Tostão publicou, neste domingo (12), na Folha de S.Paulo, o artigo O futuro não é destino. O ex-jogador afirma que o futebol brasileiro perdeu terreno, carece de craques e corre o risco de se tornar “igual a tantos outros e abaixo das principais potências”.
O texto aceita como realidade a campanha segundo a qual o futebol brasileiro teria deixado de ser o melhor do mundo.
Tostão escreve:
“O antigo chavão de que no Brasil nasce um craque em cada esquina já era.”
A afirmação não se sustenta. O Brasil continua formando alguns dos melhores jogadores do planeta. Vinícius Júnior, Rodrygo, Raphinha, Estevão, Endrick e Rayan não apareceram por acaso. Antes deles, Neymar foi o maior jogador brasileiro do século XXI e um dos principais craques de sua geração.
Neymar sequer é citado no artigo.
Não se pode discutir a suposta falta de craques brasileiros apagando o maior deles. Quando Tostão afirma que faltaria “um craque no meio-campo e na posição de centroavante”, trata uma dificuldade conjuntural como se demonstrasse o esgotamento da escola brasileira. Nenhuma seleção possui grandes jogadores em todas as posições e em todas as épocas. Nem por isso deixa de ser uma potência.
O ex-jogador apresenta o seguinte modelo:
“O ideal no futebol é unir e alternar as precisas trocas de passes e o talento do meio-campo da Espanha com a agressividade, a habilidade, velocidade e técnica dos atacantes da França.”
Por que o ideal do Brasil deve ser uma combinação de Espanha e França?
A Espanha tem em Lamine Yamal, filho de pai marroquino, seu principal jogador. O próprio Yamal declarou diversas vezes que Neymar é seu grande ídolo. A França depende de jogadores de origem africana e árabe, formados nos bairros pobres onde o futebol brasileiro exerce enorme influência.
Essas seleções não provam a superioridade de uma escola europeia. Demonstram que a Europa incorporou atletas de povos oprimidos e os colocou a serviço de suas equipes nacionais.
Nos clubes, a fraude é ainda mais evidente. Real Madrid, Barcelona, Liverpool e outras equipes milionárias contratam brasileiros, argentinos, uruguaios, africanos e árabes. Depois, suas vitórias são apresentadas como produto do “futebol europeu”.
A Europa compra os jogadores do mundo inteiro e reivindica para si o talento que não produziu.
Tostão relaciona a queda brasileira à “desorganização, ganância, incompetência, corrupção, globalização e evolução dos outros países”. O problema, na verdade, é que o futebol brasileiro sofre um assalto permanente. Os clubes europeus retiram nossos jogadores cada vez mais cedo, antes que completem sua formação e criem identificação com os clubes nacionais.
Também existe uma pressão específica durante as Copas. A FIFA controla a competição, a arbitragem e o VAR. Regras interpretativas permitem procurar impedimentos por centímetros, voltar ao início de jogadas e escolher quando uma falta merece revisão.
Em 2018, Gabriel Jesus sofreu um pênalti claro contra a Bélgica. O VAR não apareceu. Para favorecer França, Inglaterra ou Argentina, a tecnologia examina cada detalhe.
Não é possível analisar 24 anos sem títulos mundiais ignorando esse ambiente.
Tostão afirma:
“Criamos uma enorme expectativa muito acima da realidade.”
Não criamos. O Brasil tinha futebol para disputar o título.
A Seleção perdeu para a Noruega por 2 a 1 numa partida que poderia ter vencido. Desperdiçou um pênalti, criou oportunidades e teve momentos de clara superioridade técnica. A derrota não provou que a Noruega possuía um modelo melhor.
Copa do Mundo é mata-mata. Um erro, uma lesão, uma decisão de arbitragem ou um lance isolado elimina uma equipe.
O Brasil não ganhar desde 2002 exige uma análise de cada torneio. Não autoriza concluir que seu futebol acabou.
Nesse período, a Seleção ganhou três Copas América, três Copas das Confederações e duas medalhas de ouro olímpicas. Em 2013, atropelou por 3 a 0 a Espanha campeã mundial.
Como pode um futebol inexistente produzir esses resultados?
O próprio autor lembra:
“Participei, com 19 anos, de um período ainda pior da seleção brasileira, a desclassificação na primeira fase da Copa de 1966.”
Acrescenta que alguns jogadores daquela campanha participaram da Seleção de 1970, que encantou o mundo.
Esse exemplo destrói a tese da decadência.
Depois de 1966, a imprensa atacou os jogadores e afirmou que o futebol brasileiro precisava copiar a Europa. Quatro anos mais tarde, o Brasil venceu com uma equipe que levou sua própria escola ao ponto mais alto.
A geração de 2002 também chegou desacreditada e foi campeã. A de 2006 era considerada imbatível e perdeu.
É do futebol.
O valor de uma geração não pode ser definido retrospectivamente por uma única partida. O Brasil perdeu uma Copa. Não perdeu seu futebol.




