O retorno de Lula à Vila Euclides foi apresentado por sua campanha como um reencontro com a própria história. O problema é que, quanto mais se recorda o Lula que surgiu das greves do ABC, mais evidente fica a distância entre aquele dirigente operário e o presidente que hoje ocupa o Palácio do Planalto.
Na Vila Euclides dos anos 1970, Lula aparecia à frente de um dos maiores movimentos de massas da história brasileira. Trabalhadores enfrentavam a repressão, a proibição das greves e a própria ditadura militar. Não era uma luta abstrata pela “democracia”. Era uma luta concreta da classe operária contra os patrões e contra o regime que protegia esses patrões.
Foi essa mobilização que projetou Lula nacionalmente, ajudou a desmontar a ditadura e criou as condições para o surgimento do PT e da CUT. Quase 50 anos depois, Lula volta à Vila Euclides como chefe de um governo cuja política caminha em sentido oposto.
O artigo “É preciso conhecer a história”, diz Lula sobre volta à Vila Euclides, escrito por Ricardo Amaral e publicado no Brasil 247, tenta construir uma linha reta entre o líder das greves e o presidente atual. Mas essa continuidade não existe.
Naquele período, Lula dirigia os trabalhadores contra o regime político. Hoje, sua principal preocupação é conservar esse mesmo regime e adaptar-se a todas as pressões que vêm de dentro dele.
Essa é a parte mais gritante da comparação com a Vila Euclides.
O artigo do 247 lembra corretamente que Lula foi preso pela ditadura e que helicópteros do Exército sobrevoavam as assembleias operárias.
Mas qual é a conclusão tirada dessa história? Que é preciso confiar no Supremo Tribunal Federal, que é necessário fortalecer as instituições, que a tarefa fundamental é impedir a volta da extrema direita. Ou seja, a história da luta operária é transformada numa peça de propaganda para defender o regime político atual.
É uma falsificação. A grande lição das greves do ABC não foi que os trabalhadores deveriam esperar que alguma instituição os protegesse. Foi exatamente o contrário.
Os trabalhadores conquistaram o direito de greve fazendo greve quando a greve era proibida. Enfrentaram a ditadura desobedecendo à ditadura.
A Vila Euclides foi a demonstração de que os direitos democráticos são conquistados pela mobilização das massas, não pela Polícia Federal, pelo Ministério Público ou pelos ministros do Supremo.
Hoje, a esquerda pequeno-burguesa considera progressista justamente o fortalecimento desses aparatos.
A esquerda revolucionária e a direita bolsonarista são censuradas, investigadas, presas e perseguidas, e isso é apresentado como proteção da democracia.
O aparelho repressivo que hoje é utilizado contra Bolsonaro não pertence à esquerda. Lula deveria ser o primeiro a compreender isso. Ele próprio foi preso numa operação judicial apoiada pela burguesia, pela imprensa e por setores do aparelho de Estado. Mesmo assim, seu governo contribui para fortalecer as instituições que permitiram sua perseguição.
Um governo de esquerda que censura, reprime, privatiza, preserva os interesses dos bancos e governa em aliança com a direita não bloqueia o caminho do neoliberalismo. Ele prepara esse caminho.
Quando a população olha para um governo apresentado como “de esquerda” e encontra juros altos, privatizações e arrocho, a direita ganha espaço para aparecer como oposição. Essa é uma das principais lições dos últimos anos na América Latina.
O governo Lula, se continuar nesse caminho, poderá terminar funcionando como uma espécie de antessala para um governo ainda mais neoliberal e reacionário.




