Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, publicou no Poder360 um artigo que apresenta a eleição brasileira como uma disputa entre “civilização” e “barbárie”. De um lado estaria Lula, a democracia, os direitos humanos e a soberania. Do outro, Bolsonaro, Trump, o fascismo, a violência e o caos.
É uma teoria oportunista porque apaga justamente aquilo que deveria organizar a política de um partido de esquerda: quais interesses de classe estão em disputa, qual programa deve ser defendido e contra quem os trabalhadores precisam lutar. Tudo vira uma escolha moral entre pessoas civilizadas e bárbaros. E, uma vez colocada a questão assim, qualquer sujeito que não seja Bolsonaro pode entrar no campo da “civilização”.
O próprio texto entrega a manobra quando Kakay escreve que a atual disputa já não seria como as antigas divergências com Covas, Fernando Henrique Cardoso ou José Serra.
Está aí o conteúdo da teoria. Esses personagens deixam de aparecer como representantes da burguesia brasileira, responsáveis por privatizações, arrocho, repressão aos trabalhadores e submissão ao imperialismo. Passam retrospectivamente para o campo aceitável da política, quase como adversários respeitáveis de uma época normal.
É exatamente essa visão que produz a frente ampla. Se Bolsonaro é a “barbárie”, Fernando Henrique vira “civilização”. Alckmin vira “civilização”. A grande imprensa vira “civilização”. O STF vira “civilização”. Setores da burguesia, banqueiros e políticos que passaram décadas atacando os trabalhadores podem ser incorporados à mesma frente.
O critério deixa de ser o programa. Basta não ser bolsonarista.
Essa teoria tem ainda outra vantagem para seus defensores: elimina completamente a necessidade de apresentar um programa de esquerda. Se a eleição fosse uma disputa política real, seria preciso falar dos salários, dos juros, dos bancos, das privatizações, do latifúndio, da Petrobrás, da dívida pública e da submissão do País ao imperialismo. Seria preciso explicar por que os trabalhadores devem se organizar de maneira independente da burguesia.
Mas, diante da “barbárie”, tudo isso vira secundário. O trabalhador que reivindica salário pode esperar. O sem terra pode esperar. A luta contra as privatizações pode esperar. A denúncia dos bancos pode esperar. Primeiro é preciso salvar a “civilização”.
E como essa salvação exige a união com a direita “democrática”, qualquer reivindicação que coloque essa aliança em risco passa a ser tratada como irresponsabilidade.
É uma receita perfeita para abandonar integralmente a política dos trabalhadores.
A palavra “fascismo” cumpre papel central nessa operação. Ela já não serve para caracterizar um fenômeno político preciso. Serve para produzir pânico.
Bolsonaro é chamado de fascista, Trump é fascista, a direita é fascista, seus eleitores caminham para o fascismo e qualquer crescimento eleitoral desse campo anuncia a barbárie. Se existe fascismo iminente, então qualquer aliança se torna legítima.
O mais impressionante é que o próprio artigo anuncia “a negação absoluta da política” e, ao mesmo tempo, faz exatamente isso. Transforma a eleição numa disputa moral.
De um lado, os bons. Do outro, os maus. Mas a política não funciona assim.
A burguesia que hoje aparece como defensora da democracia é a mesma classe que apoiou o golpe de 2016, a Lava Jato, a prisão de Lula e uma ofensiva gigantesca contra os direitos dos trabalhadores.
A fórmula “barbárie contra civilização” diz à esquerda que a luta de classes deve ser suspensa porque existe um inimigo pior. Que o programa deve ser moderado para não assustar os aliados. Que a mobilização independente dos trabalhadores deve ceder lugar à defesa das instituições. E que antigos inimigos da esquerda devem ser tratados como companheiros temporários da democracia.
O temporário, naturalmente, nunca acaba. Sempre haverá uma nova ameaça. Sempre haverá um Bolsonaro, um Trump ou algum outro personagem apresentado como risco máximo à civilização. E assim a esquerda pode passar a eternidade apoiando a burguesia contra a “barbárie”, sem jamais organizar os trabalhadores contra a própria burguesia.
É para isso que serve essa teoria. Não para derrotar o fascismo, mas sim para justificar a frente ampla.





