Existem setores na esquerda dita revolucionária que mais lembram sucursais do imperialismo. Chama a atenção a utilização extremamente oportunista de uma tragédia, como no artigo Terremoto na Venezuela: o abalo sísmico é imprevisível, a catástrofe social não, publicado no sítio Esquerda Diário, do MRT – Movimento Revolucionário de Trabalhadores, na quinta-feira (25).
Após falar do terremoto, sua magnitude, etc., o texto traz que “enquanto Delcy Rodríguez chama à unidade nacional e decreta estado de emergência, a tragédia evidencia uma realidade estrutural: os impactos do desastre se concentram nos setores populares, ali onde a deterioração urbana, a crise dos serviços e a precarização das condições de vida vêm se acumulando há anos. O problema não é apenas a magnitude do terremoto, mas as condições em que ele atinge a população.”
“Realidade estrutural” é uma referência ao chavismo, uma crítica à revolução bolivariana. Quando deveria ser uma denúncia da política de sanções e bloqueio econômico promovido pelo imperialismo que tem privado a população venezuelana até de remédios.
Ao culpar o governo, o MRT protege o imperialismo, o que é uma política criminosa.
Um dos métodos que o grupo usa é transformar uma suposição em uma realidade, e, consequentemente, uma acusação.
Está escrito que “relatórios preliminares informam dezenas de mortos, centenas de feridos e múltiplas edificações colapsadas. Nesse cenário, a questão não é apenas a resposta imediata, mas quem pagará pela reconstrução e sob quais condições. Para as famílias trabalhadoras, que já enfrentavam salários insuficientes, serviços colapsados e dificuldades para acessar uma moradia segura, a catástrofe aprofunda uma precariedade pré-existente.”
De novo a questão da “precariedade pré-existente” deixando de lado os verdadeiros culpados. A pergunta sobre “quem pagará” precisa esperar as medidas que o governo eventualmente tomará para se saber se merece críticas. Da maneira que está escrito, dá como certo que pouco ou nada será feito.
“Razões” para crítica
O artigo diz que “o estado de emergência permite a mobilização extraordinária de recursos públicos e a intervenção de organismos civis e militares nas tarefas de resgate, evacuação e distribuição de ajuda. Mas essa centralização da resposta abre uma disputa política de fundo: quem controla os recursos, quem define as prioridades e quais interesses orientam a reconstrução.”
Esse parágrafo demonstra o grau de indigência argumentativa do texto. É claro que o governo tem o poder de decretar estado de emergência, controlar os recursos e definir prioridades, etc. O que esse grupo espera, que o governo delegue suas atribuições a outros? Não faz o menor sentido.
O MRT diz ainda que “a crescente participação das forças armadas na gestão da crise social expressa, além disso, um processo de militarização de funções civis, que ocorre há anos na Venezuela, onde tarefas como a distribuição de ajuda ou a organização territorial da emergência se consolidam cada vez mais sob controle militar.”
A presença dos militares na vida venezuelana é um dos motivos de reclamação do imperialismo, pois esse setor da sociedade tem ajudado a armar e treinar as milícias populares. Estranho que um grupo que se diga revolucionário apresente determinadas objeções, ainda mais considerando o fato de que na Venezuela as forças armadas são parte da revolução bolivariana.
O texto diz que “longe de ser um fato técnico, trata-se de uma forma de gestão da crise que desloca a organização social, comunitária e dos próprios trabalhadores organizados.” São as mesmas alegações que encontramos na imprensa imperialista, como o Estadão.
A pobreza
Uma das funções do texto é criticar a economia do país, diz que “mais da metade da população enfrenta pobreza multidimensional associada não apenas à renda, mas também à falta de moradia adequada, emprego, saúde, educação e serviços básicos”; dizem também que “na Venezuela, milhões de famílias trabalhadoras sobrevivem com rendimentos insuficientes, serviços públicos deteriorados e enormes dificuldades para acessar uma moradia segura.”
Adiantem, escrevem que os mais pobres são os que mais vão sofrer e que “os maiores impactos concentram-se justamente onde, durante anos, se acumularam a deterioração urbana, a falta de manutenção, a insuficiência dos serviços públicos e a ausência de investimentos em infraestrutura segura.”
Por que os serviços públicos são insuficientes? Por que os rendimentos são baixos, e por que “e os serviços públicos foram deteriorados ao longo de anos”? Existe uma completa ausência de crítica e combate ao grande capital internacional.
Dizem que “o país deve ter soberania sobre seus recursos petrolíferos, e estes devem ser colocados a serviço das necessidades urgentes da população”, só faltou dizer que o imperialismo está trabalhando no sentido contrário e que chegou mesmo a invadir o país e sequestrar seu presidente.
Quase no final do texto, há um trecho que diz que “em um país marcado por anos de crise econômica e pelo impacto do bloqueio e das sanções impostas pelos Estados Unidos, a capacidade de resposta diante de emergências dessa magnitude encontra-se severamente condicionada.”
Ainda ali não são os bloqueios e as sanções que asfixiaram a economia da Venezuela e impedem uma resposta efetiva diante da emergência provocada pelos terremotos, mas o resultado da soma de anos de crise (que só pode ser culpa da revolução) e o “impacto” das sanções.
A oposição que o MRT faz na Venezuela acaba servindo aos inimigos da população e do país, e não pode, portanto, se apresentar como alternativa, mas um fator de atraso e derrota da revolução.




