Copa do Mundo 2026

Agora os milhões pelo mundo que denunciam a FIFA são disseminadores do ‘discurso de ódio’

Depois de acatar a interferência de Trump, perseguir o Irã e proteger uma arbitragem escandalosa, Infantino ataca quem denuncia a entidade

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, acusou os críticos da roubalheira na Copa do Mundo de espalharem “ódio e rumores falsos”. A declaração foi publicada nesta segunda-feira (27), em uma carta aberta divulgada nas redes sociais da entidade, pouco mais de uma semana após a final do torneio.

Infantino afirmou que a competição realizada no Canadá, no México e nos Estados Unidos teria proporcionado “apenas alegria e felicidade”. Aos que denunciaram as irregularidades da Copa, recomendou que parassem, refletissem, meditassem, rezassem ou assistissem a uma partida de futebol.

“Lamento que o ódio e as críticas tenham consumido vocês a ponto de perderem tudo”, escreveu o dirigente. Em outro trecho, atacou aqueles que, “escondidos atrás de suas canetas, papéis e telas”, teriam espalhado boatos enquanto a imaculada FIFA trabalhava para oferecer “o melhor espetáculo do mundo”.

A carta procura transformar denúncias concretas em manifestações de ressentimento contra a entidade. No entanto, as críticas decorreram de acontecimentos públicos: um telefonema de Donald Trump para reverter a expulsão de um jogador dos Estados Unidos, a perseguição à seleção iraniana e uma sucessão de decisões de arbitragem escandalosamente favoráveis à Argentina.

Todos esses episódios foram acompanhados e denunciados por milhões de pessoas. A resposta da FIFA foi acusá-las de espalhar ódio.

Trump mandou e a FIFA obedeceu

Um dos episódios mais escandalosos ocorreu depois da expulsão do atacante norte-americano Folarin Balogun, na vitória dos Estados Unidos por 2 a 0 sobre a Bósnia.

Balogun recebeu cartão vermelho por uma entrada no tornozelo de Tarik Muharemovic. A jogada foi examinada pelo VAR, e o árbitro brasileiro Raphael Claus confirmou a expulsão.

Donald Trump telefonou pessoalmente para Infantino e pediu que a FIFA revisasse a decisão. Dias depois, a Comissão Disciplinar suspendeu o cumprimento da pena e permitiu que o atacante enfrentasse a Bélgica na segunda fase da Copa.

O telefonema foi revelado pelo jornal norte-americano The New York Times em 5 de julho. Trump admitiu a interferência e ainda chamou Claus de “suspeito”. Infantino confirmou que havia conversado com o presidente dos Estados Unidos, apresentando o contato como parte normal de suas atribuições.

A decisão contrariou o regulamento da competição, que prevê suspensão automática para o jogador expulso. A norma foi aplicada aos demais atletas que receberam cartão vermelho. Balogun foi a exceção, beneficiado depois de uma intervenção direta do presidente do país anfitrião.

A Federação Belga contestou sua escalação com base no Código Disciplinar e no regulamento da Copa. A medida também foi criticada pela UEFA e por representantes da União Europeia.

Na carta publicada após o torneio, Infantino procurou relativizar o caso. Segundo ele, decisões de arbitragem “questionáveis” e punições disciplinares “estranhas” ocorreriam com frequência nas principais ligas.

A defesa apenas agrava o escândalo. O presidente da FIFA não explicou por que uma pena prevista no regulamento foi suspensa logo depois do telefonema de Trump. Alegou apenas que irregularidades também acontecem em outras competições.

Irã impedido de treinar normalmente

Infantino também usou a participação do Irã para afirmar que o futebol teria unido “dois países em guerra”. Segundo o dirigente, a entrada da seleção iraniana nos Estados Unidos provaria que o esporte “não tem nada a ver com política”.

A delegação do Irã, porém, foi humilhada e submetida a condições muito inferiores às oferecidas às demais equipes.

As autoridades norte-americanas determinaram que os iranianos somente poderiam entrar nos Estados Unidos até 24 horas antes das partidas. Depois dos jogos, precisavam deixar o território no mesmo dia.

A base de treinamento inicialmente prevista para Tucson, no Arizona, foi transferida para Tijuana, no México. Jogadores e membros da comissão técnica passaram a atravessar a fronteira para disputar partidas em cidades como Los Angeles e Seattle.

Enquanto outras seleções permaneceram instaladas perto dos estádios e dos centros de treinamento, o Irã foi obrigado a conviver com viagens constantes, controles migratórios e incertezas sobre a entrada de integrantes da delegação.

Pelo menos 15 dirigentes e membros da comissão técnica continuavam sem visto. O presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, foi impedido de entrar nos Estados Unidos sob a alegação de que possuía ligações anteriores com o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI).

O técnico Amir Ghalenoei declarou que o Irã havia sido a seleção “mais oprimida” da Copa. Mehdi Taremi classificou o tratamento dispensado à equipe como um “desastre”. A federação iraniana apresentou uma reclamação formal à FIFA por quebra da igualdade de condições. Quem assistiu aos jogos do Irã percebeu claramente como toda essa situação prejudicou o desempenho dentro de campo, impossibilitando a equipe de vencer uma única partida sequer.

