Futebol

Torcer contra a Seleção é torcer para a máfia da FIFA

Ao mandar o brasileiro parar de sofrer pela Seleção, Moisés Mendes apenas oferece uma justificativa para a campanha da imprensa burguesa contra o País

Moisés Mendes publicou, no dia 6 de julho, no Brasil 247, o artigo Parem de sofrer pela Seleção. O texto sustenta que Neymar foi uma espécie de “cloroquina” levada à Copa pela CBF e pela Globo, que o time brasileiro se tornou “patrimônio do bolsonarismo” e que não valeria mais a pena lutar pela Seleção.

O artigo não procura explicar por que o Brasil perdeu para a Noruega. Seu objetivo é outro. Mendes usa a eliminação para atacar Neymar, os jogadores, a Seleção e a própria ligação do povo brasileiro com o futebol.

O ponto de chegada aparece de forma explícita:

“A Seleção brasileira aprofundou sua insignificância e é hoje patrimônio do bolsonarismo.”

Em seguida, o autor completa:

“Não vale a pena lutar pelo resgate do que já é deles.”

Essa é a tese real do artigo. O problema não seria uma escalação, uma substituição, um erro de arbitragem ou uma escolha tática. O problema seria a própria Seleção. O brasileiro deveria abandonar aquilo que o País criou porque alguns jogadores apoiaram Bolsonaro.

Essa posição não combate a extrema direita. Entrega à extrema direita um dos maiores patrimônios populares do Brasil.

E faz mais. Ajuda a FIFA, os grandes clubes europeus, os patrocinadores e a imprensa burguesa a separar o povo brasileiro de sua Seleção.

Mendes tenta apresentar-se como adversário da europeização do futebol brasileiro. Critica Carlo Ancelotti, a gravata do técnico, o colete e sua postura à beira do campo.

Escreve:

“O técnico do Brasil não pode usar gravata, nem na Seleção de esgrima nos Jogos de Inverno. Tem que tentar ser parecido com o Brasil, e não com a Europa.”

Em nenhum momento o artigo explica como Ancelotti chegou ao comando da Seleção. Não há uma palavra sobre a campanha organizada durante anos para entregar o Brasil a um técnico estrangeiro. Não há crítica aos comentaristas, dirigentes e jornais que apresentaram os treinadores brasileiros como incapazes. Não há defesa dos técnicos nacionais que foram desmoralizados para abrir caminho ao italiano.

Mendes aparece contra Ancelotti depois da derrota. O autor critica o resultado da europeização, mas não combate a política que a produziu. Ataca Ancelotti por perder, não por representar a entrega do futebol brasileiro aos mesmos países que há décadas procuram copiar e controlar aquilo que o Brasil criou.

Se o problema fosse realmente a europeização, Mendes teria de defender o futebol brasileiro. Teria de explicar que o País não precisa importar uma escola inferior. Teria de mostrar que a Europa enriquece seus clubes comprando jogadores brasileiros, argentinos, africanos e árabes.

Nada disso aparece.

A crítica ao técnico funciona apenas como mais um instrumento para atacar a Seleção.

O artigo chama Neymar de “Neymar-cloroquina” e afirma que ele foi levado à Copa como milagreiro pela CBF e pela Globo.

Escreve:

“O Neymar-cloroquina acabou com os sonhos de bolsonaristas e não bolsonaristas ao ser levado para a Copa como milagreiro.”

Mais adiante:

“Neymar é problema de Flávio Bolsonaro, da Globo, dos tios do zap que o consideravam um craque para momentos históricos.”

A afirmação falsifica o que ocorreu antes da Copa.

A pressão dominante não era para transformar Neymar em salvador. Era para impedir sua convocação.

Durante meses, comentaristas questionaram sua idade, sua condição física, sua carreira, sua vida pessoal e sua posição política. O jogador foi apresentado como um problema para o grupo. Sua presença na Seleção foi tratada como concessão indevida.

A campanha não dizia que Neymar resolveria tudo. Dizia que ele não deveria nem estar ali.

Mendes inverte os fatos porque precisa montar sua comparação com a cloroquina. Primeiro inventa um Neymar imposto como solução milagrosa. Depois anuncia que o milagre fracassou.

Neymar não foi convocado porque alguém acreditava em poderes sobrenaturais. Foi convocado porque é o maior jogador brasileiro do século XXI e um dos poucos capazes de mudar uma partida num lance.

