Supremo Tribunal Federal

Preparando uma nova operação fascista

Articulista já antevê que haverá uma “tentativa de golpe” após eventual vitória de Lula

Xandão

Moisés Mendes publicou no Brasil 247 um artigo cujo título já resume o problema: O dia depois da vitória de Lula. O texto não está preocupado com a campanha eleitoral, com o programa de Lula ou com aquilo que os trabalhadores deveriam fazer para derrotar politicamente a direita. Sua preocupação é outra: o que a polícia, o Judiciário e o Estado farão com os derrotados depois da eleição?

É toda uma preparação política para um novo ciclo repressivo. O ponto de partida é o 8 de Janeiro. Mendes apresenta os acontecimentos de Brasília como parte de uma longa operação golpista que poderia se repetir após as eleições de 2026. Como a direita pode tentar alguma coisa, ele considera que é preciso estar preparado de antemão.

Preparado como? O artigo não fala em mobilização dos trabalhadores. Fala no risco de “tramas”, “sabotagens”, “reações” e termina perguntando se o País estará pronto para enfrentá-las. Quem deve estar pronto, evidentemente, é o aparato de Estado.

O raciocínio é o mesmo utilizado historicamente para justificar o Estado policial: determinado grupo pode cometer um crime no futuro; portanto, deve ser vigiado, investigado e reprimido preventivamente. Não é necessário que tenha feito alguma coisa. Basta a suspeita política.

A experiência do 8 de Janeiro mostra onde isso termina. Houve uma manifestação com episódios de vandalismo. Mas transformou-se o episódio numa tentativa de golpe de Estado de proporções históricas para justificar uma repressão extraordinária.

Mais de duas mil pessoas foram presas inicialmente. Mais de mil acabaram condenadas ou submetidas a processos. Pessoas receberam penas enormes por sua participação nos acontecimentos. Jair Bolsonaro terminou condenado e preso em meio ao desenvolvimento de toda essa ofensiva judicial.

Independentemente da avaliação que se faça sobre Bolsonaro ou sobre os manifestantes, está claro que o aparelho repressivo saiu enormemente fortalecido.

Agora, antes mesmo da eleição seguinte acontecer, já começam a preparar o terreno para mais.

Mendes pergunta o que acontecerá caso Lula vença. A direita aceitará? Trump interferirá? Milei apoiará alguma provocação? Haverá novas manifestações?

Tudo é possível. Mas política não pode ser feita sobre a base de mandar a polícia investigar aquilo que talvez o adversário faça.

Se há uma conspiração concreta, que sejam apresentados os fatos. Se existe crime, que seja demonstrado. Outra coisa é construir antecipadamente um clima no qual toda movimentação da oposição pode ser tratada como preparação golpista.

A parte mais reveladora do artigo é justamente aquilo que não aparece nele.

Onde está o programa? Por que os trabalhadores deveriam votar contra a direita? O que Lula deveria defender? Que medidas deveriam ser tomadas contra os bancos, os grandes capitalistas, o latifúndio e o imperialismo? Como mobilizar milhões de pessoas para esmagar politicamente o bolsonarismo?

Nada disso interessa. A disputa deixa de ser política e passa a ser jurídica e policial.

A direita não deve ser derrotada porque possui um programa contra os trabalhadores. Deve ser neutralizada porque pode “ameaçar a democracia”. Se o problema central é defender as instituições, então qualquer defensor das instituições pode ser aliado. Daí vêm as frentes com a direita tradicional, o apoio ao STF, a confiança na Polícia Federal e a transformação de Alexandre de Moraes em herói da esquerda.

A luta de classes desaparece.

Essa política também explica o oportunismo da chamada frente ampla. Se a tarefa prioritária fosse defender os interesses dos trabalhadores, seria necessário enfrentar também a direita que está dentro do governo. Mas, se a tarefa é impedir um “golpe”, todos eles podem virar aliados.

O trabalhador deve aceitar Alckmin porque existe Bolsonaro. Deve apoiar o Supremo porque existe Bolsonaro. Deve confiar na Polícia Federal porque existe Bolsonaro.

A esquerda deveria estar discutindo como organizar os trabalhadores para derrotar politicamente a direita. Em vez disso, há quem já esteja escrevendo a justificativa do próximo inquérito.

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