Carla Dórea Bartz

Jornalista e pesquisadora, é doutora em Estudos Culturais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde defendeu a tese “Ninfomaníaca, de Lars von Trier: narrar em tempos perversos”. Desde 2021, escreve uma coluna semanal no Diário da Causa Operária.

Coluna

Tempos Modernos e a representação da classe trabalhadora

Filme de Chaplin é uma crítica à sociedade capitalista

Lançado em 1936, Tempos Modernos é um dos filmes mais importantes do cineasta britânico Charlie Chaplin. Foi realizado entre duas outras obras-primas do diretor: Luzes da Cidade (1931) e O Grande Ditador (1940).  Pertence a uma época marcada pela Grande Depressão, pelo desemprego em massa, pela expansão da produção industrial e pela ascensão das forças de extrema-direita que culminaria, apenas três anos depois, na II Guerra Mundial.

Escrito, dirigido, produzido e protagonizado por Chaplin, o filme marca também a última aparição cinematográfica do célebre personagem Carlitos, o Tramp (Vagabundo), criado pelo cineasta mais de vinte anos antes. 

A primeira questão que o personagem impõe é a de classe. Carlitos representa os personagens à margem do sistema: não possui propriedade, profissão estável ou posição social definida. Pode estar empregado pela manhã, desempregado à tarde e preso à noite. Ao longo do filme, circula entre fábrica, rua, cadeia, loja de departamentos e restaurante tentando resolver um problema elementar: sobreviver.

Em alguns filmes anteriores, ele é astuto e trapaceiro. Em outros, como Tempos Modernos, é movido pelas circunstâncias. Sua função é didática: Chaplin precisa que a audiência se identifique com seus infortúnios, afinal, muitos dos que assistem passam por situações parecidas. 

É na forma como essas experiências são vivenciadas pelo protagonista que reside a crítica social que o cineasta quer mostrar. O Carlitos de Tempos Modernos não luta contra as forças sociais que determinam sua existência. Seu ponto de vista não é o mesmo ponto de vista do filme. Há algo de picaresco em sua jornada.

Operários e ovelhas

Na primeira cena, vemos um rebanho de ovelhas. Em seguida, uma multidão de operários entra na fábrica. A associação lembra a montagem de Sergei Eisenstein: duas imagens colocadas em sequência produzem uma ideia que nenhuma delas contém isoladamente.

Chaplin não está somente comparando trabalhadores a ovelhas. A montagem mostra indivíduos transformados em massa, conduzidos para a produção como força de trabalho indiferenciada. 

Na fábrica, o trabalhador perde primeiro o controle sobre o próprio tempo. A velocidade da linha de montagem é determinada por quem controla a produção. Se o patrão quer produzir mais, basta acelerar a máquina. Depois do tempo, perde-se o gesto.

Carlitos aperta parafusos durante tantas horas que continua realizando compulsivamente o mesmo movimento. A gag é cômica, mas sua matéria é brutal: Carlitos já não controla inteiramente nem sequer os próprios movimentos.

Em outra cena, um indivíduo, que hoje chamamos de “inovador”, mostra ao dono da fábrica uma máquina criada para alimentar os trabalhadores sem que tenham a necessidade de parar para almoçar. O objetivo é aumentar a produção. Comer deixa de ser uma necessidade humana, para se tornar uma interrupção da produtividade.

A sequência é uma das mais famosas do filme. Ele fica imóvel, enquanto a máquina, totalmente automatizada, coloca comida em sua boca. Um problema elétrico faz tudo desandar e o que era alimentação forçada se torna tortura. O interessante é ver a naturalização da ideia: a máquina é recusada pelo patrão por não ser “prática”, não por ser desumana. 

Na sequência, vemos nosso operário entrar em colapso nervoso. Hoje em dia, o mundo corporativo chama de “síndrome de burnout”. O filme não faz uma interpretação individual do problema. Ele não enlouquece porque possui alguma fragilidade particular. É a organização do trabalho que produz sua doença. A pantomima expõe um problema que tem atravessado o século.