Essa constatação não depende de sua posição eleitoral.

Pelé foi ministro do governo Fernando Henrique Cardoso. Romário se tornou um senador de direita. Ronaldo se transformou em empresário e apoio a candidatura de Aécio Neves. Nenhum desses fatos elimina sua importância para o futebol brasileiro.

Mendes troca a análise esportiva por um julgamento moral.

O artigo abre com vários parágrafos sobre Bolsonaro, a pandemia e as mortes por Covid-19. Depois estabelece a comparação:

“O Neymar-cloroquina acabou com os sonhos de bolsonaristas e não bolsonaristas.”

A comparação procura transferir para Neymar a repulsa provocada por Bolsonaro durante a pandemia.

Não há relação esportiva entre as duas coisas.

A cloroquina era um medicamento sem eficácia contra a Covid-19, promovido politicamente pelo governo. Neymar é um jogador de futebol cuja qualidade pode ser observada em centenas de partidas.

A comparação não demonstra que Neymar jogou mal. Não explica sua função tática. Não examina sua condição física. Não analisa seus minutos em campo. Não discute o que fez com a bola.

Ela existe para condenar o jogador antes da análise.

Esse procedimento é repulsivo porque usa as mortes da pandemia para atacar um jogador.

Também é interessado. A FIFA, os grandes clubes europeus e a imprensa burguesa realizam há anos uma campanha contra Neymar. Mendes fornece a essa campanha uma cobertura de esquerda. O resultado é o mesmo: desmoralizar o principal jogador brasileiro de sua geração.

Mendes escreve:

“Marc[ou] um gol de pênalti que não valeu nada.”

O gol não valeu a classificação porque o Brasil acabou eliminado. Isso não significa que não tenha tido importância.

Neymar assumiu a cobrança sob enorme pressão. O Brasil estava atrás no placar, diante de uma seleção fisicamente forte e num momento em que o time precisava reagir. Ele bateu o pênalti mais bonito da Copa, com segurança e personalidade.

Neymar não aceitou passivamente o domínio norueguês. Peitou os adversários, discutiu, tentou levantar o time e assumiu a responsabilidade.

A imprensa passou a Copa cobrando “atitude” dos jogadores brasileiros. Quando Neymar teve atitude, Mendes a transformou em mais uma prova contra ele. O artigo não descreve a cobrança. Não analisa o momento da partida. Não examina o efeito sobre o time. Apenas decreta que o gol “não valeu nada”.

Se a Argentina estivesse perdendo, Messi marcasse um pênalti e seu time acabasse eliminado, a imprensa diria que o craque morreu de pé. Com Neymar, o gol é descartado porque atrapalha a tese de que ele foi uma fraude completa.

O problema não é o desempenho do jogador. É a decisão anterior de condená-lo.

Mendes escreve:

“Ele sintetizou tudo o que uma Seleção foi como expressão de desorganização, alienação e engajamento a condutas reacionárias.”

A frase não contém uma única informação sobre futebol.

O artigo também afirma:

“Com poucas exceções, e Vinicius Júnior talvez seja a mais importante delas por seu combate ao racismo, o resto era, como já disseram, mais influencer do que jogador de futebol.”

A qualidade esportiva dos jogadores passa a depender de sua adequação ao pensamento do autor.

Vinícius Júnior é poupado porque combate o racismo. Neymar é condenado porque apoiou Bolsonaro. Nenhuma das duas posições explica como cada um jogou.

O valor de Vinícius Júnior está em sua capacidade como atacante, não em sua opinião política. O valor de Neymar está em sua técnica, não em seu voto.

A Seleção não é uma organização partidária. Não se escolhem jogadores por um teste ideológico. A esquerda que defende esse teste acaba aceitando o mesmo princípio da direita: usar a política pessoal do jogador para decidir se ele representa ou não o Brasil.

Essa moralização destrói qualquer análise séria.

A afirmação de que a maioria dos convocados era “mais influencer do que jogador” também não resiste aos fatos.

Os atletas brasileiros disputam os principais campeonatos do mundo. São titulares em grandes clubes. Muitos são comprados por dezenas de milhões de euros justamente pelos clubes europeus que a imprensa apresenta como modelo.

