América Latina

Imprensa: CIA criou unidade secreta para atacar e pressionar Cuba

Agência reuniu agentes, analistas e especialistas em sabotagem para estimular divisões no governo cubano, ampliar a espionagem sobre a ilha e preparar novas agressões

A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) criou uma unidade secreta dedicada às operações contra Cuba. A informação foi divulgada pelo jornal norte-americano The New York Times, que ouviu pessoas informadas sobre o plano sigiloso.

A nova estrutura permitirá à CIA concentrar agentes, dinheiro e recursos técnicos na espionagem e na desestabilização do governo cubano. Estão sendo recrutados funcionários encarregados de dirigir informantes, analistas e especialistas em ataques cibernéticos e propaganda clandestina.

A principal tarefa da unidade será penetrar no sistema político cubano, recolher informações sobre os dirigentes do país e explorar possíveis divergências dentro do governo. Washington pretende pressionar Havana para afastar autoridades consideradas hostis e favorecer figuras que aceitem as imposições de Donald Trump.

O governo norte-americano procura, assim, realizar por meio da espionagem, da chantagem e da sabotagem o que não conseguiu impor com mais de seis décadas de bloqueio econômico. A CIA tentará estimular uma ruptura na direção cubana e abrir caminho para a submissão política do país aos Estados Unidos.

A iniciativa remete à unidade criada pela agência em 1960, responsável pela preparação da invasão da Baía dos Porcos. No ano seguinte, a CIA armou, treinou e enviou contrarrevolucionários cubanos para invadir a ilha. A operação terminou em uma derrota humilhante para o imperialismo.

O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, afirmou que a notícia não causa surpresa diante do histórico criminoso da agência norte-americana.

“As intenções não causam surpresa, pois Cuba há muito tempo é alvo dos esforços da CIA de espionagem, subversão e desestabilização, inclusive por meio do terrorismo. Ainda assim, o Departamento de Estado tem a audácia de chamar Cuba de ameaça por exercer seu direito à legítima defesa”, declarou Fernández de Cossío ao The New York Times.

A CIA recusou-se a comentar a existência da unidade.

Cuba se torna alvo prioritário

A criação da força especial faz parte de uma ampliação geral das operações de espionagem contra Cuba. O governo Trump alterou o documento que estabelece os principais alvos dos serviços secretos norte-americanos e classificou a Ilha como país de “prioridade 1”, a mesma categoria atribuída à China, à Rússia e ao Irã.

A Agência de Segurança Nacional e a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial passaram a direcionar mais recursos para a vigilância do território cubano. Satélites e outros equipamentos serão utilizados para atualizar as informações sobre o governo, as Forças Armadas, o sistema de defesa e as decisões políticas do país.

Autoridades militares e agentes da espionagem norte-americana reclamavam que os dados disponíveis sobre Cuba estavam desatualizados. As novas informações também poderão servir ao Pentágono na preparação de planos de ataque, caso Trump decida ordenar uma agressão militar direta.

Espionagem financeira e propaganda clandestina

Os integrantes da unidade da CIA deverão investigar as finanças de dirigentes cubanos, suas atividades econômicas no exterior e possíveis disputas internas. O objetivo é encontrar informações que possam ser usadas para pressionar autoridades, fomentar desconfianças e provocar cisões.

A agência poderá divulgar seletivamente parte desses dados em campanhas de propaganda contra o governo. A CIA já empregou esse método contra outros países que resistem à política externa norte-americana: informações recolhidas por espionagem são publicadas de maneira calculada, apresentadas sem explicação ou manipuladas para produzir escândalos políticos.

Em determinados períodos, a agência também atuou como intermediária entre Washington e Havana. Após o restabelecimento das relações diplomáticas durante o governo de Barack Obama, em 2015, o então diretor da CIA, John Brennan, viajou a Cuba e se reuniu com autoridades do país, entre elas Alejandro Castro, filho de Raúl Castro.

Brennan considerava os serviços cubanos de inteligência entre os mais eficientes da América Latina e procurou estabelecer uma cooperação limitada contra redes de tráfico de drogas e grupos armados. As negociações não avançaram, e os dois governos acusaram-se mutuamente de descumprir as medidas discutidas.

Diretor da CIA leva ultimato a Havana

A ofensiva foi retomada após o retorno de Trump à Presidência. Em maio, o diretor da CIA, John Ratcliffe, foi enviado a Havana para conversar com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, conhecido como Raulito ou El Cangrejo.

Ratcliffe teria apresentado Cuba como um adversário importante dos serviços secretos norte-americanos e, ao mesmo tempo, como um possível colaborador futuro. A suposta oferta de cooperação veio acompanhada de um ultimato: o governo cubano teria pouco tempo para realizar as mudanças políticas e econômicas exigidas por Washington.

A advertência indicou que Cuba poderia ser submetida a uma ofensiva semelhante à promovida contra a Venezuela. Setores do governo Trump chegaram a prever a derrubada do governo cubano antes das eleições legislativas norte-americanas de novembro.

Funcionários norte-americanos favoráveis à derrubada do governo cubano passaram a admitir, reservadamente, que Washington talvez não consiga dedicar à operação os recursos necessários enquanto a guerra contra o Irã prosseguir.

A CIA também enfrenta dificuldades para atuar dentro da Ilha. Os serviços cubanos mantêm os agentes norte-americanos sob vigilância permanente, restringem seus deslocamentos e dificultam reuniões clandestinas com possíveis informantes.

Durante a Guerra Fria, a CIA manteve uma presença limitada na Embaixada dos Estados Unidos em Havana justamente por causa do controle exercido pela contraespionagem cubana. Nos anos 2000, parte dos agentes destinados a Cuba foi transferida para as guerras contra o Iraque e o Afeganistão.

A estação da CIA em Havana foi fechada durante o primeiro governo Trump, depois que funcionários norte-americanos alegaram sofrer sintomas da chamada “síndrome de Havana”. A unidade foi reaberta em 2024, nos últimos meses do governo de Joe Biden, mas seus agentes continuam submetidos à vigilância constante das autoridades cubanas.

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