A Unidade Popular (UP) veio a público defender que os partidos não devem ter liberdade para decidir o sexo e a cor de seus candidatos, e que cabe ao Estado impor essa composição por meio das cotas eleitorais. A posição, apresentada como avanço “antirracista” e “antimachista”, é na verdade uma capitulação ao liberalismo, que troca a luta de classes pela contabilidade de peles e gêneros.
O raciocínio da UP inverte o problema. A ausência de trabalhadores negros e de mulheres nos postos de comando não decorre de um suposto “pacto” moral da elite branca, mas das bases econômicas do capitalismo, que mantêm a classe trabalhadora — negra e feminina em sua maioria no Brasil — despossuída e apartada do poder. Repartir cadeiras por cor e sexo dentro da ordem burguesa não emancipa ninguém: apenas garante que o poder que oprime tenha um rosto mais diverso.
Os exemplos são fartos. Os Estados Unidos já tiveram um presidente negro e mantêm hoje diplomatas negros a serviço do regime genocida de ‘Israel’. O Brasil já teve ministro negro no Supremo à frente de aberrações judiciais contra dirigentes operários. Trocar a cor de quem segura as rédeas do Estado capitalista não muda absolutamente nada para quem é explorado.
Há ainda um problema democrático que a UP finge não ver. O partido é um organismo de direito privado e deve ter soberania para decidir quem lança, segundo seus próprios critérios políticos. Quando se pede que uma instituição do Estado — o mesmo Estado que serve à burguesia — passe a ditar a composição das chapas, o que se fortalece não é a igualdade, e sim o aparato estatal e sua tutela sobre a vida partidária.
Quem deve decidir a cor e o sexo de seus candidatos é o partido, não o Estado. Ser contra as cotas de raça e gênero nas eleições, longe de ser posição reacionária, é um dever de quem se coloca do lado da classe trabalhadora. Sem a emancipação dos trabalhadores, nenhuma opressão particular — de cor, de sexo ou de orientação sexual — será superada.



