Anthony Fauci, uma das principais autoridades sanitárias dos Estados Unidos durante a pandemia da COVID-19, recusou-se a responder a mais de cem perguntas durante uma audiência de aproximadamente três horas no Senado norte-americano, realizada nessa quarta-feira (29).
Segundo a agência Sputnik, Fauci invocou repetidamente a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garante o direito de não prestar declarações que possam resultar em autoincriminação. Ele se negou até mesmo a responder perguntas simples feitas pelo senador Rand Paul, como a data, a aparência de sua gravata e a cor do carpete à sua frente.
Paul afirmou que o comitê poderá adotar medidas contra Fauci por desacato. O silêncio do antigo diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas ocorre enquanto o Congresso investiga o financiamento de pesquisas com coronavírus no Instituto de Virologia de Wuhan, na China, e o papel desempenhado por autoridades norte-americanas na defesa da tese de origem natural do vírus.
A audiência também recoloca em discussão o perdão preventivo concedido a Fauci por Joe Biden nas últimas horas de seu governo. A medida protege o ex-funcionário por atos praticados durante mais de uma década, justamente o período que abrange o financiamento das pesquisas realizadas em Wuhan e toda a política adotada durante a pandemia.
Documentos comprometem Fauci
Em 19 de junho, antes de deixar o cargo de diretora da Inteligência Nacional dos Estados Unidos, Tulsi Gabbard desclassificou documentos relacionados às investigações sobre a origem da COVID-19.
Gabbard afirmou que os papéis revelavam anos de “mentiras, desinformação e censura”. Segundo ela, Fauci teria ocultado irregularidades, manipulado informações da inteligência, mentido ao Congresso e contribuído para a perseguição de funcionários que questionavam a versão oficial.
Os documentos indicam que os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos financiaram pesquisas com coronavírus no Instituto de Virologia de Wuhan por intermédio da EcoHealth Alliance, organização dirigida pelo pesquisador Peter Daszak.
A denúncia sustenta que parte desses recursos foi destinada a experiências de ganho de função, nas quais vírus são modificados para adquirir novas características. Fauci sempre negou que os trabalhos bancados por sua agência em Wuhan pudessem ser classificados dessa maneira.
Os papéis divulgados por Gabbard também mostram que Fauci manteve contato com integrantes da comunidade de inteligência enquanto o governo norte-americano analisava a origem do vírus.
Um funcionário responsável pelo estudo de 90 dias sobre a COVID-19 registrou que Fauci recomendou o contato com autores de um artigo favorável à hipótese de origem natural. Em outra reunião, realizada em 4 de junho de 2021, Fauci perguntou sobre experiências conduzidas em Wuhan com coronavírus encontrados em pangolins.
A reunião ocorreu poucas semanas depois de ele negar publicamente que os Estados Unidos tivessem financiado pesquisas de ganho de função no instituto.
Os documentos ainda indicam que autoridades norte-americanas sabiam que funcionários do laboratório de Wuhan haviam adoecido no fim de 2019, antes do reconhecimento público do surto.
Uma denúncia feita por um funcionário do governo acusa autoridades federais de proteger Fauci de uma investigação. O ex-assessor de Fauci David Morens também foi indiciado sob a acusação de ocultar registros públicos relacionados ao caso.
Mensagens reveladas pelo Congresso mostraram Morens discutindo maneiras de evitar pedidos feitos com base na Lei de Liberdade de Informação e utilizando contas particulares para tratar de assuntos oficiais.
Dinheiro saiu dos Estados Unidos
O financiamento norte-americano das pesquisas realizadas em Wuhan está documentado. Os Institutos Nacionais de Saúde repassaram recursos à EcoHealth Alliance, que destinou parte do dinheiro ao instituto chinês.
Entre os projetos financiados estava “Compreendendo o risco do surgimento de coronavírus de morcegos”, associado a Peter Daszak e ao pesquisador norte-americano Ralph Baric.
Em 2015, pesquisadores ligados a essa rede publicaram na revista Nature Medicine um estudo sobre um coronavírus quimérico capaz de infectar células humanas. A pesquisa foi realizada durante a moratória estabelecida pelo governo dos Estados Unidos, entre 2014 e 2017, sobre determinadas experiências de ganho de função.
Também foi revelada a proposta DEFUSE, apresentada à Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa, órgão ligado ao Pentágono. O plano previa experiências com coronavírus de morcegos e a introdução de características semelhantes às encontradas posteriormente no SARS-CoV-2.
A agência afirma que a proposta não foi aprovada. Sua existência, no entanto, mostra que pesquisadores financiados pelo Estado norte-americano discutiam experiências muito semelhantes às que, depois da pandemia, passaram a ser tratadas pelos grandes meios de comunicação imperialistas como uma invenção conspiratória.
Os documentos apresentados por Gabbard não provam que uma dessas experiências produziu diretamente o vírus. Também não demonstram que Fauci tenha ordenado à comunidade de inteligência que adotasse determinada conclusão.
Eles mostram, porém, que o governo norte-americano financiava pesquisas perigosas com coronavírus em Wuhan, que Fauci tinha conhecimento desses trabalhos e que informações importantes foram ocultadas enquanto a hipótese de acidente laboratorial era censurada e ridicularizada.
