Copa do Mundo

O futebol brasileiro continua brasileiro, já a imprensa brasileira…

Um jogador não deixa de ser brasileiro porque trabalha num clube espanhol, inglês, francês ou italiano. Sua saída mostra a concentração econômica do futebol

Ricardo Melo publicou, no dia 9 de julho, no Poder360, o artigo A Copa do Mundo é dos outros. O autor afirma que o “futebol brasileiro” virou uma “relíquia do passado distante”, chama os jogadores da Seleção de “atletas bisonhos” e conclui que a Copa do Mundo de seleções nacionais “já era”.

O artigo não analisa a partida contra a Noruega. Também não examina a formação dos jogadores, o assalto dos clubes europeus ao futebol brasileiro, a diferença financeira entre as equipes ou as decisões da FIFA.

Melo parte da eliminação e chega rapidamente à conclusão desejada: o Brasil acabou.

“‘Futebol brasileiro’ é relíquia do passado distante.”

A frase não é nova. A imprensa repete essa sentença a cada eliminação da Seleção. Disse depois de 1950, de 1966, de 1982, de 1998, de 2006, de 2010, de 2014, de 2018 e de 2022.

O Brasil perdeu novamente em 2026. A mesma campanha voltou.

O Brasil perdeu por 2 a 1 para a Noruega. Poderia ter vencido.

A Seleção teve oportunidades, sofreu menos do que o resultado faz parecer e desperdiçou um pênalti. A Noruega aproveitou melhor seus lances e impôs sua força física, mas não demonstrou superioridade técnica capaz de sustentar uma teoria sobre o fim do futebol brasileiro.

Melo não discute isso.

Escreve:

“Terminou como esperado. A tal seleção brasileira foi-se embora dos EUA levando na bagagem recordes de fracassos dentro e fora do campo.”

Por que “como esperado”?

O Brasil entrou na partida com jogadores superiores em várias posições. Criou condições para abrir o placar e poderia ter passado à fase seguinte. Quem viu o jogo sabe que não houve uma distância intransponível entre as duas equipes.

A expressão “tal seleção brasileira” já revela o propósito. O autor não quer avaliar a Seleção. Quer avacalhá-la.

A derrota vira confirmação automática de uma tese que existia antes do jogo.

Melo escreve:

“Em cada posição os atuais ocupantes não passariam de reservas obscuros em uma equipe como a de 1970 ou a de 1982.”

A comparação é impossível de demonstrar e não ajuda a entender o presente.

A Seleção de 1970 virou uma referência depois de ganhar a Copa. Antes do torneio, foi duramente criticada. Havia dúvidas sobre o técnico, o condicionamento físico, a convivência entre tantos jogadores de criação e a montagem do meio-campo.

Depois do título, todos se tornaram incontestáveis.

A equipe de 2002 também chegou desacreditada. Ronaldo voltava de lesões gravíssimas. Rivaldo era atacado. O Brasil teve dificuldades nas eliminatórias e Luiz Felipe Scolari não era unanimidade.

O time foi campeão.

Em 2006 ocorreu o contrário. A Seleção era apresentada como imbatível. Reunia Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Adriano e Roberto Carlos. Perdeu para a França nas quartas de final.

O futebol não funciona como a comparação abstrata de nomes numa folha de papel.

Uma geração criticada pode ganhar e se tornar lendária. Uma geração considerada invencível pode perder. Um time superior pode ser eliminado por um erro, uma lesão, uma escolha do treinador, uma decisão de arbitragem ou um lance isolado.

A derrota contra a Noruega não prova que os jogadores brasileiros sejam “reservas obscuros”. Prova apenas que o Brasil perdeu aquela partida.

Melo afirma:

“Suas versões modernas comportam-se como atletas bisonhos quando servem à seleção. Nos clubes onde recebem salários astronômicos, suam a camisa.”

O autor não percebe a contradição que ele próprio apresenta.

