A candidata da Unidade Popular (UP) ao governo de São Paulo, Vivian Mendes, revelou um critério político bastante peculiar para alguém que pretende representar o comunismo. Durante entrevista concedida a Breno Altman no programa 20 Minutos, do Opera Mundi, em 28 de julho, ela participou de um jogo no qual deveria escolher entre diferentes mulheres de destaque na história.
Durante quase toda a rodada, Mendes escolheu Angela Davis. A norte-americana foi preferida a Leila Khaled, Rosa Parks, Dolores Ibárruri, Alexandra Kollontai, Emma Goldman e outras personalidades. Quando Altman apresentou o duelo com Rosa Luxemburgo, a candidata respondeu sem hesitar: “Angela Davis”.
Ao escolher Davis também contra Marie Curie, Mendes explicou: “Eu sou comunista, né? Tem que ser Angela Davis”. Somente diante de Clara Zetkin ela mudou de posição, terminando o jogo com o nome da dirigente alemã. Ainda assim, o fato de ter colocado Davis acima de Rosa Luxemburgo, precisamente sob a alegação de que seria comunista, expõe a enorme confusão política da candidata da UP.
Rosa Luxemburgo foi a maior revolucionária da história. Dirigente marxista, enfrentou o imperialismo, denunciou a Primeira Guerra Mundial e combateu a traição da social democracia alemã, que apoiou o envio de milhões de trabalhadores para a carnificina. Participou da criação da Liga Espartaquista e da fundação do Partido Comunista da Alemanha, colocando toda a sua atividade a serviço da revolução socialista.
Por sua luta, foi presa diversas vezes. Em 15 de janeiro de 1919, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram capturados e assassinados por integrantes dos corpos francos, milícias de extrema direita mobilizadas com a cumplicidade do governo social-democrata. Seu corpo foi lançado no canal Landwehr. Rosa morreu como dirigente da revolução alemã e mártir da classe operária.
Após o assassinato de Rosa Luxemburgo, Lênin escreveu um dos seus tributos mais conhecidos. No texto “Notas de um Publicista” (1922), afirmou: “sua biografia e suas obras completas servirão de utilíssima lição para a educação de muitas gerações de comunistas em todo o mundo.”
Em outro texto, escrito logo após sua morte, Lênin destacou o papel de Rosa na luta contra o oportunismo e o chauvinismo durante a Primeira Guerra Mundial. Referindo-se a ela e a outros internacionalistas alemães, escreveu que eles representavam “os melhores representantes da Internacional proletária”.
Quem é Angela Davis na fila do pão?
Angela Davis possui uma trajetória importante quando jovem. Militante do Partido Comunista dos Estados Unidos, foi perseguida pelo Estado norte-americano e presa no início da década de 1970. A campanha por sua libertação alcançou repercussão internacional.
Essa história, entretanto, não apaga suas posições posteriores nem transforma o apoio aos candidatos do imperialismo em uma política comunista. Seus próprios ex-companheiros do movimento negro radical, incluindo o Partido dos Panteras Negras, observaram o seu distanciamento em relação aos presos políticos negros e a sua adoção de posições cada vez mais direitistas após os anos 1970.
Em 2008, Davis votou em Barack Obama. Anos depois, declarou que aquela havia sido a primeira vez em que votara em um candidato do Partido Democrata e recordou com entusiasmo a eleição do então senador.
Obama governou para os grandes capitalistas norte-americanos. Manteve o campo de concentração de Guantánamo, ampliou os ataques com aeronaves não tripuladas, prosseguiu com as guerras dos Estados Unidos e comandou a operação que destruiu a Líbia. Apesar disso, Davis continuou defendendo o voto nos candidatos democratas, ingressando nas fileiras do identitarismo.
Em 2016, votou em Hillary Clinton e defendeu publicamente que seus seguidores fizessem o mesmo para impedir a vitória de Donald Trump. Clinton, porém, não era apenas uma candidata eleitoral supostamente menos ruim. Ela era uma representante direta da política guerreira do imperialismo, mais ainda que Donald Trump.
Como senadora, Hillary Clinton votou a favor da autorização usada por George W. Bush para invadir o Iraque. Mais tarde, como secretária de Estado do governo Obama, foi uma das principais defensoras da intervenção militar que arrasou a Líbia – destruição na qual ela teve um papel fundamental. Sua candidatura era sustentada pelo capital financeiro, pelos grandes monopólios e por setores decisivos do aparelho de guerra norte-americano.
A orientação repetiu-se em 2020. Quando Joe Biden escolheu Kamala Harris como candidata a vice-presidente, Davis declarou estar “muito entusiasmada” e afirmou que a presença da ex-procuradora tornava a candidatura democrata “muito mais aceitável”. Harris construiu sua carreira dentro do aparelho repressivo norte-americano e, como procuradora, tomou posições diretamente contrárias aos interesses da população negra e pobre.
Obama, Clinton e Harris estão no pódio dos campeões do imperialismo. Eles são a personificação da dominação e da ditadura do capital financeiro contra os povos do mundo, sob uma roupagem colorida e democrática, afinal um é negro, outra é mulher e a outra é uma mulher negra – o suprassumo da demagogia imperialista para onde Davis se bandeou.
Davis justifica o voto nos democratas como uma medida provisória para derrotar os republicanos e abrir espaço para as mobilizações populares. Essa política mantém os trabalhadores submetidos a um dos dois partidos da burguesia imperialista, o favorito dela nos últimos anos. A cada eleição, a ameaça representada pelo candidato republicano é usada para exigir o apoio ao candidato democrata.
É essa personalidade que Vivian Mendes colocou acima de Rosa Luxemburgo e de outras revolucionárias. De um lado, uma dirigente que organizou a luta revolucionária da classe operária e foi assassinada pela contrarrevolução. Do outro, uma antiga militante de esquerda que há décadas está do lado dos piores inimigos dos trabalhadores.
A preferência da candidata da UP não se baseia na luta de classes nem na atitude concreta diante do imperialismo. É o critério da esquerda pequeno-burguesa, para a qual a fama acadêmica e o prestígio nos meios feministas valem mais do que um programa revolucionário e para a qual a opinião da burguesia e do imperialismo é a lei.