O árbitro somaliano Omar Artan também teve a entrada negada nos Estados Unidos, tornando-se outro exemplo da repressão migratória aplicada até mesmo contra participantes oficiais do torneio.

Infantino respondeu que os críticos destacaram os poucos vistos negados e ignoraram os milhões concedidos. A comparação é absurda. A aprovação de milhões de pedidos não muda o fato de que uma seleção foi submetida a restrições que prejudicaram sua preparação e seu desempenho.

Escândalo atrás de escândalo para a Argentina

A arbitragem favorável à Argentina foi o principal motivo de revolta durante a Copa. O favorecimento apareceu desde a primeira partida e continuou até a final, perdida para a Espanha por 1 a 0, em 19 de julho.

Na estreia contra a Argélia, Lionel Messi atingiu Aïssa Mandi com um pisão que desceu da panturrilha até o calcanhar, claramente para vermelho. O árbitro Szymon Marciniak marcou a falta, mas não apresentou cartão algum. O VAR também não recomendou a revisão. A Federação Argelina apresentou uma reclamação formal à FIFA.

Durante o torneio, a Argentina recebeu três pênaltis, contra Áustria, Jordânia e Egito.

A partida contra o Egito, vencida pelos argentinos por 3 a 2, concentrou algumas das decisões mais escandalosas. Um gol egípcio foi anulado por um suposto pisão de Marwan Attia em Lisandro Martínez, do outro lado do campo e que, a bem da verdade, foi forçado pelo jogador argentino. Nos minutos finais, dois pênaltis favoráveis ao Egito foram ignorados.

A Federação Egípcia pediu o afastamento da equipe de arbitragem. O técnico Hossam Hassan declarou que parecia haver interesse em manter o então campeão mundial na competição.

Contra Cabo Verde, a arbitragem interrompeu uma cobrança de falta perigosa para atender Nicolás Tagliafico, que permanecia em campo com a camisa ensanguentada. A paralisação ocorreu quando a seleção africana pressionava em busca do empate.

A partida contra a Suíça teve outro lance grotesco. Após o empate suíço, um jogador argentino recebeu cartão amarelo por simulação. O VAR interferiu, cancelou a advertência e levou a arbitragem a punir um atleta da Suíça que já possuía cartão, configurando uma outra ocasião que não era a que o árbitro deveria ver. Além disso, não se apresenta cartão amarelo por simulação no meio de campo, em geral é apenas dentro da área. A mudança terminou com a expulsão do suíço justamente quando sua equipe crescia no jogo.

As próprias escalas de arbitragem provocaram protestos. Para França e Marrocos, a FIFA designou uma equipe inteiramente argentina, comandada por Facundo Tello. A escolha causou revolta porque árbitros franceses haviam trabalhado em Argentina e Egito.

Na semifinal contra a Inglaterra, a indicação de Ismail Elfath também gerou denúncias. O árbitro era chamado pela imprensa britânica de “amuleto de Messi”, pois o jogador argentino nunca havia perdido uma partida apitada por ele. O Daily Mail afirmou que Messi havia conseguido seu “árbitro favorito”. A Argentina bateu o primeiro tempo inteiro e alguns de seus jogadores deveriam ter sido expulsos. Nada disso ocorreu, os ingleses ficaram acuados pela arbitragem e acabaram perdendo o jogo.

A Argentina passou por Argélia, Áustria, Jordânia, Cabo Verde, Egito, Suíça e Inglaterra antes de perder a decisão para a Espanha. A derrota na final não apaga o caminho montado para levá-la até lá, até porque na própria final a arbitragem ainda roubou para a Argentina, anulando dois gols da Espanha que deveriam ter sido validados.

Os erros não ocorreram em uma única partida. Foram decisões sucessivas, quase sempre na mesma direção, acompanhadas por queixas de federações, técnicos, jogadores, jornalistas e torcedores de vários países.

A FIFA chama a denúncia de “ódio”

A entidade tinha de explicar por que aceitou a interferência de Trump na punição de Balogun. Também precisava responder pelas restrições impostas ao Irã e pela quantidade de decisões favoráveis à Argentina.

Infantino preferiu atacar quem fez as perguntas.

A acusação de “discurso de ódio” tornou-se uma saída conveniente para governos, empresas e dirigentes que desejam escapar da impopularidade produzida por seus próprios atos. A expressão permite abandonar a discussão dos fatos e apresentar qualquer crítica como uma agressão ilegítima.

Foi exatamente o que fez o presidente da FIFA. Quem denunciou os escândalos passou a ser tratado como responsável por estragar a festa. A entidade que autorizou os abusos tentou assumir o papel de vítima.

Em sua carta, Infantino não explicou o telefonema de Trump, a exceção concedida a Balogun, as proibições contra a delegação iraniana nem os sucessivos escândalos de arbitragem. Chamou de disseminadores de “ódio e rumores falsos” os milhões de pessoas que viram tudo isso acontecer.

As acusações de discurso de ódio não passam de válvulas de escape para calar os críticos. No futebol, isso ainda é feito como uma artimanha desonesta. Na política, o nível já é outro: as instituições do Estado multam ou prendem os críticos, para calar de vez todos os que se opõem às roubalheiras de todos os tipos que os capitalistas executam contra o povo.

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