Análise da 3ª

‘A Copa do Mundo foi uma fraude colossal’, afirma Rui Pimenta

Presidente do PCO analisou a campanha contra o futebol brasileiro, a direitização do PT, as eleições e a situação internacional

A Copa do Mundo de 2026 foi organizada para favorecer a Argentina e aprofundar a campanha contra o futebol brasileiro. A avaliação foi apresentada por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência, na edição de 22 de julho do programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária.

Pimenta também comentou a crise no ICL, a política de frente ampla do Partido dos Trabalhadores, a disputa presidencial, a eleição da nova direção do Hamas e as manifestações contra o governo de Volodimir Zelensqui na Ucrânia.

‘Fraude colossal’

A maior parte do programa foi dedicada ao balanço da Copa do Mundo, encerrada com a vitória da Espanha sobre a Argentina por 1 a 0. Para Pimenta, a arbitragem favoreceu sistematicamente os argentinos durante toda a competição, inclusive na decisão.

“A primeira coisa que a gente tem de dizer é o seguinte: a Copa foi um escândalo gigantesco de arbitragem em favor da Argentina. Em todos os jogos houve problemas gravíssimos. O caso mais escandaloso foi o do Egito, mas até a final foi escandalosa. Um juiz mais sério teria expulsado dois ou três jogadores argentinos facilmente naquele jogo. É óbvio que a Copa do Mundo foi uma fraude colossal.”

Segundo o dirigente, o árbitro tentou levar a final para os pênaltis, anulando dois gols da Espanha e permitindo a violência argentina. A Argentina, porém, não criou oportunidades e sequer finalizou contra o gol espanhol.

“Com o desempenho que eles tiveram na final, não dava. O que o juiz tentou fazer foi levar o jogo para os pênaltis. Ele anulou dois gols da Espanha. A Argentina não chutou a gol, quase não entrou na área. O que ele ia fazer? Ia dar um pênalti sem haver nem ocasião? A Argentina jogou tão mal que não dava para levá-la além do que aconteceu.”

Pimenta afirmou que a competição também mostrou a fraqueza da seleção argentina. A equipe recebeu uma chave favorável e só enfrentou um adversário mais organizado na decisão.

“Mostrou que a seleção argentina era, na verdade, uma nulidade. Se estivesse numa chave que não tivesse sido escolhida pela Fifa para ser a mais fácil de toda a Copa, nunca teria chegado à final”, declarou.

A fabricação de Messi

Outro aspecto abordado foi a campanha para apresentar Lionel Messi como o maior jogador da história. Pimenta considerou que a propaganda criada em torno do argentino está completamente fora de proporção com aquilo que ele apresentou em campo.

“O terceiro mito que caiu foi o Messi. O Messi é um produto da propaganda comercial e política de determinados grupos interessados. Quando chegou um jogo como esse, ele mal pegou na bola. Foi um zero à esquerda em campo, não fez absolutamente nada. Querem comparar Messi com Pelé, mas você pode pegar qualquer jogo do Pelé: não existe jogo em que ele não tenha chutado a gol.”

O presidente do PCO esclareceu que não considera Messi um jogador incapaz. A crítica se dirige à transformação de um bom atleta num suposto gênio comparável a Pelé, Garrincha e outros grandes jogadores brasileiros.

“Você tem um jogador relativamente bom e o transformaram, por meio da propaganda e das facilidades, num jogador de primeira linha histórica. Ele não é isso. No Brasil sempre houve muitos jogadores melhores do que Messi. O que fizeram com ele está completamente fora de proporção.”

Pimenta lembrou uma entrevista na qual Pelé ironizou as sucessivas tentativas de criar um argentino superior a ele. Primeiro apareceu Alfredo Di Stéfano, depois Diego Maradona e, finalmente, Messi.

“Pelé dizia aos argentinos que eles precisavam decidir primeiro qual era o melhor jogador da Argentina para depois discutir quem era melhor do que ele”, recordou.

Pelé já sabia: Argentina fabrica um ‘melhor do mundo’ a cada geração

Argentina usada contra o Brasil

O favorecimento da Argentina, segundo Pimenta, cumpre uma função econômica e política. Os monopólios do futebol utilizam a seleção argentina para atacar a superioridade brasileira sem ameaçar o controle europeu sobre o esporte.

