Teve início, nesta segunda-feira (29), o curso A história do Irã e da República Islâmica, ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República. A atividade integra a 55ª Universidade de Férias do PCO e da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), realizada em Sorocaba (SP).
As aulas estavam previstas para seguir nos dias 1º e 2 de julho, mas foram suspensas por causa de uma laringite de Pimenta. O curso é retomado nesta sexta-feira (3), dentro da programação da Universidade de Férias.
Na abertura do curso, Pimenta afirmou que o estudo do Irã tem importância imediata diante da situação internacional. A República Islâmica está no centro da guerra movida pelos Estados Unidos e por “Israel” contra os povos do Oriente Médio. Por isso, segundo ele, compreender a história iraniana é uma tarefa política atual.
“O tema está em uma atualidade muito grande, porque nós temos ali a guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Então, a princípio, do ponto de vista da atualidade, o curso já seria autoexplicativo. Mas não é bem assim”, disse.
Pimenta afirmou que o Irã é um dos países mais atingidos pela falsificação organizada pelo imperialismo. Segundo ele, a campanha contra a República Islâmica procura apresentar a Revolução de 1979 como um desastre e o regime fundado pela mobilização popular como algo pior do que a ditadura do xá Reza Pahlavi.
“Se você pegar qualquer livro sobre a história da República Islâmica, você vai acabar se convencendo de que a Revolução de 1979 foi um desastre e que o que existe no Irã hoje é um regime político e uma sociedade monstruosos”, afirmou.
Por esse motivo, o curso não começou diretamente pela Revolução Islâmica, mas pela formação histórica do País. Pimenta destacou que o Irã não pode ser compreendido como uma criação recente, nem por meio dos esquemas superficiais utilizados pela propaganda imperialista. Trata-se de uma civilização milenar, com cerca de cinco mil anos de desenvolvimento histórico.
“Nós temos que levar em consideração que, na região que hoje é o Irã, nós temos pelo menos cinco mil anos de civilização. É uma coisa que, para nós, que somos um país de poucos séculos, é fora do normal”, explicou.
Na primeira aula, Pimenta tratou da complexidade do País, marcado por diferentes povos, dinastias, capitais e formas políticas. Segundo ele, o Irã teve 32 capitais e segue sendo um país multinacional, com várias minorias nacionais e étnicas.
O presidente do PCO também destacou a longa tradição de revoltas populares no País. Segundo ele, dezenas de monarcas iranianos foram derrubados por mobilizações internas, o que mostra a importância da ação popular na história persa.
“Dos monarcas, dos xás iranianos, 40 deles foram derrubados por revoltas populares. Quer dizer, o país tem uma larga tradição de mobilização, de insurgência, de luta”, disse.
Pimenta também apresentou a região em que se desenvolveu a história iraniana, abrangendo a Ásia Ocidental, o Golfo Pérsico, o Iraque, a Turquia, o Afeganistão, o Paquistão e os demais países próximos. Ao tratar do mapa da região, criticou as divisões artificiais impostas pelo imperialismo britânico, principalmente no Golfo Pérsico, para controlar politicamente e militarmente o petróleo.
Segundo Pimenta, vários pequenos Estados ricos em petróleo foram separados de maneira artificial para impedir a formação de uma grande nação árabe ou de Estados mais fortes na região.
“Os ingleses desenharam esse mapa. Todos esses países são muito ricos em petróleo. Então, ao invés de deixar o petróleo na mão, por exemplo, da Arábia Saudita ou de um país árabe unificado, dividiu-se em vários países com o objetivo de controlar política, militar e economicamente”, afirmou.
Ainda na primeira aula, Pimenta tratou da importância cultural e religiosa do antigo Irã. Segundo ele, o primeiro império iraniano desenvolveu uma das primeiras grandes religiões monoteístas da história, cuja influência alcançou outras religiões surgidas posteriormente na região.
