Direitos democráticos

Folha de S.Paulo anda ‘muito preocupada’ com a juventude

É preciso desconfiar quando a grande imprensa, que é contra escolas públicas e gastos sociais, se mostra tão preocupada com a juventude

Censura nas redes

É muito comovente ver a burguesia preocupada com a juventude, como no artigo Quem protege os adolescentes nas redes sociais?, assinado por Mariana Mandelli e publicado pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (13). O assunto tem mobilizado a grande imprensa e também a imprensa de esquerda, a maioria interessada em censurar a Internet, de modo que surgiu mais uma desculpa.

Como informa o jornal burguês, “a notícia de que uma adolescente de 13 anos se automutilou e cometeu suicídio ao vivo em uma transmissão no Discord é estarrecedora. O caso aconteceu em julho, em Naviraí, município a 355 quilômetros de Campo Grande, mas veio a conhecimento público neste mês, com informações sobre a apreensão de cinco menores de idade e a prisão de um jovem de 18 anos, todos acusados de incentivar a adolescente a atos de violência extrema. As operações policiais ocorreram em diversos estados: Mato Grosso do Sul, Pará, Ceará, Minas Gerais e Rio de Janeiro”.

É interessante notar que o suicídio entre crianças e pré-adolescentes vem crescendo. A resposta fácil é culpar a Internet e o tal “cyberbullying”. Enquanto isso, as condições de vida de toda a população pioram cada vez mais – culpa, inclusive, de jornais como a Folha.

Não existem equipamentos sociais como praças vivas, quadras poliesportivas, centros comunitários e serviços de saúde especializados, coisas presentes em países com baixo suicídio entre menores. Tudo isso custa dinheiro, e a grande imprensa, que defende o teto de gastos, naturalmente é contra que se invista nesse setor.

As escolas públicas não são bem equipadas. Mesmo as ETCs e as CEIs viraram depósitos de crianças, uma vez que seus pais precisam trabalhar. As crianças passam suas vidas entre a escola e a casa, perdem vínculos com o bairro, com sua vizinhança e estão cada vez mais isoladas.

A grande imprensa, como a Folha, não quer que o governo gaste dinheiro com educação gratuita e de qualidade, quer que se economize para pagar a dívida pública criminosa com os bancos.

Para se ter uma ideia do quanto essa imprensa se preocupa com os jovens, quando a polícia mata a juventude, especialmente a negra, a primeira preocupação dos jornalões é informar se a vítima tinha ou não passagem pela polícia.

Censura

Como se lê no artigo, a vigilância nas redes sociais é cada vez maior. “A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) abriu um processo de fiscalização contra o Discord e suspendeu, nesta quarta (12), lives na plataforma. A empresa, por sua vez, negou omissão e afirmou ter fechado o grupo antes da morte da garota. Também entregou à AGU (Advocacia-Geral da União) uma proposta para aumentar a segurança de crianças e adolescentes na rede”.

É preciso ser ingênuo para acreditar que a censura na Internet vai evitar a morte de alguém. O alvo não é a proteção, mas sim a censura das redes.

Segundo o artigo, “os relatos de crimes praticados no Discord não são, infelizmente, novidade. Há pelo menos três anos, diversas reportagens vêm denunciando a variedade de delitos cometidos por adolescentes e adultos em servidores privados, como maus-tratos a animais, compartilhamento de pornografia infantil, divulgação de dados pessoais e disseminação de discursos de ódio”.

O “discurso de ódio” é uma bandeira levantada pelo imperialismo, por meio do identitarismo, com o objetivo de criar leis mais repressoras. Ninguém sabe definir exatamente o que é o tal discurso, o que para a burguesia interessa, pois dá mais margem para a Justiça punir.

Para os identitários e para a burguesia, o interesse é punir, e isso o próprio texto esclarece ao dizer que “mais recentemente, também foi sancionada a Lei 15.487/26, que eleva as penalidades indicadas no ECA Digital relativas a crimes de produção, venda, armazenamento e divulgação de imagens de violência sexual contra crianças e adolescentes, tornando hediondas algumas dessas condutas”. De que adianta o aumento de penas? Vai diminuir a criminalidade? Não, mas dá mais poder coercitivo ao Estado burguês.

Transferindo o problema

Nos dias de hoje, em que as pessoas mal têm tempo de conviver com os filhos,  a autora do texto diz que é “imprescindível que estes supervisionem e orientem o uso que os adolescentes fazem de dispositivos móveis e mídias sociais. É igualmente necessário que se mantenham informados sobre os riscos desses ambientes, bem como estabeleçam um diálogo aberto e firme sobre esse tema em casa”.

Amanhã, seguindo essa mentalidade, os pais também serão punidos por aquilo que seus filhos eventualmente venham a fazer nas redes sociais. Uma ótima solução, pois os problemas com crianças e adolescentes serão percebidos não como a ausência do Estado e de políticas públicas, mas como omissão dos pais.

Segundo Mariana Mandelli, o caso da garota morta lembra “a todos e todas nós da maldade e da vulnerabilidade que integram as dinâmicas das mídias sociais. Agir para proteger adolescentes nesses ambientes é uma demanda coletiva e inadiável — um compromisso social que precisa ser encarado como prioridade”. Qual prioridade? Censurar?

A política de censura nas redes cresce no mundo todo. No momento, a desculpa é a “proteção das crianças” diante da pornografia e de predadores sexuais. A próxima desculpa será o terrorismo e as pessoas terão seus celulares monitorados em tempo real.

Viver em um mundo descrito por George Orwell não é coisa para o futuro, está acontecendo agora.

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