Emir Sader publicou no Brasil 247 um artigo exaltando o que chama de “privilégio da América Latina”. Segundo ele, Brasil, México e Uruguai seriam hoje os principais representantes de uma tendência progressista no continente, baseada no “fortalecimento da democracia” e em políticas sociais.
É uma definição curiosa de progressismo.
Em primeiro lugar, porque transforma a “defesa da democracia” no centro do programa político da esquerda. Em segundo, porque escolhe justamente três governos profundamente adaptados às pressões do imperialismo. E, finalmente, porque consegue escrever sobre o progressismo latino-americano simplesmente apagando Cuba e Venezuela do mapa.
O silêncio diz mais do que o restante do artigo.
A política externa norte-americana utiliza a palavra “democracia” como justificativa para intervir em países atrasados, financiar golpes, impor sanções e derrubar governos inconvenientes.
A “defesa da democracia” tornou-se particularmente importante para o imperialismo depois da crise das ditaduras militares. Em vez de generais governando diretamente, passaram a ser defendidos regimes formalmente democráticos, desde que submetidos aos grandes bancos, aos monop[olios e aos interesses dos Estados Unidos. Esse regime é perfeitamente compatível com privatizações, arrocho salarial, submissão econômica e repressão contra os trabalhadores.
Transformar a democracia burguesa em objetivo estratégico da esquerda significa abandonar a luta independente dos trabalhadores e aceitar como horizonte político o regime criado pela própria burguesia. Não por acaso, é exatamente essa palavra de ordem que permitiu justificar todo tipo de frente com a direita nos últimos anos.
No Brasil, a “defesa da democracia” serviu para colocar Geraldo Alckmin na vice-presidência e apresentar setores tradicionais da burguesia como aliados indispensáveis contra Bolsonaro.
Mais reveladora ainda é a escolha feita por Sader. Segundo ele, Brasil, México e Uruguai seriam atualmente os países que “fortalecem a democracia” e privilegiam políticas sociais. São justamente governos que procuram evitar qualquer enfrentamento sério com o imperialismo.
O governo Lula mantém intactos os principais pilares econômicos herdados da direita, conserva uma política de juros gigantescos e governa em aliança com setores tradicionais da burguesia. No México, mesmo depois dos governos de López Obrador e Claudia Sheinbaum, permanece uma enorme dependência econômica dos Estados Unidos. O país está profundamente integrado ao mercado norte-americano e submetido a uma pressão constante, particularmente nas questões comerciais, migratórias e de segurança. O Uruguai, por sua vez, está muito distante de representar qualquer ruptura com o grande capital.
Ser “progressista” passa a significar administrar o capitalismo com algumas políticas sociais, manter boas relações com os bancos e evitar enfrentar frontalmente o imperialismo.
O mais impressionante, porém, é quem desaparece do artigo. Sader fala longamente da história da América Latina. Cita Hugo Chávez entre os maiores dirigentes do século XXI. Fala da luta contra o neoliberalismo e da soberania continental. Mas, quando chega ao presente, a Venezuela simplesmente some.
A Venezuela é justamente o país latino-americano que sofreu, nas últimas décadas, uma das maiores ofensivas do imperialismo. Golpes, tentativas de golpe, bloqueio econômico, confisco de ativos, sanções, sabotagens e operações para derrubar o governo marcaram toda a experiência chavista. Mais recentemente, a agressão norte-americana contra o país mostrou até onde o imperialismo está disposto a ir para impor sua vontade no continente. Se existe uma discussão séria sobre soberania latino-americana, a Venezuela deveria estar no centro dela.
Mas isso criaria um problema para o “progressismo” de Sader. Defender a Venezuela exige enfrentar diretamente o imperialismo. É preciso tomar posição diante de uma agressão concreta dos Estados Unidos. Aí o entusiasmo diminui.
Com Cuba acontece algo parecido. Sader reconhece que o país foi durante décadas a única exceção à dominação neoliberal no continente. Depois, some com ele. Cuba permanece submetida ao bloqueio econômico mais longo da história contemporânea. Há décadas os Estados Unidos tentam estrangular economicamente o país para destruir a Revolução Cubana.
É justamente aí que aparece o conteúdo real dessa política. Emir Sader apresenta como auge do progressismo latino-americano os governos que melhor se adaptam à pressão imperialista e praticamente ignora os países que estão na linha de frente do confronto com os Estados Unidos.
É uma adaptação política. O imperialismo está numa ofensiva cada vez maior contra a América Latina. Pressiona economicamente os governos, ameaça países, utiliza sanções, promove operações golpistas e procura aumentar seu controle sobre os recursos naturais do continente. Diante disso, existem duas políticas possíveis. Uma é organizar uma luta efetiva contra o imperialismo. A outra é procurar uma convivência aceitável com ele, administrar o capitalismo e chamar isso de “progressismo”.