Quem tem poder tem voz

A relação de classes está na própria forma do filme. Em 1936, o cinema falado havia se estabelecido há anos. Chaplin, porém, mantém o Vagabundo essencialmente mudo. O filme torna-se, assim, um exercício sobre o som. A banda sonora é composta de muitos sons que surgem da fábrica, dos aparelhos de comunicação, dos apitos, dos carros, da cidade, além da música.

Mas o grande trabalho criativo está nas falas dos personagens. Alguns têm o poder de falar: o patrão fala e as ordens chegam por alto-falantes e comunicadores. Os trabalhadores, porém, não têm esse poder. Dessa forma, Chaplin usa a técnica que ele viu nascer para marcar as classes sociais no filme de maneira brilhante.

Na história, quem possui poder é quem possui voz. A fala chega de cima para baixo, mediada pela tecnologia, como comando. O patrão nem precisa compartilhar o espaço com Carlitos. Surge numa tela para mandá-lo voltar ao trabalho quando o encontra fumando escondido no banheiro. A tecnologia, usada pela classe dominante, amplia a capacidade de vigilância.

Quando Carlitos finalmente fala

Chaplin reserva para muito mais tarde o momento em que a audiência ouve a voz do Vagabundo. Acontece na aventura no restaurante onde ele vai trabalhar. Carlitos precisa apresentar um número musical, esquece a letra que deveria cantar e improvisa uma língua composta por sons de diversos idiomas que, literalmente, não significam nada.

Mesmo assim, todos entendem, porque o sentido não está nas palavras, mas no gesto, na dança, na expressão e no ritmo. A sequência também devolve Chaplin às suas origens no teatro de vaudeville ou teatro de variedades, forma de entretenimento popular do início do século XX. Na diégese, é também um contraponto à cena da fábrica.

Na linha de montagem, Carlitos fracassa porque não consegue repetir perfeitamente o movimento exigido pela produção. No palco, ele triunfa porque pode improvisar. A fábrica exige repetição; a arte permite invenção. Na fábrica, o gesto é imposto ao trabalhador; no palco, o gesto produz significado.

O operário incompetente revela-se artista. Carlitos continua, evidentemente, dentro de uma relação de trabalho. Está empregado no restaurante. Mas, aquilo que faz não exige que destrua suas próprias capacidades humanas para realizá-lo.

Um homem que tropeça na luta de classes

Em um dos episódios mais marcantes, uma bandeira de sinalização cai de um caminhão. Aqui, ainda estamos na forma do filme. Carlitos a recolhe e corre atrás do veículo, tentando avisar o motorista. Nesse momento, uma manifestação de trabalhadores surge atrás dele. Subitamente, o Vagabundo aparece caminhando à frente de uma mobilização operária empunhando uma bandeira vermelha.

Como o filme é preto e branco, não sabemos qual é a cor, mas podemos inferir seu significado, primeiro pelo seu uso no caminhão, depois, empunhada pelo personagem. Vamos do símbolo de perigo ao símbolo político em poucos segundos. 

Carlitos, no entanto, não faz ideia da imagem política que está produzindo. A polícia faz e o prende como líder da manifestação. Ele não sabe que está protagonizando uma imagem da luta de classes. Chaplin sabe. O espectador também.

Mais tarde, quando consegue novamente emprego numa fábrica, uma greve interrompe a produção. Outra vez Carlitos é arrastado para o conflito e termina preso. Nos dois momentos, a luta dos trabalhadores atravessa sua vida. A questão é decisiva: as relações de classe não dependem da total consciência dos indivíduos, no entanto, são elas que organizam sua existência.

Quase noventa anos depois, Tempos Modernos é um filme espetacular e uma representação impressionante da classe trabalhadora, no lugar de protagonista. Algo raro nos dias de hoje. O controle do trabalho pode aparecer na forma de aplicativos, plataformas digitais, algoritmos, metas informatizadas, monitoramento remoto e inteligência artificial. A tecnologia avançou, mas as perguntas fundamentais permanecem: quem controla a tecnologia, o tempo e o trabalho? Quem se apropria da riqueza produzida?

De maneira didática, em um estilo muito próximo ao das teorias do Teatro Épico, de Bertolt Brecht, Tempos Modernos continua atual. As engrenagens envelheceram, mas a exploração não.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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