“A Argentina é um país secundário do ponto de vista do poder dentro do futebol. Alemanha, Itália, França e Inglaterra são os grandes países europeus. A Argentina pode ser usada para atacar o futebol brasileiro sem ameaçar o futebol europeu. O futebol brasileiro, sim, representa uma ameaça. O Brasil tem mais títulos de Copa do Mundo do que qualquer país europeu.”

O dinheiro está concentrado nos campeonatos europeus, enquanto os clubes brasileiros precisam vender seus melhores jogadores. O fortalecimento internacional das competições nacionais transferiria parte desses recursos para o Brasil.

“Todo o negócio consiste em mostrar os campeonatos europeus como o único futebol que vale a pena assistir e canalizar todo o dinheiro para lá. Imaginem se, no mundo inteiro, as pessoas parassem para assistir ao futebol brasileiro. Para onde iria o dinheiro? Para o Brasil. Então é preciso demolir sistematicamente o futebol brasileiro. A Argentina serve para isso: Maradona é melhor do que Pelé, Messi é melhor do que Pelé e assim por diante.”

Pimenta recordou que as três Copas conquistadas pela Argentina foram marcadas por denúncias escandalosas de fraude. Em 1978, o torneio ocorreu sob a ditadura militar; em 1986, Maradona marcou com a mão contra a Inglaterra; em 2022, a equipe recebeu quase uma dezena de pênaltis.

Para o dirigente, não há comparação possível entre o histórico argentino e o brasileiro. O Brasil conquistou cinco Copas e poderia ter vencido outras edições se não tivesse sido prejudicado.

Ataque ao patrimônio nacional

Pimenta também criticou os setores da esquerda brasileira que torceram pela Argentina e utilizaram o torneio para atacar o Brasil.

Segundo ele, uma parcela da classe média tem uma posição profundamente contrária ao País. Enquanto a direita toma os Estados Unidos como modelo, a esquerda liberal escolhe a Argentina como substituto latino-americano dos países imperialistas.

“A classe média brasileira, majoritariamente, não gosta do Brasil. Ela acha o País um lixo e se espelha em outros países. A direita se espelha nos Estados Unidos. A esquerda não pode fazer isso abertamente. Então eles precisam de um país desenvolvido de mentirinha. Esse país é a Argentina.”

Pimenta rejeitou ainda a tentativa de apresentar a Argentina como o principal exemplo de luta revolucionária na América do Sul. Para ele, esse lugar pertence à Bolívia, país que realizou a Revolução de 1952, enfrentou sucessivos golpes e mantém uma tradição de mobilização popular.

O dirigente também criticou aqueles que diminuem os ataques racistas realizados por torcedores argentinos contra brasileiros. A denúncia, ressaltou, não deve ser transformada numa acusação contra todo o povo argentino, mas os acontecimentos concretos não podem ser escondidos.

O ataque ao futebol brasileiro faz parte, segundo ele, de uma ofensiva mais ampla contra o patrimônio econômico e cultural do País.

“O Brasil é o principal problema do imperialismo na América Latina. É um país continental, com uma grande economia e uma cultura poderosa. O ataque contra o Brasil também aparece no futebol. O futebol faz parte do amor próprio do brasileiro. O Brasil é a maior potência futebolística do mundo e o futebol é o esporte universal.”

Futebol brasileiro não acabou

Pimenta contestou a afirmação de que o futebol brasileiro terminou porque a Seleção não vence uma Copa desde 2002.

Nos últimos 24 anos, o Brasil conquistou duas Copas América, duas Copas das Confederações e dois títulos olímpicos. Entre os clubes, foram 13 títulos brasileiros nas últimas 20 edições da Libertadores, contra cinco da Argentina.

“Esse negócio de que o futebol brasileiro acabou é uma bobagem. Nesses 24 anos sem ganhar a Copa do Mundo, o Brasil conquistou oito títulos internacionais importantes. Nos últimos 20 anos, foram 13 Libertadores para o Brasil e cinco para a Argentina. O pessoal não vai atrás dos números e se deixa levar pela propaganda da imprensa.”

