A ofensiva contra a candidatura de Flávio Bolsonaro não enfraqueceu o bolsonarismo. Até agora, produziu o efeito contrário.
Nas últimas semanas, Michelle Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, o MBL de Renan Santos e setores do PP passaram a atacar ou a se afastar da candidatura. O movimento reúne justamente os setores da direita mais ligados ao capital financeiro e à tentativa de organizar uma alternativa eleitoral ao bolsonarismo.
Michelle rompeu com a direção do PL no Ceará porque queria apoiar um nome ligado ao Partido Novo. Depois, acenou para o centro e passou a agir por conta própria. Zema, Caiado e o MBL repetiram os ataques. O PP liberou sua bancada para a chamada neutralidade.
A disputa não envolve princípio algum. Esses setores pretendem retirar de Bolsonaro uma parcela de seu eleitorado e ocupar o espaço que surgiria com o enfraquecimento de sua força política.
Até agora, a operação fracassou. Caiado e Zema governaram Goiás e Minas Gerais, dispõem das máquinas estaduais e continuam com baixíssima intenção de voto. A legenda organizada pelo MBL pode obter algum crescimento porque parte de uma base quase inexistente. Os demais correm o risco de perder espaço sem conquistar os votos bolsonaristas.
O ataque de Michelle era o mais perigoso. Ao explorar sua influência entre as eleitoras de Bolsonaro, tentou abrir uma brecha numa parcela decisiva de sua base. A manobra, no entanto, não avançou. A rejeição de Flávio já atingiu o teto indicado pelas pesquisas, enquanto seus apoiadores permaneceram ao seu lado.
Michelle também não conseguiu transformar o ataque em apoio a outro candidato. Valdemar Costa Neto respondeu extinguindo o PL Mulher e manteve o partido em torno da candidatura.
Os dirigentes que participam da ofensiva correm um risco elevado sem apresentar qualquer ganho político concreto. A força de Michelle depende diretamente de Jair Bolsonaro. Nicolas Ferreira compromete sua posição dentro do bolsonarismo caso rompa com Flávio. Zé Trovão, ao atacar Bolsonaro, apenas perde apoio entre os próprios eleitores da direita.
O episódio revela o caráter fisiológico de boa parte do bolsonarismo. Existe uma ala mobilizada por posições políticas mais firmes, mas os dirigentes que iniciaram a crise estão preocupados principalmente com governos estaduais, cargos e cadeiras no Congresso.
A ofensiva pode produzir o resultado oposto ao pretendido. O ataque da direita ligada ao capital financeiro empurra Bolsonaro para posições mais duras e para o isolamento dos setores que vacilam em torno de sua candidatura.
Caso Zema e Caiado confirmem nas urnas a baixa votação indicada pelas pesquisas, Bolsonaro poderá ampliar sua força na eleição para deputados e senadores. O prejuízo recairá justamente sobre os partidos de direita que tentam disputar seu eleitorado sem se apresentar como bolsonaristas.
A grande imprensa procura reduzir toda a eleição à disputa presidencial. Isso esconde uma parte decisiva do problema. Lula aparece na dianteira, mas sua vantagem não significa que o PT terá uma votação semelhante para a Câmara e o Senado.
A votação parlamentar do PT tende a ser muito inferior à de Lula. O próximo Congresso continuará dominado pela direita, e o bolsonarismo poderá permanecer como seu principal agrupamento. Hoje, já controla a maior bancada da Câmara. Depois da eleição, poderá ter uma bancada ainda maior.
A crise aberta dentro da direita não anuncia o fim do bolsonarismo. Ela pode entregar a Jair Bolsonaro justamente aquilo que seus adversários pretendiam tomar: o comando da direita e uma força ainda maior no Congresso.





