Oriente Médio

O fim da ocupação saudita do Iêmen?

Ansar Alá desafia bloqueio saudita com primeiro voo iraniano em 11 anos

Um avião iraniano pousou em Saná. O voo da Mahan Air chegou à capital do Iêmen na madrugada de 3 de julho, levando mais de 200 passageiros iemenitas que estavam retidos no exterior, entre doentes, feridos e pessoas impedidas de voltar ao país pelo bloqueio imposto pela Arábia Saudita.

Foi o primeiro voo iraniano a chegar a Saná em 11 anos. A operação rompeu, ainda que de maneira limitada, o bloqueio aéreo saudita-norte-americano contra o Iêmen e abriu uma ligação direta entre o governo iemenita dirigido pelo Ansar Alá e a República Islâmica do Irã.

Desde a trégua de abril de 2022, o aeroporto de Saná segue sob severas restrições. Poucas rotas foram autorizadas, em especial para a Jordânia, sempre sob controle externo. A chegada de uma aeronave iraniana mostra que o governo iemenita procura ampliar sua margem de ação e reduzir o controle saudita sobre o espaço aéreo do país.

O significado político do voo ficou ainda mais claro na saída da aeronave. Ao deixar Saná, o avião levou uma delegação oficial iemenita a Teerã para participar do funeral do aiatolá Saied Ali Khamenei. O que começou como voo humanitário se transformou em uma demonstração diplomática pública da aproximação entre o Iêmen e o Irã.

As Forças Armadas Iemenitas afirmaram que aeronaves sauditas entraram no espaço aéreo do Iêmen para impedir o pouso do avião civil iraniano. Segundo o comunicado, os caças foram obrigados a recuar diante das defesas aéreas iemenitas.

O comando militar iemenita advertiu que novas tentativas de impedir a reabertura do aeroporto poderão ser respondidas com ataques contra aeroportos e instalações estratégicas no território saudita. A mensagem foi direta: o bloqueio não será aceito indefinidamente.

A Arábia Saudita reagiu imediatamente. O porta-voz da coalizão saudita, major-general Turki al-Maliki, atacou as declarações do Ansar Alá e tentou apresentar o voo como violação da soberania e do direito internacional. O chamado Conselho de Liderança Presidencial, setor iemenita apoiado pelos sauditas, também condenou a chegada da aeronave.

O governo iemenita de Saná recusou a posição saudita. O Ministério das Relações Exteriores afirmou que a reabertura do aeroporto é um direito soberano do Iêmen e não depende de autorização da Arábia Saudita, dos Estados Unidos ou de qualquer outra potência estrangeira.

Para as autoridades iemenitas, a Arábia Saudita é a responsável pela guerra, pelo bloqueio e pela sabotagem das negociações. Impedir o funcionamento do aeroporto significa manter milhões de iemenitas cercados, sem acesso normal a tratamento médico, viagens e abastecimento.

O Irã sinalizou apoio político à iniciativa. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, reuniu-se em Teerã com Jalal al-Ruwaishan, vice-primeiro-ministro do governo iemenita, e afirmou que a República Islâmica está disposta a mobilizar sua capacidade diplomática em defesa do Iêmen.

A operação acontece em meio a uma situação contraditória. Irã e Arábia Saudita reabriram canais diplomáticos nos últimos anos, mas a guerra contra o Iêmen continua sem solução. O voo mostra que o governo de Saná não pretende esperar indefinidamente por uma concessão saudita.

O Iêmen vive uma situação definida pelo próprio governo de Saná como “nem guerra, nem paz”. A trégua de 2022 reduziu o ritmo da guerra aberta, mas não resolveu os principais problemas: bloqueio, pagamento de salários, reabertura de portos e aeroportos, prisioneiros e presença de forças estrangeiras.

Ali al-Zuhri, diplomata iemenita, afirma que o processo de acordo está paralisado porque a Arábia Saudita desacelerou a implementação dos compromissos assumidos sob pressão dos Estados Unidos. A pressão aumentou depois que o governo de Saná assumiu posição ativa em defesa da resistência palestina em Gaza.

Segundo al-Zuhri, as autoridades iemenitas tentam reativar entendimentos já negociados, enquanto a Arábia Saudita utiliza salários, acesso humanitário e divisões internas como instrumentos de pressão contra o país.

O líder do Ansar Alá, Abdul Malik, tem defendido a mobilização oficial e popular contra a agressão, a ocupação, o controle dos recursos naturais e o cerco imposto ao povo iemenita. Para o governo de Saná, a manutenção da situação atual apenas adia uma nova rodada de combates.

