A OTAN encerra nesta quarta-feira (8) sua 36ª cúpula. O encontro reuniu, em Ancara, capital da Turquia, os chefes de Estado e de governo dos 32 países-membros da aliança militar imperialista.
Realizada no Complexo Presidencial de Beştepe, nos dias 7 e 8 de julho, a reunião foi a segunda cúpula da OTAN sediada pela Turquia. A primeira ocorreu em Istambul, em 2004. Desta vez, o encontro teve como eixo central a preparação de novas guerras, a ampliação dos orçamentos militares e a continuidade da ofensiva contra a Rússia, o Irã e os povos oprimidos.
O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, apresentou três prioridades para a cúpula: aumentar os investimentos em defesa, fortalecer a indústria militar transatlântica e ampliar o apoio à Ucrânia. Rutte vem promovendo a chamada “OTAN 3.0”, fórmula com a qual procura defender uma Europa mais armada, sem romper com o domínio dos EUA sobre a aliança.
A sessão principal ocorreu nesta quarta-feira, depois de um jantar dos 32 líderes na noite de terça-feira (7). Antes mesmo da reunião, os embaixadores dos países-membros já tinham aprovado o texto da chamada Declaração de Ancara, que reafirma o “compromisso inabalável” da aliança com o Artigo 5, a cláusula de defesa coletiva da OTAN.
O documento coloca a Rússia como uma “ameaça de longo prazo à segurança e estabilidade euro-atlântica”. Também afirma que “o Irã nunca poderá ter uma arma nuclear”. Na linguagem da OTAN, são duas ameaças políticas: uma contra a Rússia, para manter a guerra na Ucrânia, e outra contra o Irã, para justificar a agressão imperialista no Oriente Médio.
A declaração prevê 70 bilhões de euros, cerca de US$80 bilhões, em assistência militar à Ucrânia em 2026. Para 2027, o texto fala em “níveis pelo menos equivalentes”. Ou seja, a aliança pretende manter a guerra por tempo indeterminado, despejando dinheiro e armamento no regime de Vladimir Zelensqui.
A cúpula também avançou na meta de destinar 5% do PIB dos países-membros à defesa até 2035. Cinco países devem atingir já em 2026 a meta de 3,5% do PIB em gastos militares centrais. Em 2025, os aliados europeus e o Canadá elevaram seus investimentos em defesa em US$139 bilhões, em termos nominais.
Para demonstrar obediência ao presidente norte-americano, Donald Trump, a OTAN anunciou acordos de armamentos avaliados em pelo menos US$50 bilhões. Trump encerrou a cúpula falando em “tremenda unidade” e classificou o encontro como “muito bem-sucedido”. Ao mesmo tempo, atacou aliados por não contribuírem o suficiente e chamou a Espanha de “parceira terrível na OTAN”.
A guerra contra o Irã atravessou toda a reunião. A cúpula ocorreu pouco depois dos ataques norte-americanos contra alvos iranianos e em meio ao enfraquecimento do memorando de entendimento assinado entre os EUA e o Irã cerca de três semanas antes. Após nova troca de ataques entre forças dos dois países na madrugada de quarta-feira, Trump declarou que o cessar-fogo estava “acabado”.
O presidente norte-americano afirmou que não quer mais tratar com Teerã, embora tenha deixado aberta a continuidade das negociações conduzidas por Steve Witkoff e Jared Kushner. A declaração já pressionou o preço do petróleo. Trump também afirmou que países da OTAN enviarão caça-minas ao Estreito de Ormuz, uma ameaça direta ao Irã e a uma das rotas comerciais mais importantes do mundo.
Rutte se alinhou aos EUA e apoiou a ação militar contra o Irã. A posição mostra que a OTAN não é apenas uma aliança voltada à Europa. É o braço militar do imperialismo para intervir em todas as regiões estratégicas do planeta.
Na Ucrânia, Zelensqui pediu aos países da OTAN mais sistemas de defesa aérea após nova onda de ataques russos contra Kiev. Em reunião bilateral com Trump, o presidente ucraniano disse que teve um “bom encontro”, centrado no reforço da defesa aérea. Trump afirmou que a Ucrânia poderá produzir sistemas de mísseis Patriot dos EUA.
Mesmo entre os aliados, houve disputa sobre o tamanho do compromisso com Kiev. A Itália resistiu a mencionar 2027 na declaração final, temendo dificultar uma solução negociada. A Eslováquia, governada por Robert Fico, obteve garantia de que o documento não obriga nenhum membro a tomar decisões financeiras em favor da Ucrânia.
As contradições também apareceram em torno da Groenlândia. Trump voltou a defender que a ilha deve ser controlada pelos EUA, e não pelo governo da Dinamarca. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, respondeu em Ancara que espera respeito à soberania do país, afirmou que a Groenlândia “não está à venda” e disse que o reino está preparado para defender sua integridade territorial.
A Turquia, como anfitriã, procurou tirar proveito da cúpula. Recep Tayyip Erdogan classificou o encontro como uma “cúpula histórica” e disse que ele lançou a base de uma OTAN mais forte. Trump afirmou que ainda não decidiu sobre a venda de caças F-35 à Turquia, mas indicou posição favorável por causa do histórico de cooperação com Erdogan.
O presidente turco também declarou que os EUA levantaram em grande parte as sanções de defesa contra a Turquia e mencionou a possibilidade de cooperação industrial, inclusive na produção de fragatas, submarinos e corvetas. A cúpula serviu, assim, para abrir novas negociações entre os governos ligados à indústria bélica.
À margem do encontro, Trump reuniu-se com o presidente sírio Ahmed al-Xaraa. A Casa Branca notificou o Congresso sobre a decisão de retirar a Síria da lista de Estados patrocinadores do terrorismo, medida que exige revisão de 45 dias pelo Legislativo. O movimento faz parte do rearranjo norte-americano no Oriente Médio, depois da ofensiva contra o Irã e da tentativa de recompor aliados na região.
A OTAN decidiu ainda transformar sua missão de policiamento aéreo no Báltico, na Lituânia, Letônia e Estônia, em missão de defesa aérea. O novo mandato permite destruir “objetos que representem ameaça”. Ao mesmo tempo, os EUA anunciaram retirada de tropas da Europa e redução de forças alocadas aos planos de defesa da OTAN, incluindo porta-aviões, aeronaves de reabastecimento e caças, deslocando parte de sua atenção militar para o Indo-Pacífico.
A população turca recebeu a cúpula sob repressão. A Governadoria de Ancara proibiu manifestações em toda a província de 28 de junho a 10 de julho. Nas duas semanas anteriores, houve protestos contra a OTAN em Istambul, Ancara e Izmir, organizados por sindicatos e organizações contrárias ao aumento dos orçamentos militares e à política de expansão da aliança.
Segundo a Human Rights Watch, as operações repressivas levaram à detenção de mais de 200 pessoas, entre ativistas, advogados e jornalistas. O dado resume o caráter da reunião: enquanto os chefes imperialistas discutem mais armas, mais gastos militares e novas agressões, a população é impedida de protestar contra a máquina de guerra.




