Um estudo divulgado na sexta-feira (31) fornece mais uma demonstração estatística daquilo que a propaganda capitalista procura esconder: para a enorme maioria da população, nascer pobre significa permanecer pobre. Segundo o Atlas da Mobilidade Social, 48% dos brasileiros cujos pais pertenciam aos 25% mais pobres continuam nesse mesmo setor quando chegam à idade adulta.
O dado mais revelador, porém, aparece quando se observa quantos conseguem chegar ao outro extremo. Apenas 8,32% dos filhos dos 25% mais pobres alcançam, na idade adulta, o grupo dos 25% de maior renda. Somente 1,28% chega aos 10% mais ricos.
E mesmo esse número oferece uma visão extremamente otimista daquilo que normalmente se chama de “ascensão social”.
Pense o leitor em 100 meninos nascidos em uma favela, ou mesmo vivendo nas ruas. Seus pais ganham, no máximo, R$ 446 por mês. Segundo os dados do estudo, pouco mais de um deles chegaria aos 10% de maior renda do País, ou seja, receberia mensalmente R$ 9.117 ao mês. Parece otimista a previsão de que algum desses meninos alcance uma renda como essa.
Mas, digamos que seja mesmo assim. Esse simples exemplo desmonta boa parte da propaganda feita diariamente em torno da chamada meritocracia. O capitalismo é apresentado como uma sociedade em que todos poderiam enriquecer, desde que trabalhassem bastante, estudassem, fossem disciplinados e soubessem aproveitar as oportunidades. Os números mostram uma realidade inteiramente diferente.
E olha que, com uma renda de pouco mais de R$ 9.000 mensais, o cidadão está somente um pouco acima do que deveria ser o salário mínimo segundo o DIEESE – R$ 8.110,92. Isso significa que estar entre os 10% mais ricos não é a mesma coisa que ser rico, pois a maioria que chega a esse nível de renda continua sendo trabalhador.
Para o rico, a situação se inverte
Quando se analisa a parcela mais rica da população, os números mudam completamente.
Dos filhos de famílias pertencentes aos 25% mais ricos, 56,5% permanecem nesse mesmo grupo quando adultos. Nada menos que 30,8% alcançam os 10% de maior renda.
Compare-se com os pobres: entre estes, somente 1,28% chega aos 10% mais ricos, segundo as projeções otimistas do estudo.
Não se trata, portanto, de uma competição em que todos começam nas mesmas condições e o resultado depende do esforço individual. O filho do capitalista recebe patrimônio, dinheiro, imóveis, empresas, relações empresariais e todas as condições materiais proporcionadas pela riqueza acumulada pela família. O filho do trabalhador começa a vida dependendo da venda de sua força de trabalho.
A ideologia da meritocracia serve para apagar esse fato elementar.
Quando um pobre permanece pobre, a propaganda burguesa responsabiliza o próprio trabalhador: não estudou suficientemente, não trabalhou o bastante, não soube investir, não teve espírito empreendedor. Quando o filho de um milionário conserva ou amplia uma fortuna herdada, aparece como demonstração das virtudes do esforço individual.
Fora que o playboy que nasceu em berço de ouro é apresentado como alguém que suou muito para chegar onde chegou e o pé-rapado é tido como vagabundo. O inverso é mais correto: o filhinho de papai não precisou trabalhar, enquanto o pobretão é obrigado a matar um leão por dia para sobreviver.
O Atlas mostra justamente que a origem de classe social é decisiva sobre o destino econômico de uma pessoa.
A exceção vira propaganda
Evidentemente, existem trabalhadores que conseguem melhorar consideravelmente de vida. Existem também pessoas nascidas em famílias pobres que acumulam patrimônio e, em casos raríssimos, tornam-se capitalistas.
A existência dessas exceções não demonstra que exista verdadeira mobilidade social. Demonstra apenas que nenhuma sociedade é absolutamente imóvel.
A propaganda capitalista pega justamente esses poucos casos e os apresenta como se fossem uma possibilidade normal para centenas de milhões de trabalhadores. O sujeito que nasceu pobre e ficou milionário vira reportagem, livro, palestra empresarial e propaganda sobre empreendedorismo exatamente porque sua trajetória é excepcional.
Não se fazem reportagens sobre os outros milhares de jovens que nasceram pobres, trabalharam durante toda a vida e continuaram pobres. Essa é a situação normal e, por isso mesmo, não serve para alimentar a fantasia da meritocracia.
