55ª Universidade de Férias

Terceira aula: o Irã como objeto de disputa entre Rússia e Grã-Bretanha

Disputa, conhecida como “Grande Jogo” reduziu o território iraniano e retirou do país sua autonomia real

A terceira aula do curso A história do Irã e da República Islâmica, ministrado por Rui Costa Pimenta na 55ª Universidade de Férias do Partido da Causa Operária (PCO), tratou do processo de dominação imperialista sobre o Irã entre o século XIX e a primeira metade do século XX.

A atividade, organizada em Sorocaba (SP) pelo PCO e pela Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), retomou a exposição histórica iniciada nas aulas anteriores. Pimenta explicou como o antigo império persa chegou ao século XX como um país formalmente independente, mas submetido aos interesses britânicos, russos e, depois, norte-americanos.

Segundo o presidente nacional do PCO, a partir do século XVIII, o Irã passou a ser governado pela dinastia Cajar, de origem turca, expressão de um regime atrasado, dominado pela aristocracia agrária. Ao mesmo tempo, o avanço do capitalismo na Europa Ocidental e a formação de grandes impérios colocaram o país sob pressão direta.

“O século XIX para o Irã é um século em que o país fica totalmente dominado. Perde território. A influência dos russos e dos ingleses sobre o regime político é muito grande. É um país formalmente independente, mas na realidade é uma colônia. É uma colônia que é disputada pelos russos e pelos ingleses”, explicou Pimenta.

A expansão britânica na Índia e o crescimento do Império Russo transformaram o Irã em uma zona de disputa. Os russos passaram a exercer influência sobre o norte do país, enquanto os ingleses se impuseram no sul e no Golfo Pérsico. Essa disputa, conhecida como “Grande Jogo”, reduziu o território iraniano e retirou do país sua autonomia real.

Pimenta destacou que o Irã chegou ao século XX em condições muito atrasadas. O país tinha pouca indústria, população majoritariamente camponesa, analfabetismo próximo de 90% e uma estrutura estatal rudimentar. A monarquia possuía corte, forças armadas e arrecadação de impostos, mas não um Estado moderno.

Esse atraso entrou em choque com o contato crescente de intelectuais iranianos com a Europa. Ao estudarem fora do país, esses setores passaram a defender a adoção de uma Constituição, de um Parlamento e de instituições semelhantes às existentes nos países europeus.

Ao mesmo tempo, a população começou a reagir contra o saque estrangeiro. O xá concedia monopólios e privilégios a capitalistas europeus por valores irrisórios, sem nenhum benefício ao povo iraniano. Um dos episódios mais importantes foi a revolta do tabaco, no final do século XIX, quando o monopólio da produção e do comércio do produto foi entregue a um britânico.

A medida provocou uma revolta nacional. Um líder religioso publicou uma fátua proibindo o consumo de tabaco, transformando o boicote em protesto político. Mercadores, religiosos e setores populares participaram da mobilização, obrigando a monarquia a recuar.

A aula dedicou uma parte importante à Revolução Constitucionalista de 1906. Pimenta explicou que o movimento foi influenciado pela Revolução Russa de 1905. A Rússia era vizinha do Irã e, ao mesmo tempo, o principal apoio externo da monarquia Cajar. O enfraquecimento do czarismo abalou diretamente o regime iraniano.

No Irã, o movimento começou com manifestações por uma Constituição e um Parlamento. Em um primeiro momento, os revolucionários não reivindicavam o fim da monarquia, mas a limitação do poder do xá. Diante da repressão, milhares de pessoas recorreram ao bast, uma espécie de pedido de refúgio em locais religiosos ou políticos.

Depois de serem desalojados de uma mesquita, os manifestantes ocuparam a embaixada britânica, acreditando que os ingleses apoiariam a reivindicação constitucional. Segundo Pimenta, tratava-se de uma ilusão. Os britânicos permitiram a ocupação, mas não tinham interesse real em uma revolução democrática no Irã.

Sob pressão, o xá aceitou a criação de um Parlamento e de uma Constituição. A concessão, no entanto, foi uma manobra. Quando tentou recuperar seus poderes, a crise deu lugar a uma insurreição armada. Setores de várias regiões se mobilizaram, o povo se armou e a capital foi ocupada pelos revolucionários. O xá foi obrigado a renunciar.

A revolução acabou derrotada com a intervenção russa e a recomposição do domínio da oligarquia agrária. Ainda assim, ela marcou uma mudança importante na vida política iraniana. Para Pimenta, a monarquia saiu profundamente enfraquecida desse processo.

O dirigente também destacou o papel dos bazares e do clero xiita. A iniciativa da revolução partiu sobretudo da intelectualidade e de setores urbanos ligados ao comércio. O clero, especialmente o baixo e o médio, acompanhou o movimento e desempenhou papel progressista em vários momentos.

“O clero xiita, uma parte considerável dele, tinha posições muito progressistas, já nessa época. O clero também, o setor médio do clero e o setor alto, era muito ligado ao bazar, os comerciantes”, afirmou.

Com a Primeira Guerra Mundial, o Irã declarou neutralidade, mas foi ocupado por forças estrangeiras. Ingleses e russos dividiram o país em zonas de influência. A Revolução Russa de 1917 alterou essa situação, pois o governo bolchevique anulou dívidas iranianas com a Rússia e retirou tropas de áreas ocupadas pelo antigo Império Russo.

Pimenta criticou as análises que dão pouca importância a esse acontecimento. Para ele, não se pode explicar a política iraniana sem considerar a influência da maior revolução da época em um país vizinho.

