Comentamos aqui o artigo Outra resposta ao Crítico Anônimo do PCO, de Adilson Roberto Gonçalves, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (12), no qual o autor rebate críticas sobre textos seus publicados por este Diário.
Segundo Gonçalves, “desta vez foram dois artigos meus publicados no Brasil 247 e espinafrados pelo Crítico Anônimo do PCO na forma de textos para o site Causa Operária”. Segundo o autor, “em 27/9/2025, o site Causa Operária publicou o artigo ‘Defesa da ‘democracia’ ou defesa do imperialismo?’, tendo por base meu artigo ‘Cultivo da democracia’, de 26/9/2025, em que insiste na tese da submissão da esquerda ao imperialismo, colocando-me como porta-voz da imprensa golpista”.
Adiante, diz que este Diário “pouco ou nada sabe sobre minha opinião e atuação, restringindo-se ao enaltecimento que eu havia feito naquele artigo pelas manifestações democráticas daquele período”. A opinião de Gonçalves estava expressa em seu texto e foi alvo de crítica. Quanto à sua atuação, é por nós desconhecida e por isso não a abordamos. O que dissemos e reiteramos é que as manifestações, embora ele insista, não foram democráticas.
A “semana de vergonha do parlamento”, como escrevemos, nada mais foi do que mobilizações manipuladas pela Rede Globo, ONGs financiadas pelo imperialismo e artistas a serviço da burguesia. Ao celebrá-las, o artigo se coloca como porta-voz da imprensa golpista. Em vez de reconhecer que a Globo, golpista contumaz, não tem nada a ver com democracia, Gonçalves prefere dizer que “se manifestações não forem organizadas e comandadas pelo PCO, não são válidas”.
Outra crítica de Gonçalves é que “o partido mostra realmente a que veio, ao defender Eduardo Bolsonaro e ser contrário às medidas do ministro Alexandre de Moraes”. Este Diário, confundido pelo autor com o PCO, tem princípios e defende qualquer um de perseguições políticas, seja aliado ou inimigo. Afinal, defender alguém de uma injustiça não significa defender suas ideias.
O senhor Alexandre de Moraes, é bom lembrar, foi indicação do golpista Michel Temer, votou pela prisão de Lula e ajudou, portanto, na eleição de Jair Bolsonaro. Além disso, o ministro tem se mostrado um verdadeiro monarca absolutista, impondo a censura no País e abrindo um inquérito, o das “Fake News”, que, ao arrepio da Constituição, não tem prazo para encerrar.
Ao contrário do que escreve o articulista, este Diário não tem o “discurso idêntico ao do PL e de outros partidos da extrema direita”. Estes não defendem de fato os direitos democráticos e a liberdade de expressão, o fazem apenas por oportunismo.
Gonçalves escreve no mesmo parágrafo que o PCO “continua na defesa de Jair Bolsonaro, o qual, assim entende o PCO, deveria ter os direitos políticos restituídos, pois, pelo que entende, não houve crime de tentativa de golpe contra o Estado Brasileiro”. É para isso que servem os princípios. O motivo é simples: se o Estado tem o direito de cassar os direitos políticos de um, terá direito de cassar os de todos.
Para Gonçalves, este Diário “diz no artigo que a punição de Bolsonaro é semelhante ao que aconteceu na Lava Jato, desconsiderando a natureza, a instância dos julgamentos e o tipo de punições em cada um dos casos”. E nisso também se engana. A instância estava deliberadamente errada, pois Jair Bolsonaro não era mais presidente e seu caso, portanto, deveria ter sido remetido para a primeira instância. O STF, oportunamente, mudou o entendimento e inventou que a competência do Supremo Tribunal Federal para julgar o ex-presidente se baseava na jurisprudência atual da própria Corte, que estabelece que a prerrogativa de foro se mantém para crimes cometidos durante o exercício do cargo e em razão das funções públicas, mesmo após o término do mandato. O que é estranho, pois, uma vez encerrado o mandato presidencial, a pessoa retorna à condição de cidadão comum.
Não bastasse isso tudo, a mudança de entendimento da Corte após um fato ter ocorrido configura modificação de regra processual. A Constituição define que o foro por prerrogativa de função é ligado ao cargo, e não à pessoa, cessando imediatamente com o fim do mandato, ou teremos em andamento uma perseguição política. Manter o foro, portanto, fere o princípio da igualdade de todos perante a lei. Lembrando que, ao ser julgado diretamente pelo Supremo, o réu perde o direito de recorrer a uma corte superior e exercer o amplo direito à defesa. Aliás, essa foi uma verdadeira aberração, pois aos manifestantes do 8 de janeiro, pessoas comuns, também negaram esse direito básico.
Outra aberração do julgamento-farsa foi o fato de Alexandre de Moraes figurar no processo como relator, julgador e vítima. Dessas coisas que só podem acontecer no país da Lava Jato.
Bolsonarismo como força social
Caminhando para o final, Gonçalves se queixa de que “pouco mais de um mês depois, em 5/11/2025, o site publicou ‘Bolsonarismo jamais será derrotado com oportunismo eleitoral’, baseado no meu artigo do dia anterior, 4/11/2025, intitulado ‘Câncer bolsonarista’, no qual considerou absurda minha afirmação de que a derrota do bolsonarismo se dará pelo voto, sendo ela ingênua e oportunista”.
Como em 2025, Gonçalves repete “na democracia é assim que deve ser”, ou seja, tem ilusões na democracia burguesa. O bolsonarismo não vai se extinguir pelo voto, pois ele só ganhou força a partir do recuo e do acovardamento de uma esquerda conciliadora.
Gonçalves vê defesa onde não existe, diz que o PCO “segue o libelo defendendo o bolsonarismo como fenômeno de massas e que a ‘esquerda pequeno-burguesa’ não soube apresentar uma proposta concreta contra o neoliberalismo”. Como o autor pretende combater o bolsonarismo sem reconhecer aquilo que ele é: um fenômeno de massas? É um fato, goste-se ou não.
Adiante, ele diz que “a esquerda corrente – da qual o PCO não faz parte, que fique muito bem claro – é a principal responsável pela ascensão da extrema direita representada pelo bolsonarismo”. A verdade é que em política não existe vazio. Se uma força recua, outra avança. Em seu famoso Programa de Transição, Leon Trótski escreve que “o proletariado espanhol fez, desde abril de 1931, uma série de tentativas heroicas de tomar o poder em suas mãos e a direção dos destinos da sociedade. Entretanto, seus próprios partidos (social-democratas, stalinistas, anarquistas, POUM), cada qual à sua maneira, atuaram como freio e, assim, prepararam o triunfo de Franco”.
Finalmente, Gonçalves escreve que é “um paradoxo criticar o ‘sistema’ e defender que o caminho é o voto, propondo um programa. Por fim, criticam a forma como as eleições são organizadas. Mas delas participam, sempre”. No entanto, não existe aí nenhuma contradição. Como um partido marxista, o PCO não participa das eleições com a ilusão de que conquistará algum cargo e, mesmo que conquistasse, não usaria o cargo para gerir o Estado burguês, mas utilizaria o parlamento como uma tribuna para denunciar os crimes da burguesia. No mais, se a democracia burguesa abre uma brecha, por mínima que seja, a esquerda revolucionária deve aproveitar o espaço para fazer o trabalho de propaganda e agitação política.





