A quantidade de absurdos falados sobre o futebol brasileiro não tem fim. Esse é o caso do artigo “Como a cultura evangélica tem contribuído para a destruição do futebol brasileiro”, de Ricardo Neggo Tom, publicado no Brasil247 nesta segunda-feira (20).
Segundo o texto, “vem gerando muita polêmica uma matéria publicada no jornal britânico The Times que associa a grande presença de jogadores evangélicos na seleção brasileira ao declínio técnico do futebol apresentado pelo time na Copa do Mundo.”
Uma matéria com esse teor não deveria gerar polêmica, mas simplesmente ser ridicularizada. Os times com mais católicos, budistas, umbandistas, etc., jogam melhor? O argumento não tem pé nem cabeça.
Ainda assim, Nêggo Tom faz questão de entrar em debate que é claramente uma insanidade.
“A abordagem feita pela reportagem”, continua o autor, “se dá a partir do ponto de vista cultural, algo sobre o qual já [escreveu] na coluna, no sentido de”, segundo ele, “provocar reflexão sobre a nova moda religiosa vigente no país.
Por que alguém trataria o protestantismo como “moda religiosa”? Esse tratamento depreciativo não leva a nada e, definitivamente, revela uma incompreensão até do que seja o fenômeno religioso.
Nêggo Tom escreve que “em um dos trechos da matéria, a ‘protestantização’ do vestiário e a nova mentalidade religiosa dos atletas — tendo Neymar como símbolo de conversão — são apontadas como a principal influência na mudança do estilo de jogo brasileiro, que teria, segundo a matéria, ficado ‘mais disciplinado e rígido’, distanciando-se do tradicional futebol brasileiro pentacampeão do mundo.”
É curioso, pois, até outro dia, o problema dos jogadores brasileiros era o de pularem o muro da concentração e Neymar é acusado de ser má influência ora por ser baladeiro, ora por ter se convertido. Nunca está bom.
O jornalista deveria ter perguntado para o The Times qual é a religião dos jogadores britânicos, aliás, dos europeus, pois a coisa ali não funciona, o jogo é feio. E, se o problema é o protestantismo, por que a Itália, país majoritariamente católico, não se classifica pela terceira Copa seguida?
Dois errados
Na visão do autor, “o que a matéria do The Times chama de estilo de jogo mais disciplinado e rígido, eu chamo de covardia e falta de criatividade.” E qual seria sua ‘explicação’? Nêggo Tom deixa a religião de lado para afirmar que “quando falamos da essência do futebol brasileiro, estamos nos referindo a um conjunto de características que historicamente nos identificou como o futebol mais bonito e criativo praticado em todo o mundo. E isso tem a ver com a nossa cultura geral. Entre essas características, podemos citar a inventividade e a habilidade dos nossos jogadores que, aliadas a uma disposição tática ofensiva, sempre produziram um espetáculo vistoso e admirável dentro de campo.”
No parágrafo seguinte, no entanto, após escrever que a “arte brasileira de jogar futebol era adquirida nas ruas, nos campinhos de terra (os chamados ‘terrões’), no asfalto e na praia, lugares de convívio social diverso”, para então disparar que esses lugares “passaram a ser demonizados pelo neopentecostalismo, sob a égide da libertação das pessoas da influência maligna das coisas do mundo. Uma verdadeira bazófia gospel para tentar se impor com superioridade moral, religiosa e cultural sobre os demais. A cada criança convertida ao neopentecostalismo, perdemos um gênio em potencial no campo das artes ou em outras áreas da sociedade onde a liberdade de criação faz a diferença.”
Apesar do absurdo que foi dito acima, Tom solta a seguinte pérola: “Para quem acha que estou exagerando, cite um gênio evangélico no campo das artes na história recente da humanidade. Alguém que tenha se destacado por seu talento diferenciado, pela capacidade criativa, pela inventividade ou por um dom inato potencializado por sua liberdade existencial. Lembraram de alguém?”
O próprio articulista cita Jimi Hendrix para em seguida afirmar que este “apenas se tornou um gênio na música quando saiu da igreja que frequentava e pôde desenvolver todo o seu talento e criatividade sem as amarras e a opressão impostas pela doutrina religiosa na qual foi criado”, acredite quem quiser.
É muito provável que Nêggo Tom nunca tenha ouvido falar em Aretha Franklin, Sam Cooke, Al Green (que se tornou pastor), Whitney Houston, Stevie Wonder, Little Richard (que chegou a ser pregador), etc. Há quem diga que, sem a influência das igrejas nos EUA, o soul, o R&B e o rock não teriam se desenvolvido da mesma maneira.
O artigo é uma lista inacreditável de absurdos, como, por exemplo, que por conta da religião, “a irreverência do drible virou pecado da soberba”. Jogadores brasileiros receberam cartão amarelo na Europa por aplicarem dribles desconcertantes em seus marcadores. Devemos acreditar que os árbitros europeus são também neopentecostais?
Polícia de costumes
Nêggo Tom, que reclama dos atletas terem se filiado ao cristianismo, reclama também que “tais jogadores, mesmo se declarando de Jesus (alguns deles 100%), não abrem mão de alguns comportamentos que não se alinham com a teoria cristã. Uma hipocrisia institucionalizada desde que o cristianismo se tornou sistêmico.” O que ele quer afinal?
A crítica, de repente, muda de direção, o articulista protesta: “Não queiram fazer um gado cantar feito um passarinho, porque o máximo que ele consegue fazer é mugir. Não queiram que o nosso futebol se torne ‘europeizado’, porque o máximo que conseguiremos é nos nivelar tecnicamente por baixo com eles.” Os europeus também se tornaram neopentecostais?
Segundo o texto, “a estratégia utilizada pelos europeus para colonizar outros povos — inclusive no futebol — é a mesma: fazê-los se enxergar como excessivos, inadequados, errados, selvagens e deseducados. E o cristianismo sempre foi o instrumento de conversão apresentado para ‘civilizar’ povos originariamente livres”. O problema é que no Brasil, o cristianismo “civilizador” era o catolicismo.
No mesmo parágrafo que diz que os europeus estão tentando domesticar o futebol, Nêggo Tom escreve que “o projeto de poder neopentecostal chega ao futebol para roubar a nossa arte, matar o nosso talento e destruir a nossa cultura futebolística”, uma verdadeira salada de frutas.
Seja como for, de uma coisa se pode ter certeza: o futebol brasileiro é vítima do mau jornalismo. É por aí que se faz pressão moralista sobre a vida dos jogadores, campanha pelo “futebol força”, “disciplinado”, pelo técnico estrangeiro, etc.
O esquema é esse, em vez de enaltecer o nosso futebol, a ordem é botar para baixo. E vale tudo, até a utilização de argumentos sem pé nem cabeça.