Perdão por mais de uma década
Em janeiro de 2025, pouco antes de deixar a Casa Branca, Joe Biden concedeu a Fauci um perdão preventivo abrangendo atos praticados entre 1º de janeiro de 2014 e 19 de janeiro de 2025.
Fauci não havia sido condenado nem formalmente acusado. Biden declarou que pretendia protegê-lo de processos “injustificados e politicamente motivados” que poderiam ser abertos pelo governo de Donald Trump.
A Casa Branca afirmou que o perdão não representava reconhecimento de culpa. A amplitude da medida, entretanto, chama atenção. Biden protegeu Fauci por todo o período que inclui a aprovação de verbas para a EcoHealth Alliance, o financiamento das pesquisas em Wuhan, o começo da pandemia e as declarações prestadas posteriormente ao Congresso.
O início da proteção em janeiro de 2014 coincide com o período em que os Institutos Nacionais de Saúde analisavam projetos apresentados por Daszak e Baric relacionados a coronavírus de morcegos.
Rand Paul afirmou que o perdão reforçava as suspeitas de encobrimento e prometeu continuar investigando Fauci.
A medida protege apenas condutas anteriores a 19 de janeiro de 2025. Declarações falsas, desacato ou obstrução ocorridos depois dessa data não estariam cobertos. Por esse motivo, a recusa de Fauci em responder às perguntas do Senado possui consequências próprias.
A versão oficial mudou
No início da pandemia, autoridades dos Estados Unidos e a imprensa burguesa apresentaram a origem natural do vírus como praticamente comprovada. A possibilidade de vazamento de laboratório era tratada como desinformação.
Um dos principais textos usados para sustentar essa posição foi o artigo “The Proximal Origin of SARS-CoV-2”, publicado em 2020. Seus autores afirmavam que o vírus não parecia ter sido produzido ou manipulado em laboratório.
Também foi divulgada uma carta na revista The Lancet que condenava as suspeitas contra o Instituto de Virologia de Wuhan. Posteriormente, mensagens mostraram que o texto havia sido articulado por Peter Daszak, dirigente da EcoHealth Alliance e interessado direto nas pesquisas investigadas.
Nos anos seguintes, órgãos do próprio governo norte-americano passaram a considerar a hipótese laboratorial como provável.
O FBI declarou que um acidente de laboratório era a explicação mais plausível. O Departamento de Energia chegou à mesma conclusão. Em janeiro de 2025, a CIA afirmou que também considerava a origem laboratorial mais provável, embora com “baixa confiança”.
Em dezembro de 2024, após dois anos de investigação, uma comissão da Câmara dos Representantes concluiu que o coronavírus provavelmente surgiu em um laboratório e se espalhou após um vazamento.
A hipótese que havia sido censurada deixou, portanto, de ser tratada como delírio e passou a ser defendida por setores do próprio Estado norte-americano.
Pesquisa estatal e indústria farmacêutica
Jeffrey Sachs, que presidiu a Comissão da COVID-19 da revista The Lancet, afirmou estar convencido de que o vírus teria saído de pesquisas de biotecnologia ligadas aos Estados Unidos, e não de uma transmissão natural ocorrida em um mercado chinês.
Sachs acusa Fauci, Francis Collins, antigo diretor dos Institutos Nacionais de Saúde, e Jeremy Farrar, posteriormente nomeado cientista-chefe da Organização Mundial da Saúde, de ocultarem informações sobre pesquisas de ganho de função.
Ele também afirmou que o artigo sobre a origem do vírus foi usado para afastar a atenção da hipótese laboratorial. Sachs chegou a dissolver uma força-tarefa da comissão que presidia devido aos conflitos de interesse relacionados a Daszak e à EcoHealth Alliance.
A acusação de Sachs não é de que o governo norte-americano tenha liberado deliberadamente o vírus. A hipótese apresentada é a de que pesquisas perigosas, financiadas por órgãos dos Estados Unidos, possam ter provocado um acidente seguido de encobrimento.
O biólogo molecular Richard Ebright, crítico das experiências de ganho de função, classificou o perdão concedido a Fauci como uma “farsa”.
A cadeia formada pelos Institutos Nacionais de Saúde, pela EcoHealth Alliance, pelo Instituto de Virologia de Wuhan e pelo interesse do Pentágono em experiências semelhantes coloca setores do Estado norte-americano no centro das suspeitas sobre a origem da pandemia.
Ao mesmo tempo, a grande indústria farmacêutica recebeu bilhões de dólares em contratos públicos para produzir vacinas e medicamentos, enquanto qualquer crítica à política oficial era apresentada como ignorância ou extremismo.
Durante anos, autoridades e a imprensa exigiram confiança absoluta em Fauci e nas instituições. Agora, há documentos sobre financiamento de pesquisas perigosas, ocultação de registros, conflitos de interesse e pressão para sustentar a hipótese de origem natural.
Há ainda um perdão presidencial abrangendo mais de dez anos de condutas. Chamado a explicar tudo isso diante do Senado, Fauci preferiu invocar mais de cem vezes o direito de permanecer calado.
Essa é a “ciência” que foi vendida pelos políticos e influenciadores burgueses, que ecoaram em toda a esquerda, como se esses cientistas e especialistas não fossem funcionários do Estado e das grandes empresas capitalistas e, portanto, não tivessem interesses políticos, econômicos e pessoais.





