Independentemente do que aconteça, a esquerda brasileira insiste em ser otimista. Como se repetir à exaustão que tudo vai dar certo garantisse um determinado curso dos acontecimentos. Para além desse otimismo imune aos fatos, ainda se soma uma crença, igualmente imune aos fatos, de que as instituições do regime político estão a serviço do povo. Bepe Damasco expressa essas posições em artigo publicado em 12 de agosto no Brasil 247 e intitulado Fascismo não elegerá senadores suficientes para atacar democracia.
Segundo Damasceno, a extrema direita estaria buscando ganhar cadeiras suficientes no Senado “para aprovar processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e promover mudanças constitucionais que enfraqueçam o regime democrático, abrindo caminho para suas teses obscurantistas”. Aqui aparece uma das teses falidas a que parte da esquerda insiste em se apegar: a de que as instituições do regime político brasileiro são uma barreira contra o fascismo. Mesmo após a atuação do STF no golpe que derrubou o governo Dilma Rousseff e na prisão de Lula, que abriram caminho para os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Isso para não puxar a ficha corrida dessa corte, que representa os interesses do imperialismo no Brasil contra a população do País. Uma corte especializada em atacar os direitos dos trabalhadores e que foi alçada ao posto de “guardiã da democracia” por atacar os direitos democráticos diante do espantalho do bolsonarismo. O “fascismo” que eles combateram foi gente como a cabeleireira que escreveu com batom numa estátua e idosos que participaram de uma manifestação. A defesa das instituições é justamente a defesa do autoritarismo, até porque se a burguesia decidir enveredar pelo caminho do fascismo, será “com o STF, com tudo”, como o então senador Romero Jucá deixou escapar na época do golpe de 2016.
O pior é que até dentro do raciocínio apresentado pelo autor do texto a coisa não parece muito boa. Damasceno comemora a dificuldade da extrema direita em conseguir a quantidade necessária de cadeiras para abrir processos de impeachment contra ministros do STF ou aprovar Propostas de Emenda Constitucional (PECs). Porém, admite a possibilidade de constituírem a maior bancada da casa e até formar maioria com o “bloco oposicionista”. Se levarmos em consideração que figuras de direita como o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin e a ruralista Simone Tebet integram a base do governo Lula, o cenário aparece como muito mais feio do que a esquerda petista tem pintado.
Como de costume, esse setor da esquerda deposita uma fé cega nas disputas eleitorais. Uma fé que precisa ignorar com quem você se junta na disputa, quais as políticas possíveis de se articular com os supostos aliados e por aí vai. O importante, como coloca Damasceno, “é que dessa vez as forças progressistas capricharam na escolha de seus candidatos, indicando nomes com mais densidade eleitoral do que em eleições anteriores”. O programa não importa, o que importa é a “densidade eleitoral”. Nas eleições para o Senado, por exemplo, são consideradas aliadas figuras como Renan Calheiros (MDB), Cid Gomes (PSB), a própria Simone Tebet (PSB), Marina Silva (Rede) e Roseana Sarney (MDB). Jaques Wagner não apenas é do próprio PT, como foi líder do governo no Senado até aparecer nas investigações envolvendo o Banco Master, um sionista de carteirinha.
Para além de manter seguros os ministros do STF, quais outros objetivos se pode ambicionar com um time desses? Aumentar o salário mínimo e melhorar o atendimento no Sistema Único de Saúde? Garantir o direito de greve nem se fala, porque aí não faria sentido esse apego ao STF, que praticamente riscou da Constituição esse direito conquistado a duras penas. A reeleição de Lula e a ocupação de cadeiras no Congresso e nos governos por “aliados” tão direitistas representariam o que para os trabalhadores? Esse é um problema que os otimistas evitam encarar. E se esforçam bastante para desviar o olhar, pois a insatisfação com a política atual é facilmente percebida nas ruas.
Grande parte dos eleitores de esquerda mantém o apoio a Lula por considerá-lo o polo oposto da política antipovo da burguesia. Em vez de estimular que Lula ocupe de verdade esse polo, parte da esquerda não apenas justifica a política falida da conciliação de classes, mas tenta convencer o eleitorado petista de que esse é o caminho certo. Tanto para ganhar as eleições, quanto para avançar nas tímidas reformas sociais que o partido se propõe a levar adiante. A realidade concreta tem deixado claro que esse caldeirão das bruxas das alianças do PT só serve pratos indigestos para o povo.
Insistir em STF, Alckmin, Tebet e outras figuras da direita só afasta o povo do Partido dos Trabalhadores. O caminho para a derrota eleitoral ou para uma vitória da qual os trabalhadores não vão colher frutos. Enquanto isso, a extrema direita canaliza a insatisfação popular com o regime político, com suas instituições, com o famigerado “Estado democrático de direito”. Se o otimismo fosse capaz de alterar a realidade, vá lá. Mas as coisas não funcionam assim.





