Rui Costa Pimenta defendeu a cassação das concessões públicas da Globo. A declaração foi feita nessa terça-feira (7), em entrevista concedida a Leandro Fortes, no Canal do Galo Preto, no YouTube.
O presidente nacional do PCO e pré-candidato à Presidência tratou, durante a conversa, da EBC, das concessões de televisão, da interferência dos EUA na América Latina, das eleições, do identitarismo, do Irã e da Copa do Mundo.
Ao comentar a informação de que o chanceler Mauro Vieira alertou a Câmara dos Deputados sobre possíveis ações extraterritoriais dos EUA no Brasil, no caso de classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, Pimenta avaliou que o problema é grave, mas não deve ser tratado como uma ação iminente.
“É grave, mas, agora que você explicou dessa forma, eu imagino que ele esteja falando de maneira potencial. Quer dizer, a decisão do governo Trump abre a porta para uma eventual intervenção militar em solo brasileiro. Agora, não é que isso seja uma coisa iminente, é uma coisa que poderia acontecer. Em geral, o que a gente tem visto da intervenção militar norte-americana nos países aqui da América Latina é que elas são feitas com a concordância dos governos”, afirmou.
Pimenta também analisou a ida de Flávio Bolsonaro aos EUA. Segundo ele, o senador buscou se afastar politicamente de uma possível punição tarifária contra o Brasil. “Ele foi mesmo fazer uma declaração eleitoral, para o pessoal ver que ele não tem a ver com isso”, disse. Para o dirigente do PCO, a avaliação sobre quem será responsabilizado depende do setor social: entre empresários conservadores, a culpa pode ser atribuída ao governo Lula; em setores mais amplos da população, a responsabilidade pode recair sobre Flávio Bolsonaro.
O dirigente afirmou ainda que, com o fim da participação do Brasil na Copa, a política tende a ganhar maior importância, principalmente porque julho e o começo de agosto são meses de convenções partidárias. Ao mesmo tempo, destacou que a grande imprensa atuará para manipular a eleição.
“Eu acho que a grande imprensa está procurando manipular a eleição. Não está procurando distrair a atenção, não. Apesar de a gente já estar bem próximo da eleição, um pouco mais de três meses, muita coisa vai acontecer ainda”, disse.
Concessões públicas
Questionado sobre a decisão da EBC de retirar 1.800 conteúdos do ar, sob alegação de risco eleitoral para o governo Lula, Pimenta disse que a medida é “muito fora do comum”. Para ele, a legislação eleitoral proíbe campanha durante o período eleitoral, mas a retirada de material publicado desde 2023 não faz sentido aparente.
“Retirar do ar conteúdo antigo porque pode influenciar nas eleições não faz o menor sentido. Existe uma lei eleitoral. Você não poderia fazer campanha para o governo na EBC durante o período eleitoral, isso estaria absolutamente proibido. O que está no ar desde 2023 eu não vejo como poderia ser compreendido como violação da campanha eleitoral. Parece uma coisa meio absurda. Tem alguma outra coisa acontecendo aí, mas eu não sei o que seja”, afirmou.
A partir da discussão sobre a EBC, Pimenta defendeu a existência de um canal público, mas afirmou que o centro do problema está no monopólio privado da televisão. Segundo ele, é absurdo que uma família de capitalistas tenha direito a uma concessão pública nacional enquanto organizações de trabalhadores, entidades estudantis, sindicatos e associações profissionais não têm acesso a esse espaço.
“O que precisaria ser discutido é o fato de que você tem uma família como a Globo, que tem um canal de televisão só para eles, enquanto que 220 milhões de brasileiros não têm nada. É uma coisa absurda. Isso precisaria ser discutido. O problema da concessão pública: a quem o Estado poderia dar essa concessão? Eu defendo que a concessão pública seja distribuída dentro da sociedade.”
Pimenta lembrou a política de Hugo Chávez na Venezuela, que cassou a concessão de um canal de televisão, e afirmou que o problema brasileiro é ainda maior.