Se esses jogadores são tão ruins, por que os clubes europeus pagam fortunas para contratá-los?

Os principais clubes do continente dependem de jogadores brasileiros, argentinos, uruguaios, africanos, árabes e filhos de imigrantes. Montam verdadeiras seleções internacionais com o dinheiro acumulado nos centros imperialistas.

Esse processo é apresentado como superioridade do “futebol europeu”.

Mas qual futebol europeu?

O melhor ataque do Barcelona neste século foi formado por Neymar, Lionel Messi e Luis Suárez: um brasileiro, um argentino e um uruguaio.

O Liverpool campeão europeu em 2019 tinha na frente Mohamed Salah, Sadio Mané e Roberto Firmino: um egípcio, um senegalês e um brasileiro.

O Real Madrid chegou a escalar uma equipe sem nenhum espanhol entre os titulares. Goleiros belgas, atacantes brasileiros, meio-campistas de vários países e defensores importados formam o clube apresentado como símbolo máximo da Espanha.

A Europa compra os melhores jogadores do mundo e depois reivindica para si a qualidade desses atletas.

Melo aceita a fraude.

Quando o brasileiro atua num clube europeu, seu sucesso comprovaria a força da Europa. Quando joga pela Seleção e perde uma partida, torna-se “bisonho”.

O jogador é bom o suficiente para sustentar os clubes mais ricos do planeta, mas não para representar o Brasil.

A redução da força financeira dos clubes brasileiros não demonstra o fim de sua escola. Demonstra o tamanho do assalto realizado pelos clubes europeus.

O São Paulo foi tricampeão mundial contra equipes europeias. O Internacional derrotou o Barcelona em 2006. O Corinthians venceu o Chelsea em 2012.

Desde então, nenhum clube brasileiro conquistou novamente o título mundial. A diferença aumentou porque os europeus passaram a concentrar ainda mais dinheiro e a retirar jogadores do Brasil cada vez mais cedo.

Antes, um craque deixava o País depois de formar-se e disputar várias temporadas. Hoje, adolescentes saem antes mesmo de estabelecer uma carreira profissional nos clubes que os revelaram.

Mesmo saqueado, o País continua produzindo atletas procurados pelos principais clubes do mundo.

O próprio desempenho recente dos clubes brasileiros contradiz a tese de Melo.

No Mundial de Clubes realizado pela FIFA em 2025, as equipes brasileiras mostraram capacidade para enfrentar adversários com orçamentos muito maiores.

O Fluminense chegou à semifinal. Ficou entre os quatro melhores da competição mesmo sendo, entre os representantes brasileiros, um dos clubes com menor capacidade de investimento.

Outras equipes do País também competiram em bom nível.

A diferença financeira não desapareceu. Os brasileiros jogaram contra elencos montados com centenas de milhões de euros e atletas retirados de vários continentes.

Ainda assim, não foram figurantes.

Se o futebol brasileiro fosse uma “relíquia do passado distante”, como explicar esse desempenho?

Melo não explica. A informação destruiria seu argumento.

O futebol brasileiro também mostrou sinais de recuperação por meio da volta de atletas que saíram cedo demais.

Jogadores com passagem pela Europa retornaram, conquistaram títulos e recuperaram espaço na Seleção.

Luiz Henrique foi campeão brasileiro e da Libertadores em 2024 antes de ganhar importância no time nacional. Gerson também fortaleceu sua carreira no futebol do País e voltou à Seleção.

Esses casos mostram que a ligação entre os clubes brasileiros e a Seleção pode ser reconstruída.

O problema não está numa incapacidade nacional para produzir futebol. Está na retirada precoce dos atletas e na submissão da formação brasileira aos interesses dos clubes estrangeiros.

A solução não é declarar o País morto.

É defender seus clubes, manter os jogadores por mais tempo, fortalecer as competições nacionais e colocar a Seleção novamente em contato com o futebol praticado no Brasil.

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