Valério Arcary tem o dom de escrever milhares de caracteres dando voltas, sendo necessário escavar seus textos para retirar as verdadeiras intenções, como no artigo A fé religiosa e a esperança socialista podem se abraçar, publicado no sítio Esquerda Online nesta segunda-feira (29).
Para que o leitor entenda, é preciso antes resumir o conteúdo que diz basicamente o seguinte:
Arcary inicia descrevendo sua visão do cenário político e aponta que pesquisas recentes mostram uma queda de intenção de votos de Flávio Bolsonaro e um crescimento de Lula no segmento evangélico. Para o colunista, isso prova que esse eleitorado está em disputa e pode ser o fator decisivo para o pleito, ou seja, haveria uma “brecha” nas eleições.
Adiante, baseando-se em dados do Censo, destaca que o Brasil é uma das nações mais religiosas do mundo, onde a proporção de evangélicos cresceu significativamente (atingindo quase 27%) e o grupo dos “sem religião” ou ateus convictos é uma minoria muito pequena. Portanto, a grande maioria das pessoas que se identificam com a esquerda também possui alguma fé.
Para Valerio Arcary, ser socialista não significa fazer parte de um “clube de ateus”, mas sim defender um programa político e econômico de combate ao capitalismo. Embora a esquerda defenda firmemente o Estado laico (separado das igrejas), a fé pertence à esfera da vida privada e deve ser plenamente respeitada.
Lênin escreve o seguinte: “Fundamos a nossa associação, o POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo), entre outras coisas precisamente para essa luta contra qualquer entontecimento religioso dos operários. E para nós a luta ideológica não é um assunto privado mas um assunto de todo o partido, de todo o proletariado.”
Todo socialista reconhece, portanto, que “a religião é uma das formas de opressão espiritual que pesa em toda a parte sobre as massas populares, esmagadas pelo seu perpétuo trabalho para outros, pela miséria e pelo isolamento.”
Arcary faz uma autocrítica completamente moralista à militância de esquerda, classificando-a muitas vezes como sectária, rígida e intolerante com as escolhas pessoais dos outros. Em tom professoral, defende que a tolerância é indispensável e que, assim como a esquerda convive com diferentes preferências pessoais (de dietas a gostos musicais), deve aprender a conviver e acolher a religiosidade do povo.
Segundo o texto, a luta pelo ateísmo não deve constar nos estatutos ou nas campanhas da esquerda. Para embasar seu argumento, cita um artigo de Lenin de 1905 (“O socialismo e a religião”), que afirmava que a união dos trabalhadores para criar um “paraíso na terra” era muito mais importante do que a uniformidade de opiniões sobre o “paraíso nos céus”.
Por fim, o texto conclui que tanto o projeto socialista quanto a fé dependem de uma crença no futuro e na transformação. A militância anticapitalista exige sacrifícios e um “otimismo robusto” que flerta com o campo da utopia. Sendo assim, a esperança por um mundo socialista e a fé religiosa não são excludentes, mas forças que podem caminhar juntas.
Eleições
A maioria da esquerda tem feito cálculos e mais cálculos eleitorais, pois nutre a crença de que poderá mudar a realidade por meio do voto. No fundo, não passa de uma política reformista e a adesão à democracia liberal.
Para os socialistas, é claro, a unidade da classe trabalhadora está acima de diferenças religiosas e, seguramente, não se guia pela conquista de votos e cargos dentro do aparato do Estado, mas pelo fortalecimento da classe trabalhadora para derrotar seu principal inimigo
O texto de Arcary transborda oportunismo. No ponto de número 9, escreve que “a luta pelo ateísmo não deve estar nem no programa, nem nos estatutos, menos ainda na linha de campanhas eleitorais de uma organização de esquerda. Devemos ter respeito uns com os outros, porque temos inimigos muito poderosos e queremos vencer. Todos os lutadores anticapitalistas devem ser bem-vindos.”
Em O Socialismo e a Religião, Lênin não faz concessões, é direto e responde ao que Arcary responde da seguinte maneira: “o nosso programa assenta todo numa concepção do mundo científica, a saber, a concepção do mundo materialista. A explicação do nosso programa inclui, por isso, necessariamente, também a explicação das verdadeiras raízes históricas e econômicas do nevoeiro religioso. A nossa propaganda inclui também necessariamente a propaganda do ateísmo; a edição da correspondente literatura científica, que o poder de Estado autocrático-feudal rigorosamente proibia e perseguia até agora, deve agora constituir um dos ramos do nosso trabalho partidário. Teremos agora, provavelmente, de seguir o conselho que Engels uma vez deu aos socialistas alemães: traduzir e difundir maciçamente a literatura iluminista e ateísta francesa do século XVIII. ” – grifos nossos.
Há ainda nesse trecho um dado curioso: Arcary utiliza a expressão “luta anticapitalista”, que, em si, não está incorreta, mas é óbvio que se esquiva de dizer “luta pelo socialismo”. Essa é mais uma característica do centrismo que se abateu sobre a esquerda pequeno-burguesa, que se deixa afetar pela propaganda antissocialista que a direita leva adiante.
Como escreve Lênin nesse mesmo texto, “o proletariado moderno coloca-se ao lado do socialismo, que integra a ciência na luta contra o nevoeiro religioso e liberta os operários da fé na vida de além-túmulo por meio da sua união para uma verdadeira luta por uma melhor vida terrena.”
A fé religiosa e a “esperança” socialista são coisas completamente diferentes. Enquanto uma depende de milagres, os socialistas trabalham para transformar este mundo.
“A fé religiosa e a esperança socialista podem se abraçar” apenas na luta de classes, não na demagogia. A dureza da vida atinge os trabalhadores indiscriminadamente.
Como aponta Lênin no mesmo texto, “Por mais embrutecido, por mais ignorante que fosse o clero ortodoxo russo, até ele foi agora acordado pelo estrondo da queda da velha ordem medieval na Rússia. Até ele adere à reivindicação de liberdade, protesta contra a burocracia e o arbítrio dos funcionários, contra a fiscalização policial imposta aos ‘servidores de Deus’”.
A abordagem marxista da questão da religião não pode ser balizada pela conquista de votos, e é essa a motivação de Arcary, esse papo piegas de “vamos dar as mãos” é apenas uma maneira equivocada de entender