“No Brasil falaram que era censura, mas não, ele estava certo. Ele estava errado em não cassar o resto. Eu seria favorável a cassar todos e distribuir pela sociedade. Por que a família Marinho tem sangue azul, é da aristocracia, que tem direito a esse tipo de privilégio? Isso parece a França, parece um negócio hereditário. É absurdo.”
Para o presidente do PCO, o privilégio concedido à Globo não é uma questão de dinheiro, mas de poder político garantido pelo Estado.
“Você tem uma organização como a CUT, por exemplo, que tem mais de 10, 20 milhões de trabalhadores na sua base, e não tem nada na televisão. É uma família de capitalistas. Agora, veja bem: eles não compraram isso. Deram um departamento público para eles. Isso não é um problema de dinheiro, é um problema de privilégio, privilégio legal. Aí você tem associações médicas, associações profissionais, sindicatos, organizações estudantis, universidades, e não tem voz. E a família Marinho tem voz. Não faz sentido nenhum isso.”
Sobre os governos do PT, Pimenta afirmou que é uma ilusão imaginar que a Globo pode ser neutralizada por verbas de publicidade oficial. Segundo ele, a emissora não está ao lado do PT e já demonstrou, em 2016, que pode atuar diretamente pela derrubada de um governo.
“É uma ilusão. A Globo não está do lado do PT. Se a Globo amanhã decidir, como ela decidiu em 2016, que o governo do PT tem que ir embora, ele vai embora. Ele não tem como se defender. O PT é um partido que vive muito dessas ilusões. Eles acham que são sócios do poder no Brasil, mas não são. O pessoal deixa eles, por uma série de circunstâncias”, afirmou.
Ao tratar do crescimento da CazéTV durante a Copa, Pimenta disse que considera positivo qualquer golpe contra o monopólio da Globo, ainda que venha de uma grande empresa. “É melhor que tenha vários diabos pequenos do que um único diabo grande”, afirmou.
Identitarismo
Outro tema discutido foi o avanço do identitarismo e das leis que restringem a liberdade de expressão. Pimenta afirmou que esse movimento é uma política do grande capital para controlar a revolta social, especialmente depois de grandes mobilizações contra a violência policial nos EUA.
Segundo ele, a burguesia tomou a revolta legítima contra a opressão do negro e a transformou em instrumento de contenção política. Depois, essa política foi estendida para outros setores.
“Nos Estados Unidos, mas não só nos Estados Unidos, na Europa também, foi se criando uma situação limite. Existia uma repulsa muito grande à opressão do negro. Tivemos vários casos nos Estados Unidos, até que surgiu esse movimento Vidas Negras Importam. A polícia matava o pessoal, teve aquela revolta. A partir de acontecimentos como esse, a burguesia precisava ter uma política para controlar essa situação. Senão, eles iriam ser varridos. E elaboraram essa política. É uma política do grande capital”, disse.
Pimenta afirmou que o resultado não é progressista, mas um conformismo social. Para ele, a produção cultural recente nos EUA e na Europa passou a falsificar a história em nome de uma política identitária sem relação com a luta real dos explorados.
“Por que não fazem filmes a respeito do problema em si? Faz um filme, mostra a situação atual do negro nos bairros pobres dos Estados Unidos. Mas o burguês também não quer fazer. É meio perigoso de fazer, isso é capaz de gerar uma mobilização real de massas, de gente pobre. Então eles ficam com essas coisas. Para mim é muito desagradável. Eu olho isso e falo: isso aqui é uma idiotice, uma completa idiotice.”
O presidente do PCO também criticou a tentativa de transformar opiniões em crime. Para ele, o método de interdição do debate levará a um deslocamento para a direita e atingirá justamente as pessoas que dizem defender.
“Eu acho que esse problema do identitarismo é um tiro que vai sair pela culatra. Infelizmente, nós não vamos chegar a um equilíbrio. Vai ocorrer um deslocamento muito forte para a direita. Na hora em que os governos internacionais decidirem que não vão sustentar essa política identitária, vai ocorrer uma reviravolta em favor da direita. E as pessoas que supostamente estão sendo defendidas por essa política vão ser as vítimas”, afirmou.