Essa campanha aparece a cada derrota brasileira. Os jogadores seriam mimados, vaidosos, alienados, individualistas, pouco inteligentes, excessivamente ricos e sem amor à camisa. Quando vencem nos clubes europeus, são prova da grandeza desses clubes. Quando perdem pela Seleção, tornam-se prova da decadência brasileira.

É uma fraude.

O artigo descreve o grupo como:

“Fracos como grupo de fato coletivo, sem coesão tática, frágeis como homens em campo.”

O Brasil tinha jogadores suficientes para disputar o título.

Um time pode possuir grandes atletas e jogar mal. Pode ter um treinador consagrado e adotar uma estratégia errada. Pode ser superior e perder. Isso acontece no futebol.

A Seleção de 1970 foi duramente criticada antes da Copa. Havia dúvidas sobre o meio-campo, o treinador e a convivência entre tantos jogadores criativos. Depois do título, virou referência mundial.

A equipe de 2002 também chegou cercada por desconfiança. Ronaldo voltava de lesões gravíssimas. Rivaldo era atacado. A classificação nas eliminatórias foi difícil. O time ganhou a Copa.

Em 2006, ocorreu o contrário. A Seleção era imbatível. Reunia Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Adriano e Roberto Carlos. Foi eliminada pela França. Uma geração não pode ser julgada apenas pelo resultado de uma Copa.

O melhor time não vence sempre. Há contusões, erros, arbitragem, ambiente político, pressão, preparação inadequada e lances isolados.

O autor escreve:

“Tão frágeis e tão acovardados que foram dominados não pela França ou pela Espanha, mas por um time de noruegueses.”

O Brasil perdeu para a Noruega. Não foi inferior durante toda a partida.

A Seleção criou chances, teve um pênalti e poderia ter vencido. Os noruegueses aproveitaram melhor suas oportunidades e impuseram sua força física em momentos decisivos. Isso não transforma o modelo norueguês em escola superior.

A frase mais grave do artigo é esta:

“A Seleção brasileira aprofundou sua insignificância e é hoje patrimônio do bolsonarismo.”

Não é verdade.

A Seleção pertence ao povo brasileiro.

Foi criada e transformada por jogadores negros, pobres e trabalhadores. Tornou-se símbolo nacional porque um país oprimido derrotou as principais potências no esporte mais popular do mundo.

Bolsonaro tentou se apropriar da camisa. A direita usa as cores nacionais. Isso não torna a bandeira, a camisa ou a Seleção propriedade da extrema direita.

Quando Mendes escreve que “não vale a pena lutar pelo resgate do que já é deles”, aceita a apropriação bolsonarista.

É uma capitulação.

A política correta seria retirar das mãos da direita aquilo que pertence ao povo. Mendes propõe abandonar o terreno.

Esse abandono serve ao imperialismo.

Os Estados Unidos, a FIFA, os patrocinadores e os grandes clubes europeus procuram controlar o futebol. Para isso, precisam enfraquecer as seleções nacionais, retirar jogadores dos países pobres e transformar o torcedor em consumidor de campeonatos europeus.

A separação entre o brasileiro e sua Seleção ajuda esse projeto.

Quando um articulista de esquerda manda o povo “parar de sofrer pela Seleção”, presta um serviço aos mesmos interesses que transformaram o futebol num negócio de monopólios internacionais.

O artigo não menciona a FIFA como força política. Não discute o VAR, os patrocinadores, a expansão norte-americana, o roubo de jogadores ou o controle europeu sobre o esporte.

Seu adversário é o brasileiro.

É o jogador brasileiro, a torcida brasileira, a Seleção Brasileira e a ideia de que o futebol expressa uma capacidade nacional.

Ao final, Mendes escreve:

“O nosso futebol é tão comum e tão falso quanto um jundiá salgado do rio Guaíba, muito vendido como bacalhau norueguês.”

O futebol brasileiro seria falso. A ligação do povo com a Seleção seria falsa. A grandeza construída por Pelé, Garrincha, Didi, Romário, Ronaldo, Ronaldinho e Neymar teria terminado.

Essa conclusão coincide perfeitamente com a campanha internacional contra o Brasil.

Durante décadas, a imprensa burguesa tenta convencer o País de que seu futebol acabou. A cada eliminação, anuncia uma decadência definitiva. Exige técnicos estrangeiros, métodos europeus e jogadores mais obedientes.

Mendes acrescenta uma justificativa de esquerda: o futebol teria virado bolsonarista. O imperialismo não poderia pedir colaboração melhor.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.