Os números do Atlas tornam essa fraude particularmente evidente. Mesmo utilizando como critério de ascensão simplesmente chegar aos 10% de maior renda — algo muito diferente de tornar-se capitalista ou milionário — apenas 1,28% dos filhos dos mais pobres consegue fazê-lo.
Na era dos monopólios
A ideia de que qualquer pequeno proprietário poderia enriquecer por meio da concorrência corresponde, no máximo, à imagem idealizada de uma etapa anterior do desenvolvimento capitalista.
O próprio desenvolvimento da concorrência levou à concentração do capital. Empresas maiores destruíram, compraram ou incorporaram as menores. A livre concorrência produziu os monopólios, que passaram a dominar setores inteiros da economia. Há mais de um século, essa é uma das características fundamentais do capitalismo imperialista.
É ainda mais absurdo falar em igualdade de oportunidades nesse estágio.
Um pequeno comerciante pode formalmente abrir uma empresa de vendas pela Internet. Na prática, terá de disputar mercado com monopólios que movimentam bilhões. Pode abrir uma pequena fábrica, mas encontrará setores dominados por conglomerados industriais e financeiros capazes de controlar fornecedores, crédito, distribuição e preços.
A concentração capitalista reduz cada vez mais o espaço econômico para aquilo que a própria burguesia apresenta como fundamento de seu sistema: a livre concorrência.
A sociedade capitalista não está organizada para transformar trabalhadores pobres em grandes proprietários. Está organizada de maneira a concentrar a riqueza produzida pelo conjunto da população nas mãos de uma pequena classe.
O levantamento apenas registra estatisticamente o resultado.
Quase nada muda entre as gerações
A comparação entre gerações feita pelo Atlas também mostra como é reduzida a mudança.
Entre os filhos dos 25% mais pobres nascidos de 1983 a 1987, apenas 7,9% chegaram posteriormente aos 25% de maior renda. Entre os nascidos de 1988 a 1990, o índice foi de 8,8%.
Uma diferença inferior a um ponto percentual.
Entre as famílias de renda intermediária, a mudança também foi pequena: a possibilidade de chegar aos 25% mais ricos passou de 16,6% para 18,6%.
Apesar de décadas de propaganda (inclusive do atual governo Lula) sobre educação, empreendedorismo e qualificação profissional como caminhos individuais para a riqueza, a posição relativa das diferentes camadas da população praticamente se reproduz.
Mulheres e negros entre os mais atingidos
O estudo também demonstra que a permanência na pobreza é ainda maior entre mulheres e negros.
Entre os homens nascidos em famílias situadas nos 25% mais pobres, 32,9% continuam nesse grupo na idade adulta. Entre as mulheres, são 65,1%.
No recorte racial, 36,3% dos brancos nascidos entre os mais pobres permanecem nessa condição, contra 51,6% dos não brancos. Entre as mulheres não brancas, o índice chega a 69%.
Essas diferenças mostram que determinados setores da classe trabalhadora são ainda mais atingidos pela pobreza. Não alteram, contudo, a conclusão principal apresentada pelos próprios números: a origem de classe exerce uma influência decisiva sobre as condições futuras de seus filhos.
O problema aparece também regionalmente. No Norte e no Nordeste, a permanência nas faixas inferiores de renda é especialmente elevada. Em Assis Brasil, no Acre, 84,4% dos jovens nascidos entre os 25% mais pobres continuam nesse mesmo grupo quando adultos.
É difícil imaginar uma refutação mais clara da meritocracia.
De cada 100 jovens pobres de um município como Assis Brasil, mais de 84 continuarão entre os mais pobres. Não é possível explicar um fenômeno dessa magnitude dizendo que dezenas de pessoas, geração após geração, simplesmente não se esforçaram o bastante.
O dado central do Atlas permanece o mais importante: de cada 100 filhos dos setores mais pobres, somente pouco mais de um consegue chegar sequer aos 10% de maior renda. A possibilidade de tornar-se efetivamente milionário é quase nula.
No capitalismo monopolista, a história do pobre que fica rico existe. Existe justamente como exceção. Para a esmagadora maioria da sociedade, milhões e milhões de trabalhadores, a regra continua sendo muito mais simples: nasceu pobre e morrerá pobre.



