Cinema

Público não aceita ‘Odisseia’ identitária

Identitarismo é uma força autoritária que se impõe à força em todos os setores da produção artística, mas o público já está se rebelando contra essa ideologia reacionária

A traição das imagens

No artigo “A Odisseia política”, publicado pela Folha de S.Paulo neste domingo (26), Lygia Maria afirma que “uma constante na história do cinema é criticar filmes baseados em livros porque a versão original não teria sido respeitada”. O fato de esse tipo de crítica acompanhar a história do cinema, porém, não significa que todas sejam iguais ou desprovidas de fundamento.

Na música, reinterpretações, adaptações e citações muitas vezes se tornam famosas justamente pela originalidade ou por acrescentarem algo à obra. Na ópera, cada montagem pode alterar cenários e figurinos. Intérpretes e maestros também imprimem sua contribuição às peças que executam. Nada disso é proibido. O problema surge quando o público percebe que as modificações não resultam de uma elaboração artística, mas de intenções alheias à obra.

Segundo a autora, “cineastas não têm obrigação de fidelidade à literatura. O artista deve ser livre para interpretar, estabelecer conexões com outras obras, expor sua sensibilidade estética e fazer escolhas capazes de transpor narrativas verbais para o suporte audiovisual”.

É justamente esse o ponto da crítica: não há liberdade quando o filme se submete a interesses externos à obra e procura atingir, por cálculo político ou comercial, determinado mercado ou público.

Liberdade artística

No Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente, redigido por André Breton e Leon Trotski e assinado por Breton e Diego Rivera, lê-se, no ponto 8:

“(…) a arte não pode consentir sem degradação em curvar-se a qualquer diretiva estrangeira [exterior a ela] e a vir docilmente preencher as funções que alguns julgam poder atribuir-lhe, para fins pragmáticos, extremamente estreitos. Melhor será confiar no dom de prefiguração que é o apanágio de todo artista autêntico, que implica um começo de resolução (virtual) das contradições mais graves de sua época e orienta o pensamento de seus contemporâneos para a urgência do estabelecimento de uma nova ordem.”

Apanágio, nesse caso, significa um atributo próprio ou característico do artista autêntico, que lhe permite prefigurar, isto é, antecipar, o futuro.

A autora escreve que “‘A Odisseia’ de Christopher Nolan, lançada neste mês, foi alvo de críticas nesse sentido. O filme, de fato, altera a caracterização dos personagens. Enquanto a epopeia atribuída a Homero valoriza heroísmo, coragem, glória e astúcia guerreira, com momentos de erotismo e até de humor, a obra de Nolan foca em culpa e esvazia a sexualidade. É uma Odisseia mais escura — como explicitam os cenários e a fotografia”.

O incômodo do público, no entanto, não decorre apenas do tom sombrio. Ele nasce da percepção de que as alterações respondem às exigências do identitarismo, ou da chamada cultura woke.

Em seguida, a autora sustenta que “essa leitura sombria não é alheia à tradição clássica. Autores antigos, como Virgílio, já haviam contraposto à celebração do estratagema de Odisseu a perspectiva das vítimas da Guerra de Troia, apresentando-o como enganador e cruel. Nolan interioriza no personagem essa acusação”.

Virgílio escreveu outra obra

A comparação, porém, não se sustenta. Virgílio escreveu outra obra, a Eneida, na qual a Guerra de Troia é vista pelo lado dos derrotados. Seu herói, Eneias, foge da cidade destruída pelos gregos com o pai, Anquises, e o filho, Ascânio, para cumprir a determinação dos deuses de fundar uma nova civilização. Sua viagem termina na península Itálica, onde seus descendentes dariam origem às bases do futuro Império Romano.

Virgílio não reescreveu nem vandalizou a Odisseia. Compôs uma obra própria, com outro herói, outro ponto de vista e outra finalidade. É muito diferente do que ocorreu no Brasil com a ópera O Guarani, “reinterpretada” de uma perspectiva identitária que, na prática, se voltou contra a própria obra. Incapaz de compor uma ópera própria, Ailton Krenak simplesmente desfigurou o trabalho de Carlos Gomes.

Identitarismo

Para a autora, “o que chama atenção é a sanha politizadora das críticas feitas por parte da direita conservadora. As escolhas do diretor são expostas como propaganda esquerdista que minaria os pilares da civilização ocidental. E esse movimento começou antes mesmo do lançamento do filme, devido à escalação de Lupita Nyong’o, atriz negra, e Elliot Page, ator trans”.

A sanha, na verdade, não parte da direita conservadora, mas do identitarismo, que procura se impor a toda produção cultural. Novelas, publicidade e filmes estão saturados dessa política. Já há até produções com vikings negros, enquanto diversas séries recentes retratam como negros integrantes da alta sociedade e da corte britânica. É evidente que o filme de Nolan se submete à mesma imposição, e o público está cansado de ser enganado.

O texto parte da premissa de que o artista é livre para fazer o que quiser. Em abstrato, ninguém contesta esse princípio. O problema é que, no caso analisado, ocorre justamente o contrário: o cineasta não exerce sua liberdade, mas cumpre um programa previamente estabelecido e exterior à obra.

A articulista faz ainda uma última tentativa:

“Trata-se de uma crítica que de certo modo aniquila a estética, ora por atribuir a ela uma função, ora por considerá-la espelho da realidade. Mas, como escreveu Oscar Wilde, ‘a arte é inútil’, e, como mostrou René Magritte, o desenho de um cachimbo não é um cachimbo.”

Wilde escreveu a frase na Inglaterra vitoriana, quando se exigia que a literatura e as artes tivessem uma utilidade moral ou social: deveriam ensinar bons costumes, promover a virtude ou denunciar problemas sociais. A “inutilidade” da arte era, portanto, uma defesa de sua autonomia, da ideia de que ela deveria obedecer a si mesma e às próprias leis. Sob esse critério, o filme de Nolan, ao servir ao identitarismo, deixa de ser livre e nega a própria arte.

É muito diferente do que ocorre na obra de René Magritte. Ao escrever “Isto não é um cachimbo” — Ceci n’est pas une pipe — sob a imagem de um cachimbo, o pintor usa a própria arte para questionar a natureza da representação e da linguagem. Não se trata de submeter a obra a uma finalidade exterior, mas de explorar, por meios artísticos, a relação entre imagem, objeto e palavra. A metalinguagem cria um paradoxo que amplia a experiência do espectador.

Como afirma o Manifesto de Trotski e Breton, a arte tem valor “naquilo que ela conserva de individualidade em sua gênese, naquilo que aciona qualidades subjetivas para extrair um certo fato que leva a um enriquecimento objetivo, uma descoberta filosófica, sociológica, científica ou artística”.

É exatamente essa individualidade que filmes submetidos ao receituário identitário procuram eliminar.

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