Está na moda falar mal das bets. Segundo boa parte dos “bem-pensantes” e a propaganda oficial do governo, elas seriam a grande responsável pelo endividamento da população. Não bastasse isso, setores até mesmo da direita passaram a afirmar que as apostas estão drenando o dinheiro da economia nacional e sufocando o comércio e o setor de serviços. O problema é que essa narrativa não resiste a uma análise minimamente séria dos dados. As bets não são a principal causa do endividamento das famílias brasileiras, e o volume de recursos efetivamente retirado da economia por elas está muito longe de justificar o pânico moral criado em torno do tema.
Comecemos pelos números. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio, o percentual de famílias endividadas cresce de forma consistente desde pelo menos 2015, quando as bets sequer existiam no Brasil. Naquele ano, cerca de 62% das famílias estavam endividadas. Em 2025, esse percentual chegou a 79%.
As apostas esportivas foram legalizadas apenas em 2018. As grandes empresas internacionais começaram a operar no país em 2019, mas sua popularização em massa ocorreu somente a partir de 2022, impulsionada pelo patrocínio de clubes de futebol e pela avalanche de propagandas na televisão e nas redes sociais. Entretanto, antes mesmo dessa explosão, em 2021, o percentual de famílias endividadas já havia alcançado 70%. O endividamento, portanto, já era um problema grave muito antes das bets se tornarem um fenômeno de massa.
Diante desses dados, costuma surgir imediatamente o argumento emocional: pessoas que perderam o salário em apostas, desenvolveram vício ou destruíram suas finanças. Evidentemente esses casos existem e merecem atenção. Mas a existência de indivíduos viciados nunca foi critério suficiente para proibir integralmente uma atividade. Há dependentes de álcool, e ninguém propõe a proibição das bebidas alcoólicas. Há dependentes de nicotina, e o cigarro continua legalizado. Defender a proibição das bets com base apenas na existência de casos de vício é um argumento frágil e incoerente. Levado às últimas consequências, ele justificaria a proibição de inúmeras outras atividades e produtos igualmente capazes de gerar dependência.
Também não procede a afirmação de que as bets estariam retirando uma parcela expressiva do dinheiro da economia brasileira. Segundo dados do Banco Central, cerca de R$ 360 bilhões foram apostados em 2025. À primeira vista, o número impressiona. Mas, colocado em perspectiva, perde boa parte do impacto. A massa salarial brasileira no mesmo ano foi de aproximadamente R$ 4,34 trilhões. O volume apostado corresponde, portanto, a cerca de 8,3% desse total. É difícil sustentar seriamente que esse percentual explique, por si só, o elevado endividamento das famílias ou a desaceleração do consumo.
O verdadeiro problema está em outro lugar: o custo do crédito no Brasil. Em 2025, as compras realizadas com cartão de crédito movimentaram aproximadamente R$ 3,1 trilhões, o equivalente a cerca de 71% da massa salarial anual. Mais importante que isso, o crédito no país opera sob taxas de juros absolutamente exorbitantes. Enquanto as apostas corresponderam a 8,3% da massa salarial, os juros do cartão de crédito alcançaram cerca de 438% ao ano, e o crédito pessoal não consignado girou em torno de 117% ao ano. Nesse cenário, qualquer dívida relativamente pequena pode transformar-se rapidamente em uma bola de neve.
Os números deixam claro onde está o verdadeiro peso sobre o orçamento das famílias. As bets podem representar um problema para determinados indivíduos e, como qualquer atividade potencialmente danosa, devem ser submetidas a uma regulamentação adequada. Mas apresentá-las como a principal causa do endividamento nacional ou da redução do consumo é uma enorme distorção dos fatos.
A insistência quase obsessiva em transformar as bets no grande vilão da economia acaba funcionando como uma conveniente cortina de fumaça. Enquanto a opinião pública é mobilizada para condenar as apostas, o debate sobre o verdadeiro problema — o sistema de crédito brasileiro e uma política monetária que sustenta taxas de juros entre as mais altas do mundo — permanece em segundo plano. No fim das contas, é mais fácil apontar o dedo para um novo fenômeno social do que discutir um modelo financeiro que há décadas transfere renda das famílias para o sistema bancário. Concentrar o debate nas bets pode render manchetes e indignação moral; enfrentar o problema dos juros exigiria discutir interesses muito mais poderosos.




