No dia 6 de julho, a Revista Fórum publicou o artigo Fraco, soberbo e mau perdedor: Neymar representou bem o bolsonarismo, no qual Tadeu Porto usa a eliminação do Brasil para apresentar o jogador como símbolo da extrema direita e da suposta decadência nacional.
O título já oferece a sentença: Neymar seria “fraco, soberbo e mau perdedor”. No corpo do texto, Porto acrescenta que o jogador é um “irresponsável que gosta de cobrar responsabilidade” e uma “liderança que não gosta de trabalhar”.
Nada disso é demonstrado por meio do futebol.
O artigo não analisa a condição física de Neymar, os poucos minutos que teve em campo, sua participação no jogo contra a Noruega, o pênalti convertido ou sua tentativa de comandar a reação brasileira. O autor parte da posição eleitoral do jogador para definir seu caráter e, depois, usa essa condenação moral como explicação para tudo o que aconteceu na Copa.
Esse procedimento tem um resultado político preciso. Em vez de disputar os trabalhadores influenciados pelo bolsonarismo, transforma todos os seus símbolos, preferências e sentimentos em objetos de desprezo. Bolsonaro agradece. Basta aparecer como defensor de Neymar, da Seleção e da camisa brasileira para recolher aquilo que a esquerda pequeno-burguesa joga fora.
Porto escreve:
“Não jogou nada na Copa, entrou no último jogo e causou mais confusão do que foi decisivo.”
A primeira parte da frase omite o fato principal. Neymar praticamente não jogou porque estava machucado.
Não ficou fora das partidas por preguiça, falta de compromisso ou decisão de preservar-se para os clubes. Chegou ao torneio com limitações físicas e só conseguiu entrar na partida contra a Noruega.
Usar sua baixa participação para chamá-lo de “liderança que não gosta de trabalhar” é uma covardia. O autor transforma uma lesão em falha de caráter.
A carreira de Neymar é marcada por contusões provocadas pelo tratamento violento que recebe dentro de campo. Por ser um jogador de drible, que enfrenta marcadores no mano a mano, tornou-se alvo permanente de faltas destinadas não apenas a interromper jogadas, mas a intimidá-lo e tirá-lo das partidas.
O episódio mais grave ocorreu na Copa de 2014. Nas quartas de final contra a Colômbia, Juan Camilo Zúñiga acertou uma joelhada nas costas de Neymar. O golpe fraturou uma vértebra e o retirou do restante do torneio. Os médicos advertiram que uma variação pequena no local do impacto poderia ter provocado consequências neurológicas muito mais graves.
A arbitragem não puniu a agressão como deveria. A FIFA também não adotou uma medida proporcional à gravidade do lance. O Brasil perdeu seu principal jogador antes da semifinal contra a Alemanha.
Esse episódio deveria ser indispensável em qualquer análise sobre as lesões de Neymar. Ele mostra que o jogador não se machuca porque quer, porque seria pouco profissional ou porque não gosta de trabalhar. Ele é perseguido dentro de campo.
Porto não menciona nada disso.
A violência contra o craque desaparece. Sobra apenas a condenação moral do lesionado.
O artigo afirma:
“Neymar mostra que é de fato um bolsonarista raiz: mau perdedor, provocador que não aceita ser provocado, irresponsável que gosta de cobrar responsabilidade, liderança que não gosta de trabalhar.”
Porto não informa se Neymar errou passes, perdeu gols, comprometeu a marcação ou ocupou mal o campo. Não discute sua posição, seu estado físico ou as orientações de Carlo Ancelotti. Também não compara sua atuação com a dos demais jogadores.
A posição política aparece no lugar da análise.
Neymar apoiou Bolsonaro. A partir disso, o autor conclui que ele é fraco, irresponsável, preguiçoso e moralmente inferior.
Esse recurso é necessário porque é difícil atacar Neymar como jogador.
Ele é o maior craque brasileiro do século XXI. Foi o principal jogador revelado pelo País depois da geração campeã de 2002. É o maior artilheiro da história da Seleção nos jogos reconhecidos pela FIFA, conquistou títulos importantes, decidiu partidas e influenciou uma geração inteira de jogadores.
Porto escreve que Neymar “causou mais confusão do que foi decisivo” e que “envergonhou o país ao caçoar do adversário mesmo numa derrota vergonhosa”.
Neymar não foi responsável pela eliminação. Não montou a equipe, não definiu a estratégia, não passou a maior parte da Copa em campo e não determinou que o Brasil entregasse a bola à Noruega. Também não perdeu o pênalti brasileiro.
