeição sionista e afirmaram que “Israel” passou a carregar a responsabilidade pelo bloqueio da aplicação do acordo.
A pressão ocorre enquanto os ataques contra Gaza prosseguem apesar do cessar-fogo em vigor desde outubro do ano passado. Neste domingo, ao menos cinco palestinos ficaram feridos depois que um ataque sionista atingiu um acampamento de tendas em Khan Younis. Outro bombardeio atingiu um apartamento no campo de refugiados de Nuseirat, no centro da Faixa de Gaza, deixando vários feridos.
De acordo com fontes oficiais palestinas, mais de 1.250 palestinos foram assassinados por “Israel” desde a entrada em vigor do cessar-fogo. Desde o início da guerra de extermínio contra Gaza, em outubro de 2023, o número de palestinos mortos já ultrapassa 73.300.