Sobre a chamada lei da misoginia, Pimenta afirmou que se trata de uma das leis mais graves, justamente por seu caráter vago e subjetivo.
“A lei da misoginia é grave, porque talvez seja, de todas essas leis que foram feitas, a mais vaga e subjetiva de todas. Vamos entrar num terreno em que ninguém vai saber o que pode falar ou não pode falar sobre a mulher. A lei precisaria ser clara: você não pode falar isso. Agora, generalidades como discurso de ódio, isso é muito perigoso. E as mulheres são um grande contingente da sociedade, metade da sociedade. Vai dar muito problema”, disse.
Pimenta explicou ainda que o PCO reconhece uma luta própria das mulheres e dos negros, mas como luta democrática, distinta da luta operária, ainda que não se oponha a ela. “A mulher tem problemas específicos, que têm que ser tratados em separado. Não estão em contradição com a luta socialista”, afirmou.
Irã e “Israel”
Na parte internacional da entrevista, Pimenta comentou as exéquias do aiatolá Saied Ali Khamenei, realizadas no Irã. Para ele, a mobilização popular demonstrou a derrota política do ataque norte-americano e de “Israel” contra a República Islâmica.
“Esse funeral já dava para descontar que ia ser assim mesmo. Mas a realização dele, o fato concreto, é muito extraordinário. Mostra que o ataque norte-americano contra o Irã é um tiro que saiu totalmente pela culatra. Eles atiraram no que viram e acertaram no que não viram. É uma das maiores manifestações de massa que eu já vi em toda a minha vida, e eu estou com 69 anos. Uma das maiores de todas. É uma coisa realmente gigantesca.”
Pimenta afirmou que o funeral tem enorme importância política em toda a região e também no mundo. Segundo ele, a presença de delegações estrangeiras, inclusive da Arábia Saudita, mostra a força do Irã. O dirigente também destacou a surpresa de Trump diante da mobilização.
“Esse funeral do Khamenei é um ato político que tem grande importância em toda aquela região e no mundo inteiro também. Eu vi as delegações. Até a Arábia Saudita esteve presente. Eu achei espantoso. Na minha opinião, o que mostra melhor o que aconteceu foi a frase do Trump: ‘Meu Deus do céu, eu achava que esse homem era odiado pelo povo’”, disse.
Sobre Netaniahu, Pimenta afirmou que o primeiro-ministro de “Israel” está preso a uma política sem volta. Segundo ele, uma derrota de Netaniahu pode abrir uma crise profunda no Estado sionista.
“Eu acho que a estrutura política que dá sustentação ao governo Netaniahu, se ela for abaixo, nós vamos ter um princípio de dissolução do Estado de ‘Israel’. Não vai ser uma crise qualquer. Eu acho que eles se meteram tão profundamente numa determinada política que não têm como voltar atrás. A tentativa de voltar atrás pode resultar numa crise extraordinária”, afirmou.
Eleições
Pimenta também comentou a disputa presidencial. Segundo ele, Lula tem chances reais de vencer uma nova eleição contra Flávio Bolsonaro, caso esse seja o candidato da direita. O dirigente afirmou que Lula segue sendo uma grande autoridade política no País, mas advertiu que a eleição não é tranquila para o PT.
“As eleições que eu acompanhei do Lula, eu acho que ele sempre teve chance de ganhar, a começar em 1989. Eu tenho muitas críticas ao Lula, mas a gente tem que reconhecer as coisas que são objetivas. Ele é uma grande autoridade política no País. Então ele tem chance de ganhar, não tem dúvida, por pior que seja a situação. Se ele vai ganhar ou não, eu não sei, mas ele está no páreo”, afirmou.
O presidente do PCO disse que a disputa interna na direita pode favorecer Lula, mas ainda é preciso acompanhar como o conflito se desenvolverá. Segundo ele, existe uma direita atacando duramente o núcleo bolsonarista, inclusive Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro.
