Há um setor da esquerda brasileira para o qual Alexandre de Moraes parece ter adquirido imunidade política vitalícia. Não importa o que faça, qual medida tome ou contra quem seu aparato seja utilizado. Um artigo publicado pelo Brasil 247 oferece um bom exemplo dessa política.
Moisés Mendes denuncia que setores da grande imprensa estariam preparando o terreno para um eventual impeachment de Moraes, caso a direita consiga ampliar sua presença no Senado nas eleições de outubro. Segundo o jornalista, Globo, Folha e Estadão estariam repetindo o comportamento “lavajatista” que ajudou no golpe contra Dilma Rousseff e na prisão de Lula.
Até aí, há um problema real. A grande imprensa participou ativamente da Lava Jato, sustentou as arbitrariedades de Sérgio Moro e ajudou a criar as condições políticas para o golpe de 2016 e para a prisão de Lula. Também é evidente que setores da direita querem utilizar o Senado para atacar ministros do Supremo que entraram em choque com o bolsonarismo.
Mas daí não se segue que Alexandre de Moraes deva ser colocado num altar. É exatamente esse salto que uma parcela da esquerda insiste em fazer. A defesa de Moraes deixou de ser circunstancial há muito tempo.
Qualquer crítica ao ministro passa imediatamente a ser apresentada como ajuda ao bolsonarismo. Qualquer contestação de suas decisões vira uma ameaça às “instituições”. E qualquer ofensiva da direita contra ele serve para apagar todas as arbitrariedades cometidas anteriormente.
É uma política completamente invertida. A esquerda não deveria definir sua posição sobre o Judiciário perguntando primeiro o que Bolsonaro pensa. Deve julgar as medidas do Judiciário pelo que elas representam para os direitos democráticos da população.
Se amanhã Bolsonaro disser que a chuva molha, isso não obriga ninguém a defender que a água é seca. O mesmo vale para Moraes.
O fato de a extrema direita atacá-lo não transforma automaticamente cada decisão sua em democrática. Muito menos torna o Supremo um aliado permanente dos trabalhadores.
Há uma ironia ainda maior no artigo do 247. Moisés Mendes acusa corretamente setores da imprensa de permanecerem viciados no “justiceirismo” da Lava Jato. Mas a principal característica política do lavajatismo foi justamente transformar juízes e procuradores em protagonistas da vida política.
Agora, parte da esquerda aceita métodos semelhantes desde que o alvo esteja do outro lado. Esse é o problema. Não existe “justiceirismo progressista”. Se um juiz recebe poderes cada vez maiores para decidir quem pode falar, quem pode ter conta em rede social, quem pode se comunicar com quem, quem deve ser investigado e até quais organizações devem ser atingidas, esses poderes não ficam reservados eternamente aos inimigos da esquerda.
A esquerda brasileira passou anos denunciando corretamente o Poder Judiciário como uma instituição profundamente antidemocrática. Não é eleito pela população. Seus integrantes possuem cargos vitalícios, salários extraordinários e poderes enormes sobre a vida política do País. De repente, com a crise do bolsonarismo, esse mesmo aparato passou a ser tratado como última muralha da democracia. Moraes tornou-se o personagem máximo dessa transformação. Cada choque entre ele e Bolsonaro é apresentado como uma luta entre democracia e fascismo. Desaparece o fato de que se trata também de uma disputa dentro do próprio regime político, entre setores da direita e diferentes instituições do Estado burguês.
Ser contra Bolsonaro não exige apoiar politicamente Alexandre de Moraes. Da mesma forma que denunciar uma eventual manobra reacionária no Senado para pressionar o Supremo não obriga ninguém a justificar os abusos cometidos pelo próprio Supremo. É possível — e necessário — fazer as duas coisas.