A mesma posição foi levada às Nações Unidas. Em reuniões com o enviado da ONU, representantes do governo iemenita afirmaram que a situação não pode continuar sem prazo. A prioridade é avançar nos problemas humanitários mais urgentes: reabertura do aeroporto, pagamento de salários e entrada de bens essenciais.

Mohammed al-Farah, do bureau político do Ansar Alá, afirmou que os atrasos sauditas tornaram inviável uma contenção prolongada. Para ele, qualquer nova violação do espaço aéreo iemenita ou tentativa de manter o bloqueio poderá ampliar os alvos militares.

Entre os alvos citados estão bases, aeroportos, portos, instalações econômicas e unidades da Aramco. As Forças Armadas Iemenitas também indicam que podem aumentar a pressão naval sobre rotas no Mar Vermelho, no Mar Arábico e no Oceano Índico.

Os mísseis e drones do Ansar Alá são apresentados pelo governo iemenita como instrumentos de defesa nacional. A mensagem é que, se a Arábia Saudita continuar bloqueando o país, o Iêmen poderá responder em várias frentes.

A posição iemenita também atinge diretamente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Farah acusa os dois países de obstruir o processo de paz ao tentar condicionar a trégua à suspensão do apoio de Saná a Gaza. Para o Ansar Alá, isso é chantagem política contra a independência iemenita.

A tensão também voltou ao terreno. Hodeidah, principal cidade portuária do Iêmen, reapareceu como ponto sensível da guerra. No distrito de Hays, ao menos 14 combatentes das forças apoiadas pela Arábia Saudita foram mortos após uma ofensiva do Ansar Alá iniciada no fim de uma sexta-feira e prolongada até a madrugada de sábado.

A ofensiva começou com disparos de franco-atiradores e avançou com o uso de drones e morteiros. Setores ligados ao governo apoiado pela Arábia Saudita afirmaram que recuperaram algumas posições após contra-ataques, mas os confrontos indicam que frentes militares antes paralisadas podem voltar à atividade.

Também há sinais de aumento da prontidão entre formações armadas apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos e pela Arábia Saudita, como as Brigadas dos Gigantes, o Escudo da Pátria e unidades posicionadas em Abyan, Lahj, Al-Dhalea e Taiz.

As negociações entre o Iêmen e a Arábia Saudita se arrastam desde 2015. Houve rodadas com participação da ONU e de mediadores regionais em Mascate, Genebra, Kuwait e Estocolmo. Depois, os contatos passaram a ocorrer de forma mais direta entre representantes do governo iemenita de Saná e autoridades sauditas, principalmente com mediação de Omã e da ONU.

Alguns avanços ocorreram, como trocas de prisioneiros e cessar-fogo temporário. Mas os pontos centrais continuam travados. O governo de Saná exige o fim do bloqueio, o pagamento de salários e a reabertura plena de portos e aeroportos. A coalizão saudita tenta condicionar esses pontos a medidas de segurança e a um acordo político mais amplo.

O roteiro de paz discutido prevê três etapas. A primeira inclui cessar-fogo, aberturas humanitárias e pagamento de salários com base nos registros de 2014. A segunda trata da continuidade da trégua, retirada de forças estrangeiras e retomada da produção de energia sob supervisão conjunta. A terceira prevê governo de transição, diálogo nacional e reconstrução.

A primeira etapa travou em temas como prisioneiros, salários e levantamento integral das restrições. As etapas seguintes não avançaram. Depois da Operação Dilúvio de Al-Aqsa, em outubro de 2023, e da escalada no Mar Vermelho, a posição do Iêmen em defesa de Gaza passou a pesar ainda mais nas negociações.

Para o governo iemenita, a Arábia Saudita usa a negociação para ganhar tempo. Cada atraso em temas humanitários aumenta a pressão interna e aproxima a retomada dos combates. Ao mesmo tempo, a tentativa saudita de explorar divisões tribais e políticas dentro do Iêmen não produziu o resultado esperado.

Abdullah Ali Sabri, alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores do Iêmen, avalia que a Ásia Ocidental passa por uma mudança profunda. Antigos arranjos de segurança já não funcionam como antes. O Iêmen, antes tratado como uma arena secundária, passou a ocupar posição decisiva por sua presença no Mar Vermelho e no estreito de Bab al-Mandab.

É por isso que o pouso da aeronave iraniana em Saná foi mais que uma operação humanitária. O voo rompeu o bloqueio na prática, testou os limites da trégua e mostrou que o governo iemenita está disposto a forçar avanços em temas paralisados. A Arábia Saudita, por sua vez, tenta impedir qualquer movimento que reduza seu controle sobre o país.

O conflito segue sem solução. Mas o voo de 3 de julho mostrou que o bloqueio saudita-norte-americano já não pode ser tratado como um fato consumado.

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