Terminada a guerra, o imperialismo britânico organizou uma nova intervenção. Em 1921, Reza Cã, comandante da brigada de cossacos, fechou o Parlamento e tomou o controle do governo. Em 1925, destituiu o último xá Cajar e coroou-se xá, fundando a dinastia Palavi.

Pimenta caracterizou o golpe como uma operação britânica destinada a impedir que o Irã entrasse novamente em uma situação revolucionária. Reza Palavi fortaleceu o Exército, reprimiu partidos de oposição, esmagou movimentos regionais e construiu um regime voltado ao controle interno do país.

“O governo do cidadão é um governo proimperialista. Eu diria, eu não vi essa caracterização em lugar nenhum, mas eu diria que isso é um governo semifascista, como aconteceu no Brasil do Estado Novo”, afirmou Pimenta.

Segundo ele, a modernização promovida por Reza Palavi não foi expressão de independência nacional. A reorganização do Estado, a construção de estradas, ferrovias e escolas e o fortalecimento das Forças Armadas eram medidas contrarrevolucionárias, destinadas a conter as contradições abertas pela Revolução Constitucionalista.

Um dos pontos centrais da aula foi a crítica à caracterização de Reza Palavi como nacionalista. Pimenta explicou que parte dos historiadores se confunde porque o xá reorganizou o Estado, tentou unificar o território e recorreu a uma propaganda de exaltação do antigo Império Persa.

Reza Palavi recuperou símbolos de Ciro, Dário e dos antigos impérios, adotou uma ideologia baseada no arianismo e determinou que o país fosse chamado internacionalmente de Irã, e não Pérsia. Para Pimenta, essa política tinha semelhança com o uso que Mussolini fazia do Império Romano.

A prova decisiva da submissão de Reza Palavi ao imperialismo, segundo Pimenta, está no petróleo. Em 1908, a exploração do petróleo iraniano foi entregue a interesses britânicos por 60 anos, em troca de uma participação pequena e de 20 mil libras. Quando Reza Palavi chegou ao poder, a importância do petróleo já era evidente. Ainda assim, ele manteve a concessão.

“Isso aí não é nenhum acordo. É uma operação de bandidagem dos ingleses. O que ele faz? Nada. Quer dizer, não é nacionalista”, afirmou Pimenta. “Ele simplesmente era o protetor dos interesses britânicos no Irã.”

O fato de os próprios britânicos terem retirado Reza Palavi do poder, em 1941, não altera essa caracterização. Durante a Segunda Guerra Mundial, ingleses e russos ocuparam o Irã e forçaram o xá a abdicar em favor do filho, Mohammad Reza Palavi. O Exército construído por ele não resistiu à ocupação, demonstrando que servia para reprimir o povo, não para defender o país.

Na sequência, Pimenta tratou do período posterior à Segunda Guerra Mundial. Com a queda de Reza Palavi, abriu-se uma crise política no país. Antigos militantes comunistas organizaram o Tudé, partido de massas que levantou reivindicações democráticas e nacionalistas, entre elas a nacionalização do petróleo.

A política da União Soviética sob José Stalin, no entanto, desmoralizou o partido. O governo soviético pressionou o Irã por concessões petrolíferas e estimulou movimentos separatistas no norte do país, enfraquecendo o Tudé diante das massas. Com isso, a direção do movimento nacionalista passou para a Frente Nacional, liderada por Mohammad Mossadeq.

Mossadeq era um membro da elite iraniana, não um revolucionário socialista. Mesmo assim, foi levado pela mobilização nacional a adotar uma medida radical: a nacionalização do petróleo. A decisão atingiu diretamente os interesses britânicos.

O imperialismo reagiu com sabotagem, bloqueio comercial e pressão diplomática. Em 1953, o governo de Mossadeq foi derrubado por uma operação conjunta do MI6 britânico e da CIA norte-americana, conhecida como Operação Ajax.

“A grande falha do Mossadeq é que ele não chama as massas se rebelarem abertamente. Ele chama o pessoal à rua, mas é um instrumento de pressão sobre as instituições do regime político. Ele não chama, por exemplo, o pessoal se armar enfrentar o golpe de Estado, nada”, disse Pimenta.

Segundo o presidente do PCO, Mossadeq tinha ilusões nas instituições e nas Forças Armadas. O golpe restaurou o poder do xá e anulou a nacionalização do petróleo. Para Pimenta, esse acontecimento foi um dos grandes traumas da história iraniana, mas não o único. Ele se somou ao golpe de Reza Palavi, à ocupação estrangeira, à repressão e à pilhagem do petróleo.

Pimenta também criticou a tese de que a Revolução Islâmica de 1979 foi sequestrada pelo clero. Para ele, essa interpretação serve à oposição direitista e a setores da esquerda que não compreendem a história real do Irã.

O clero xiita já participava das grandes mobilizações nacionais, inclusive da luta pelo petróleo. Setores do baixo clero estavam ligados às massas pobres e se radicalizaram diante da opressão imperialista e da ditadura do xá. A Frente Nacional, por outro lado, mostrou-se incapaz de enfrentar o imperialismo até o fim.

“O Khomeini chega no Irã como líder absoluto da revolução. Não é que ele teve que brigar lá para tirar o poder de outra pessoa. Quer dizer, a revolução foi realmente uma revolução islâmica, com uma participação importante do clero”, afirmou.

Durante as perguntas, Pimenta também comentou o assassinato do aiatolá Saied Ali Khamenei, Líder da Revolução Islâmica, pelos Estados Unidos e por “Israel”. Segundo ele, o imperialismo cometeu um erro grave ao acreditar em sua própria propaganda contra o regime iraniano. A mobilização popular em torno do funeral de Khamenei mostrou a ligação profunda entre a República Islâmica e a população.

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