A Confederação Brasileira de Futebol vendeu o impedimento semiautomático como sinônimo de “justiça” e “precisão”. A estreia, porém, mostrou o de sempre: mais um instrumento nas mãos dos donos do futebol para decidir o que vale e o que não vale dentro de campo. Na primeira rodada com a tecnologia instalada em todos os estádios, houve nove gols em que o impedimento interferiu no resultado — oito anulados e apenas um validado.
O lance de maior repercussão foi a anulação, nos acréscimos, de um gol de Samuel Lino em Flamengo 1×1 São Paulo, por impedimento na origem da jogada. Foi ali que o semiautomático apareceu como protagonista. No mesmo fim de semana, o sistema anulou ainda o “milimétrico” de Alejo Véliz, em Bahia 1×1 Corinthians, e validou um tento de Marcinho em Santos 2×2 Chapecoense — anotado como impedido pelo auxiliar e depois liberado pela tecnologia. Foi o primeiro uso oficial do recurso: validou um, anulou dois.
Os outros seis gols anulados na rodada saíram da marcação tradicional de impedimento, feita pelo auxiliar e pelo VAR — de Leozinho em Athletico 2×0 Internacional a Hulk em Grêmio 1×1 Fluminense, passando por David, por um segundo tento do São Paulo e por três gols anulados do Bahia. Quatro partidas transcorreram sem interferência de impedimento em gols.
O ponto não é a fita métrica eletrônica. É quem a maneja e a favor de quem. A mesma cúpula que transforma o futebol em negócio bilionário, que negocia calendários e cotas de televisão ao sabor de seus interesses, agora dispõe de uma ferramenta que suspende comemorações inteiras a pretexto de milímetros invisíveis ao torcedor. A “precisão” serve de verniz técnico para decisões que continuam concentradas nas mesmas mãos.
O torcedor trabalhador, que paga caro para acompanhar seu time, assiste a gols legítimos serem apagados por uma linha traçada num monitor a que ele não tem acesso. Não se trata de nostalgia do “erro humano”, mas de reconhecer que, sob o comando dos cartolas, nem a máquina é neutra: ela apita para o lado de quem a controla.





