A Arábia Saudita anunciou na quinta-feira (13) o lançamento de uma coalizão militar marítima multinacional para atuar no Mar Vermelho e no Golfo de Áden. Sob o pretexto de “proteger” a navegação comercial, Riade procura organizar uma força internacional em meio à retomada da guerra contra o Iêmen.
Segundo o Ministério da Defesa saudita, 13 países concluíram os procedimentos para integrar a coalizão e 15 assinaram sua declaração conjunta. A Arábia Saudita indicará o primeiro comandante, enquanto o Paquistão deverá nomear o vice-comandante. A aliança prevê compartilhamento de informações de inteligência, exercícios conjuntos e operações militares no Mar Vermelho e no Golfo de Áden.
A iniciativa ocorre depois de aproximadamente quatro anos de relativa interrupção da guerra lançada pela Arábia Saudita contra o Iêmen em 2015. Apoiada pelos Estados Unidos e seus aliados, a monarquia tentou durante anos destruir o Ansar Alá e impor ao país um governo subordinado a Riade.
A operação fracassou. Mesmo submetido a bombardeios e a um duro bloqueio, o Iêmen resistiu e desenvolveu capacidade militar para atingir território e instalações petrolíferas sauditas. Em 2022, Riade foi obrigada a aceitar um cessar-fogo, seguido por negociações que nunca resultaram em um acordo definitivo.
A relativa trégua começou a ruir em julho. No dia 13 daquele mês, forças apoiadas pela Arábia Saudita atacaram o aeroporto internacional de Sanaa para impedir o retorno de uma delegação iemenita que estava no Irã. O governo de Sanaa responsabilizou Riade, declarou encerrado o período de cessar-fogo e anunciou que responderia à agressão.
Pouco depois, o Iêmen impôs um bloqueio à navegação vinculada à Arábia Saudita no Mar Vermelho. Sanaa resumiu sua política na fórmula “bloqueio por bloqueio e escalada por escalada”: enquanto os sauditas mantiverem o cerco contra portos, aeroportos e estradas do país, interesses sauditas também serão atingidos.
Nas últimas semanas, as Forças Armadas iemenitas realizaram ataques com mísseis balísticos e drones contra concentrações de tropas apoiadas por Riade em Mocha e Marib. Segundo fontes do governo saudita no Iêmen citadas pela Reuters, ao menos 30 soldados morreram.
Os ataques também atingiram o porto de Mocha, que teve suas operações suspensas. Neste domingo (16), a Defesa Civil saudita emitiu um alerta de “perigo potencial” para a província de Jazan, na fronteira com o Iêmen, depois de novos ataques iemenitas na região.
Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita voltou a bombardear território iemenita. Na quinta-feira (13) e na sexta-feira (14), a artilharia saudita atacou áreas residenciais da província de Saada, no norte do país, atingindo localidades dos distritos fronteiriços de Ghamr e Baqim.
Sanaa anunciou que continuará respondendo enquanto prosseguirem os ataques e o bloqueio. As forças iemenitas também informaram ter atingido instalações da Saudi Aramco em Najran com um drone.
A criação da coalizão marítima procura enfrentar justamente um dos principais problemas colocados pela reação do Iêmen. Com a guerra entre Estados Unidos e Irã e os problemas para a navegação pelo Estreito de Ormuz, o Mar Vermelho tornou-se uma rota ainda mais importante para o petróleo saudita.
A Saudi Aramco passou a enviar grandes volumes de petróleo pelo oleoduto que atravessa o país até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Desde junho, os embarques pelo terminal ultrapassam em média quatro milhões de barris por dia, mais de quatro vezes o volume do mesmo período do ano passado, segundo dados citados pela Reuters.
Como petróleo e derivados representam mais de três quartos das exportações da Arábia Saudita, o bloqueio iemenita ameaça diretamente a principal rota alternativa criada por Riade diante da crise no Estreito de Ormuz.
A suposta operação de “defesa” da navegação serve, portanto, para organizar forças contra o Iêmen e defender os interesses petrolíferos sauditas. Depois de fracassar em sua guerra de quase uma década contra o Ansar Alá, Riade volta a mobilizar seus aliados para tentar quebrar militarmente a resistência iemenita.
A movimentação já vinha sendo preparada em terra. No início de agosto, o jornal britânico The Guardian, citando fontes iemenitas, informou que tropas apoiadas pela Arábia Saudita estavam sendo reposicionadas para uma possível ofensiva marítima e terrestre contra as áreas controladas por Sanaa. O anúncio da coalizão confirma que a monarquia saudita se prepara para ampliar novamente sua agressão contra o Iêmen.




