O artigo Após morte de adolescente, ANPD suspende lives do Discord no Brasil, publicado no sítio Revista Movimento nesta quinta-feira (13), mostra que a maioria da esquerda é movida por aquilo defendido na grande imprensa. O texto em questão, por exemplo, consegue praticamente reproduzir aquilo que é dito nos principais jornais burgueses.
Logo no olho da matéria, escrevem que “agência aponta falhas graves na proteção de crianças e adolescentes; plataforma é alvo de denúncias envolvendo aliciamento, violência e incentivo à automutilação”. A proteção a crianças e adolescentes é o código-chave para convencer as pessoas de que censurar é bom, afinal, quem não quer proteger essas pessoas?
No mundo real, crianças e adolescentes não estão protegidos. Moram mal, estudam em péssimas escolas, os salários somados de seus pais não dão para nada e não têm perspectiva de futuro ou de terem bons empregos. Mas, pelo visto, a Internet é o grande problema que as aflige e as ameaça.
O início do artigo traz que “a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil, em uma medida preventiva que deverá ser cumprida em até três dias úteis”.
A ANPD exige que a plataforma viole a privacidade dos usuários, pois apura “possíveis violações ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital). Na decisão, a agência afirma ter encontrado evidências ‘robustas de que a empresa não adotou medidas razoáveis para prevenir e mitigar riscos de acesso, exposição, recomendação ou facilitação de contato com conteúdos ou práticas que representem graves violações de direitos de crianças e adolescentes’”. Em que uma plataforma manter transmissões ao vivo violaria o ECA?
Para justificar a censura, estão utilizando a morte de uma garota de 13 anos. A polícia afirma que “adolescentes teriam utilizado o Discord e outras plataformas para atrair vítimas, disseminar discursos de ódio, promover radicalização e estimular comportamentos violentos. Em 4 de agosto, cinco adolescentes, de 13 a 17 anos, foram apreendidos e um homem foi preso por suspeita de envolvimento no caso”.
Primeiro-damismo
Segundo o artigo, “a primeira-dama Janja da Silva defendeu publicamente o bloqueio da plataforma depois do episódio”.Ela, que já havia se intrometido com o TikTok em uma visita à China, em uma reunião com Ji Xiping, disse agora: “não posso aceitar ver uma menina de 13 anos se mutilar ao vivo na internet, no Discord, se enforcar e morrer. Não consigo admitir um país desse”.
O MES não denuncia que a decisão ocorreu poucos dias depois de Janja da Silva defender publicamente que o Discord fosse retirado do ar. Janja não foi eleita para coisa nenhuma. Não exerce mandato e “primeira-dama” não é cargo público.
Ao mesmo tempo em que não recebeu da população qualquer autoridade para determinar a política do governo, só é conhecida por ser a esposa do presidente. Ainda assim, vem participando cada vez mais diretamente de assuntos de Estado. Chama a atenção sua adesão ao identitarismo e o quanto vem pressionando por uma política de censura à Internet.
O artigo concorda em tudo com a ação do Estado burguês. Fala, por exemplo, em “ambientes privados, comunicação direta entre usuários, presença de menores e dificuldade de fiscalização em tempo real”. Em outras palavras, concorda que as pessoas sejam vigiadas por uma supertela como a do filme 1984, baseado na obra de George Orwell.
Fazendo alarmismo, o artigo informa que “a SaferNet alerta que criminosos utilizam redes sociais, chats e outros espaços frequentados por jovens para praticar aliciamento sexual online. Nesses casos, o agressor pode construir uma relação de confiança com a criança, obter informações pessoais e tentar afastá-la dos adultos responsáveis”. Mesmo que, curiosamente, a esmagadora maioria dos casos de abusos contra crianças e adolescentes ocorra dentro do ambiente doméstico.
Denúncias
O artigo busca mostrar denúncias contra o Discord, mas tenta fazer a ressalva de que “o problema não se resume ao caso que provocou a atual crise”. “A internet tem sido utilizada para uma série de crimes contra crianças e adolescentes, entre eles aliciamento sexual, chantagem, divulgação de imagens de abuso e exploração sexual e violência psicológica. A própria SaferNet destaca a necessidade de combinar proteção, educação digital e mecanismos de denúncia”, afirma.
No entanto, os crimes existem desde sempre. Há, por exemplo, um filme de 1979 chamado Hardcore: no submundo do sexo, dirigido por Paul Schrader, que conta a história de um pai que, após o sumiço de sua filha adolescente, entra no submundo da produção de filmes pornográficos.
Na mesma linha, temos os filmes 8mm (1999) e Busca Implacável (2008). Essas produções são, pode-se dizer, baseadas em fatos reais. A Internet não inventou a exploração de menores, e a censura também não vai acabar com esse tipo de criminalidade. É possível recorrer a VPNs e o mundo do crime sempre dará um jeito de continuar existindo.
A preocupação real não é as crianças. O imperialismo precisa censurar as redes porque a divulgação de informações tem causado muitos estragos como, por exemplo, a destruição da imagem do Estado de “Israel”, que se deteriorou irremediavelmente após a divulgação dos crimes praticados contra o povo palestino.
Demagogicamente, o texto diz “a decisão contra o Discord é, nesse sentido, um teste para o ECA Digital e para a capacidade do Estado brasileiro de fazer valer, também na internet, o princípio de que crianças e adolescentes têm direito à proteção integral”. Se houvesse preocupação em proteger de fato crianças e adolescentes, o governo teria investido pesado em políticas públicas. A censura é apenas uma imposição do imperialismo e a esquerda pequeno-burguesa tem servido como linha auxiliar dessa política extremamente reacionária.





