Henrique Áreas de Araujo

Militante do PCO, é membro do Comitê Central do partido. É coordenador do GARI (Grupo por Uma Arte Revolucionária e Independente) e vocalista da banda Revolução Permanente. Formado em Política pela Unicamp, participou do movimento estudantil. É trabalhador demitido político dos Correios e foi diretor da Fentect (Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios)

Coluna

Por que o Brasil perdeu?

Palpites sobre essa ou aquela tática, essa ou aquela escalação, esse ou aquele jogador não explicam nada

A primeira e mais importante resposta é a que deveria ser dada por qualquer pessoa que acompanha o futebol: o Brasil perdeu porque perdeu, o Brasil perdeu porque não fez gols e a Noruega fez. O Brasil perdeu porque nem sempre o melhor ganha. É até certo ponto improdutivo ficar procurando razões e mais razões para entender a derrota. E eu explico: as mesmas razões que podem ser apontadas para a derrota poderiam muito bem ser apontadas para uma vitória. O jogo anterior contra o Japão revela bem isso e virou até motivo de piada depois do apito final e o alívio da vitória. Quantos brasileiros não chiaram quando Ancelotti decidiu manter Casemiro e colocar Martinelli? Muitos! Eu mesmo fiz careta, virei a cara, amaldiçoei. E lá estava Casemiro para empatar e Martinelli para virar o jogo nos acréscimos.

Se a Seleção tivesse tropeçado diante do Japão, minhas caretas e as de milhões de brasileiros estariam justificadas, ou pelo menos, estariam justificadas na nossa mente de pessoas que acham que podem resolver o resultado de um jogo de futebol apenas porque tem uma “opinião” sobre ele. Agora, façamos um exercício inverso. Digamos que o Brasil tivesse vencido a Noruega, que Bruno Guimarães tivesse convertido aquele maldito pênalti, que Endrick tivesse feito aquele maldito gol. E reforço: esse não é um exercício complexo de imaginação porque é óbvio que o Brasil poderia muito bem ter ganhado a partida. Se o Brasil tivesse se classificado todos esses geniais palpites simplesmente iriam desaparecer.

Quem acompanha futebol sabe do que estou falando. Quem acompanha futebol sabe que um time inferior pode ganhar de um time superior e há casos inclusive de times inferiores que se superam e são campeões. Há muitos fatores que operam no campo. O que vale, na hora H não é nenhuma ideia de jogo preconcebida, nada disso. O jogo é vencido ali no campo, no 11 contra 11.

Não estou afirmando, com isso, que não haja fatores concretos que ocorrem dentro de campo ou escolhas táticas que podem explicar esse ou aquele resultado. Uma marcação errada, um vacilo, um posicionamento errado, um jogador que não está bem naquele dia, fulano batendo um pênalti em vez de cicrano. A tática de Ancelotti de deixar a bola nos pés dos Noruegueses pode ser criticada à vontade, eu mesmo não gosto da ideia, mas poderia muito bem ter dado certo e hoje talvez estivessemos chamando de genial. O que quero dizer é que nada disso é especial no jogo do Brasil, é um problema de qualquer jogo de futebol. No entanto, como somos brasileiros e corretamente achamos que temos a obrigação de ganhar sempre nos concentramos em encontrar explicação especiais para a derrota, esquecendo que uma das graças (e a desgraça) do futebol é que nem sempre o melhor time ganha e esquecendo que a Copa do Mundo é um campeonato injusto e que também está aí a graça e a desgraça da Copa: bobeou, dançou, não há segunda chance.

Falo tudo isso não é para espezinhar os palpiteiros. Sem os palpiteiros o futebol não teria a mesma graça. Mas aqui precisamos explicar que o palpite do seu Zé não ia fazer o Brasil ganhar o jogo. Porém, longe de mim criticar os palpiteiros do povo. O que é espantoso são os palpiteiros que ganham muito dinheiro na imprensa capitalista. Os chamados cronistas esportivos são pessoas iluminadas do nosso Brasil varonil.

Estava eu conversando com um companheiro que resumiu bem o caráter da crônica esportiva brasileira (que me desculpem as raras excessões). Funciona assim: tudo no futebol brasileiro é ruim: jogadores, cartolas, CBF, Seleção, técnicos, campeonatos… a única coisa boa no futebol brasileiro são os cronistas. Esses são feras, encontram respostas e soluções para tudo, não sei porque a CBF não contrata um pool desses iluminados para treinar a Seleção.

Outra coisa lastimável é a esquerda pequeno-burguesa nacional. Para ela, se os jogadores tivessem votado no PT ou lido Karl Marx tudo seria diferente. São os piores palpiteiros, são os palpiteiros que no fundo (ou nem tão no fundo assim) estão achando bom o Brasil ter perdido. Bom mesmo é quando temos a mistura de esquerdismo liberal com cronismo esportivo de imprensa burguesa. O time do UOL/Folha de S. Paulo são os mais entusiasmados defensores dos adversários do Brasil e estão sempre prontos a esculhambar a Seleção. São do tipo que pediu, como Casagrande, após a Copa de 2022 um técnico estrangeiro para o Brasil, para esculhambar o futebol brasileiro, e agora critica Ancelotti. Ou seja, o esporte desses cronistas é esculhambar, quanto pior, melhor.

Mas existiria alguma explicação para a derrota do Brasil. Na minha opinião existe um fator importante, muito mais importante do que qualquer erro ou acerto tático, de escalação ou de desempenho individual. O jogador brasileiro está submetido a uma tal pressão que não consegue desempenhar tudo o que sabe. A cara de Bruno Guimarães na hora do pênalti era significativa, ainda mais se comparada com a de Neymar, que com sua experiência nitidamente não se intimidou diante da pressão. O fator subjetivo é um problema importante na Seleção. Os jogadores, e os cronistas genais têm grande culpa nisso, ficam desestabilizados. Para quem tem dúvida, basta ver o quanto Haaland foi elogiado pela nossa própria imprensa na semana que antecedeu o jogo enquanto nossos jogadores foram criticados. Haaland não é um jogador melhor do que a maioria dos jogadores brasileiros, mas foi tratado como um gênio do futebol. Dá para imaginar como isso repercute na cabeça de nossos jogadores e podemos somar a isso muitos outros fatores que servem para desestabilizar.

O problema subjetivo é importante e os inimigos do futebol brasileiro sabem disso, por isso se esforçar para avacalhar nossos jogadores. Isso não explica tudo, mas é um ponto importante, muito mais do que qualquer palpite que possamos dar. Muito mais do que as fórmulas genais dos cronistas esportivos, que do seu gabinete falam e escrevem o que bem entendem; o papel e o microfone aceitam qualquer coisa.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a deste Diário

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