“O PT corre riscos. A eleição não é tranquila. Ele tem uma certa sorte, porque está acontecendo uma coisa que pode favorecer muito o Lula e pode acabar não favorecendo: o bolsonarismo, o núcleo fundamental do bolsonarismo, Bolsonaro, seus filhos e tal, está sofrendo um ataque bastante grande da direita. Existe uma direita que está batendo firme no bolsonarismo, tem uma verdadeira guerra aí”, disse.
Futebol brasileiro
Ao final da entrevista, Pimenta fez uma longa defesa do futebol brasileiro. O presidente do PCO criticou as análises que decretam a morte do futebol nacional a cada eliminação do Brasil em Copa do Mundo. Segundo ele, a derrota em uma competição de mata-mata não prova a inferioridade geral do futebol brasileiro.
“O fato de você perder a Copa do Mundo não diz nada sobre a qualidade geral do seu futebol. É uma coisa que acontece, há muitos fatores em jogo. A Copa não é como um jogo entre amigos. Tem muita pressão política, muita pressão econômica. São muitos fatores. Por exemplo, o Brasil jogou contra a Noruega e poderia tranquilamente ter ganho o jogo. Aí ganhava o jogo e ia para frente. A discussão era outra”, afirmou.
Pimenta comparou a situação atual a outras derrotas históricas, como 1950 e 1966, quando também se falou no fim do futebol brasileiro. Em 1970, quatro anos depois da eliminação na fase de grupos, o Brasil ganhou a Copa com uma das maiores seleções de todos os tempos.
“Essa sociologia que o pessoal faz sobre o futebol é fajuta. Futebol é um jogo complicado. Todo mundo que assiste futebol sabe. Não é que você ganhou, você é o melhor. Não é assim. O melhor perde. Eu acho que o Brasil é o país que tem o melhor futebol do mundo. Eu não concordo com a avaliação de que países como a França e a Espanha, que têm que importar jogador de outros países para poder funcionar, têm um futebol melhor do que o Brasil”, disse.
O dirigente também atacou a CBF, mas afirmou que ela sempre foi um obstáculo para a seleção, não uma novidade.
“A CBF, vamos falar a preto no branco, desde que existe sempre foi um obstáculo para a seleção brasileira. É uma organização corrupta, como todo futebol é corrupto, nacional e internacional. Não é só o Brasil que é corrupto. Esse Infantino, por exemplo, é um grande mafioso. Não é que antes todo mundo era honesto e ele é pior: ele é pior do que o anterior, que já era ruim”, afirmou.
Pimenta lembrou ainda o jogo entre Argentina e Egito, marcado por decisões escandalosas da arbitragem, e citou a interferência de Trump para anular a punição a um jogador dos EUA como prova de que a Copa não é um terreno neutro.
“A Copa não é um negócio neutro. Um jogo aqui em São Paulo não é neutro, está cheio de maracutaia. Imagina na Copa do Mundo? Tanto que a gente viu Trump anulando o cartão vermelho de um jogador da seleção dos Estados Unidos, que é a maior mostra de que o negócio é uma loucura total. Para ganhar a Copa, você tem que enfrentar todos esses obstáculos”, disse.
Pimenta concluiu defendendo que a esquerda leve o futebol a sério. Segundo ele, a seleção brasileira é uma paixão popular e não pode ser hostilizada por uma esquerda de classe média.
“A esquerda brasileira, além de ter esse tipo de sectarismo contra a seleção, não tem visão política, porque o futebol brasileiro é o esporte da paixão popular. Você tem que chegar junto. Você não pode hostilizar. Se você vai numa fábrica, você não vai falar para os trabalhadores que é contra a seleção brasileira. Não é popular”, afirmou.
Ao ser perguntado se torceria pelo Brasil na Copa feminina, Pimenta respondeu: “Eu torço para o Brasil até jogo de botão. Até esporte de que eu não gosto, eu torço pelo Brasil. A gente tem que lutar pelo Brasil. E, no futebol, eu torço pelo Brasil porque eu acho que é o melhor futebol que existe”.