Fez o contrário.
Quando recebeu a oportunidade, assumiu a cobrança, chamou a responsabilidade para si e marcou o único gol do Brasil. A batida foi executada com categoria e firmeza, no pênaltis mais bonito do torneio.
O gol recolocou a Seleção na partida. Porto diz que Neymar “causou confusão”. O que ocorreu foi que o jogador enfrentou os noruegueses, discutiu com os adversários e se recusou a aceitar passivamente a eliminação.
A campanha contra Neymar também procura apresentar sua presença na Copa como uma imposição política.
Porto escreve que o jogador foi “escolhido como símbolo da campanha de Bolsonaro” e reduz sua convocação a essa relação. A pressão predominante antes da Copa foi exatamente a contrária.
Comentaristas, colunistas e programas esportivos passaram meses questionando se Neymar deveria ser convocado. Sua idade, suas lesões, sua vida pessoal e seu apoio a Bolsonaro foram usados como argumentos para deixá-lo fora da Seleção.
A posição dominante não era a de que Neymar salvaria o Brasil. Era a de que ele atrapalharia o grupo. Mesmo lesionado e sem condições de disputar a maior parte das partidas, continuou sendo alvo central da cobertura. Outros jogadores atuaram durante todo o torneio, mas Neymar recebeu uma parcela desproporcional dos ataques.
Isso demonstra que a campanha não depende de seu desempenho. Ele poderia jogar bem, jogar mal ou não jogar. Em todos os casos, seria apresentado como problema.
O artigo de Porto confirma isso. Neymar quase não participou da campanha, mas virou símbolo da eliminação. A responsabilidade pelo resultado é transferida para quem menos teve condições de influenciá-lo.
Porto procura ligar a conduta de Neymar à de Jair Bolsonaro:
“Jair Bolsonaro mostrou bem que é um mau perdedor.”
Depois conclui que Neymar seria outro “mau perdedor” e, portanto, “um bolsonarista raiz”. A comparação não demonstra nada. Bolsonaro não passou a faixa presidencial depois de perder uma eleição. Neymar discutiu com adversários depois de uma derrota esportiva. São acontecimentos de natureza completamente diferente.
A aproximação serve apenas para transferir ao jogador toda a rejeição política ao ex-presidente. Essa forma de argumentar aparece com frequência na esquerda pequeno-burguesa. Ela não procura compreender por que milhões de trabalhadores votaram em Bolsonaro. Prefere tratá-los como “gado”, ignorantes, burros ou moralmente podres.
O trabalhador atacado não se aproxima da esquerda. Sente que Bolsonaro, pelo menos, não o despreza por suas preferências, sua religião, sua maneira de falar ou seus ídolos.
Milhões de brasileiros admiram o jogador. Muitos o consideram o principal craque que viram atuar pela Seleção. Quando a esquerda diz que esse ídolo é preguiçoso, fraco e moralmente inferior, não está atingindo apenas Neymar. Está comunicando a seus admiradores que eles também escolheram errado, torcem errado e pertencem ao lado errado.
Porto afirma que “Neymar representou bem o bolsonarismo”. A pergunta correta é outra: quem entregou Neymar ao bolsonarismo?
Neymar não nasceu como propriedade política da extrema direita. Foi empurrado para esse campo por uma esquerda que o atacou durante anos. Sua origem popular, sua religiosidade, sua maneira de falar, sua riqueza, seus hábitos e suas opiniões foram tratados com desprezo pela classe média bem-pensante.
Em vez de disputar politicamente o jogador e seu público, a esquerda decidiu expulsá-los de seu campo. Bolsonaro fez o movimento oposto. Aproximou-se de Neymar, usou sua imagem e apresentou-se como seu defensor.
Porto culpa o jogador por essa aproximação, mas repete exatamente o comportamento que a tornou possível. Esse setor da esquerda não possui autoridade para distribuir certificados de moralidade. A esquerda pequeno-burguesa aceita tranquilamente o financiamento de ONGs ligadas a grandes fundações capitalistas. Defende alianças com partidos da direita tradicional e aceita Geraldo Alckmin como vice de Lula.
Alckmin foi um dos representantes da direita que apoiou o golpe de 2016 e governou São Paulo com uma política de repressão contra estudantes, professores e trabalhadores. Para essa esquerda, porém, a aliança com Alckmin podia ser justificada em nome da “democracia”. A opinião eleitoral de Neymar, não.
Bolsonaro não precisa convencer o público de Neymar de que a esquerda o despreza. Artigos como o de Porto fazem isso gratuitamente.