Pimenta reconheceu que a exportação precoce dos jogadores e a seleção de atletas segundo as exigências físicas dos clubes europeus prejudicam a formação brasileira. Isso, porém, não destruiu uma cultura futebolística desenvolvida durante mais de um século.

A instabilidade na direção da Seleção também foi apontada como um problema. O Brasil troca frequentemente de treinador e interrompe trabalhos antes que possam amadurecer.

ICL e a direitização do PT

No início do programa, Pimenta comentou a demissão de Leandro Demori do comando do jornalismo do ICL. A empresa alegou dificuldades financeiras, mas não explicou politicamente a saída do responsável pelo setor.

O dirigente também criticou a denúncia de que os responsáveis pelo ICL anteciparam a distribuição de lucros para evitar a cobrança de impostos. Embora a operação não tenha sido apresentada como ilegal, ela contradiz a pregação pública da empresa em favor da taxação dos ricos.

“É uma típica manobra capitalista para fugir do imposto. Não fizeram nada ilegal, mas isso não combina com a pregação de que é preciso cobrar dos ricos, não dos pobres. Revela que essa pregação é pura demagogia. O problema do ICL mostra que existe uma operação para elementos da direita tomarem conta da esquerda.”

O crescimento de figuras como Eduardo Moreira entre os setores próximos ao PT é resultado, segundo Pimenta, da política de frente ampla. Antigos golpistas e representantes tradicionais da direita passam a ser apresentados como progressistas quando estabelecem acordos eleitorais com o partido.

“O PT não faz uma aliança com o inimigo para conquistar algum resultado parcial. Quando faz a aliança, o inimigo passa a ser apresentado como a coisa mais positiva que existe no Brasil. Geraldo Alckmin entrou no governo e quase foi apresentado como revolucionário.”

Segundo Pimenta, o PT caminha para tornar-se uma social-democracia ao estilo europeu, arrastando parte de sua base para a direita.

A política eleitoral confirma essa tendência. Conforme os números mencionados no programa, o PT terá candidatos próprios a apenas 10 governos estaduais e 19 vagas no Senado.

“É muito pouco PT para muita burguesia e muita direita”, resumiu.

Burguesia procura terceira via

Sobre a eleição presidencial, Pimenta afirmou que Lula aparece como favorito, mas ainda não possui vantagem decisiva. Algumas pesquisas mostram empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno.

Ao mesmo tempo, setores da burguesia atuam para retirar o bolsonarismo da disputa e impulsionar um candidato tradicional da direita, possivelmente Ronaldo Caiado.

“Aparentemente, a burguesia se concentrou em tentar derrubar a candidatura de Flávio Bolsonaro para impulsionar um candidato da terceira via. O Globo publicou uma coluna dizendo que Flávio deveria desistir, e O Estado de S. Paulo afirmou que essa é uma chance de ouro para a direita se livrar dos Bolsonaro. Isso mostra que a burguesia de forma alguma desistiu da terceira via.”

Pimenta afirmou que a campanha confirma a caracterização do PCO de que o bolsonarismo não representa diretamente o grande capital. Advertiu, porém, que um candidato tradicional da direita pode tornar-se uma ameaça ainda maior para Lula.

Hamas e Ucrânia

Na política internacional, Pimenta analisou a eleição de Calil al-Haia para a direção do Birô Político do Hamas. Para ele, a vitória fortalece a ala de Gaza, que sustenta diretamente o peso da luta contra “Israel”.

“Foi necessário um segundo turno porque existem duas alas no Hamas. A ala representada por Caled Mechaal é mais moderada, principalmente no tipo de aliança que procura fazer. Considero positiva a vitória da ala de Gaza, porque é quem está sustentando o peso da luta.”

Pimenta rejeitou a expressão “linha dura”, utilizada para dar uma conotação negativa à corrente de al-Haia. Para ele, trata-se da ala mais revolucionária do movimento e daquela que defende a continuidade da resistência armada.

Sobre os protestos contra o governo de Zelensqui, o dirigente afirmou que as manifestações são mais um sinal da decomposição do regime ucraniano. O imperialismo procura sustentar o governo, mas enfrenta dificuldades crescentes.

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