A segunda aula, realizada na terça-feira (30), retomou esse ponto a partir do zoroastrismo, religião dominante no antigo Irã durante séculos. Pimenta explicou que ela está ligada à figura de Zaratustra, conhecido pelos gregos como Zoroastro, e teve como divindade principal Ahura Mazda.
“Essa religião vai dominar o Irã até o século VII depois de Cristo, quer dizer, uma religião que vai existir pelo menos mil e tantos anos, mas provavelmente muito mais”, disse.
Pimenta destacou que o zoroastrismo ainda existe, mas de maneira residual no Irã. O tema, segundo ele, é importante porque o imperialismo procura usar o passado persa anterior ao Islã contra o Irã atual, como se houvesse uma oposição entre uma antiga Pérsia idealizada e a República Islâmica.
Essa política também foi utilizada pelo xá derrubado em 1979. O regime monárquico procurava exaltar o passado imperial persa como forma de enfraquecer o clero xiita e afastar o povo iraniano das tradições religiosas que tiveram grande importância na revolução.
Pimenta passou então pela destruição do Império Aquemênida por Alexandre, o Grande, pelo domínio selêucida, pela dinastia parta e pelos sassânidas. Um dos pontos destacados foi o enfrentamento entre os persas e Roma. Durante séculos, os romanos tentaram avançar sobre a região, mas não conseguiram conquistar a Pérsia.
“Esse enfrentamento dos persas com os romanos se deu em pé de igualdade praticamente. Os romanos fizeram várias tentativas de tomar o Império, mas nunca conseguiram. Os iranianos mantiveram os romanos à distância”, afirmou.
A aula avançou para a conquista árabe, em 642, quando o Irã entrou em um longo período de domínio estrangeiro. Pimenta explicou que o Islã deu aos árabes uma enorme força de mobilização política e militar, permitindo a conquista de regiões muito mais desenvolvidas, como a Pérsia e áreas do Império Bizantino.
Ao mesmo tempo, os árabes foram profundamente influenciados pelos povos conquistados. Segundo Pimenta, parte importante do desenvolvimento científico, médico, matemático e cultural associado à civilização árabe veio do contato com sociedades mais avançadas, especialmente os persas e os bizantinos.
Durante a segunda aula, Pimenta também tratou do xiismo. Ele afirmou que essa corrente nasceu como contestação à corrupção do califado e à perseguição contra a família do profeta Maomé. O massacre de Hussein, neto de Maomé, em Carbala, marcou profundamente essa tradição religiosa.
“A religião xiita tem uma origem, a gente poderia dizer, libertária, porque parte da denúncia do que foi entendido na época como a corrupção do islamismo pelas pessoas que se apoderaram do califado”, afirmou.
Após a conquista árabe, o Irã passou por momentos de recuperação cultural, mas voltou a ser devastado no século XIII pela invasão mongol. Pimenta descreveu esse período como um dos mais terríveis da história iraniana. Cidades inteiras foram destruídas, populações foram massacradas e o País permaneceu por cerca de 250 anos sob domínio mongol.
“Em 642, ocorre a conquista árabe. Em 1501, o território volta a ter uma dinastia iraniana. Os iranianos ficaram sob dominação de povos estrangeiros por quase mil anos. É uma coisa impressionante”, disse.
A retomada de uma dinastia iraniana ocorreu com os safávidas, a partir de 1501. Pimenta explicou que essa dinastia centralizou novamente o Estado iraniano e transformou o xiismo em religião oficial do País, fato decisivo para a formação posterior do Irã moderno.
A aula terminou com a passagem pelas dinastias Afshárida, Zande e Cajar, que antecederam o século XIX. A partir desse período, o Irã passou a sofrer pressão crescente das potências europeias, primeiro dos portugueses no Golfo Pérsico e, depois, principalmente dos ingleses.
Com as duas primeiras aulas, o curso estabeleceu a base histórica para a compreensão do Irã contemporâneo: uma civilização antiga, marcada por revoltas populares, invasões estrangeiras, forte continuidade cultural e uma tradição religiosa que teve papel decisivo na Revolução Islâmica de 1979.





