A notícia de que a publicidade na Internet ultrapassou a TV aberta pela primeira vez no Brasil ajuda a explicar a campanha contra a CazéTV durante a Copa do Mundo de 2026. Segundo dados do Fórum de Autorregulação do Mercado Publicitário, o Cenp, divulgados pelo sítio Metrópoles, a publicidade digital movimentou R$2,14 bilhões no primeiro trimestre deste ano, alta de 24,3% em relação ao mesmo período de 2025.
Com isso, a Internet passou a concentrar 38,3% de toda a verba publicitária no País. A TV aberta, por sua vez, recebeu R$1,75 bilhão, o equivalente a 31,3% do total. No mesmo período, os investimentos na TV aberta recuaram 0,25%.
O dado mostra que a disputa entre a CazéTV e a Globo não é apenas uma disputa por audiência. É uma disputa pelo dinheiro da publicidade, isto é, por uma parcela fundamental do controle econômico sobre a comunicação no Brasil.
Durante décadas, a rede Globo dominou a transmissão da Copa do Mundo no País. O torneio era um dos principais instrumentos para concentrar público, anunciantes, prestígio político e influência nacional nas mãos da emissora dos Marinho. A Internet alterou esse quadro.
A CazéTV, ao transmitir todos os 104 jogos da Copa gratuitamente pelo YouTube, entrou diretamente no terreno que sempre foi controlado pela Globo. A diferença é que entrou com outra forma de transmissão, outro público e outro modelo comercial. O canal pode exibir jogos, conversar com os espectadores durante a partida, distribuir trechos em redes sociais e integrar a publicidade ao andamento do evento esportivo.
É justamente esse modelo que está sendo atacado.
No dia 29 de junho, a Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda, abriu processo administrativo contra Bet365, Betnacional e KTO por propagandas exibidas durante transmissões da CazéTV na Copa do Mundo. As empresas podem receber multas que chegam a R$2 bilhões e têm 10 dias úteis para apresentar defesa.
Segundo a Fazenda, as peças publicitárias violaram a Lei nº 14.790, de 2023, que regula as apostas de quota fixa no Brasil. O órgão alegou estímulo à aposta imediata durante os jogos, exibição de cotações em tempo real e advertências pouco visíveis sobre proibição para menores de 18 anos, risco de endividamento e possibilidade de dependência.
Formalmente, a medida atinge as casas de apostas. Na prática, ela atinge a CazéTV.
As bets são uma das principais fontes de financiamento da transmissão da Copa pela Internet. Ao impedir as inserções mais valiosas para esse tipo de transmissão, o governo ataca a base econômica que permite a um canal digital disputar com a televisão tradicional.
A ação da Fazenda não veio isolada. Em 24 de junho, a Secretaria Nacional do Consumidor, ligada ao Ministério da Justiça, abriu investigação por suposta publicidade abusiva. No dia seguinte, a deputada federal Erika Hilton, do PSOL, acionou o Ministério Público Federal contra a CazéTV. Em 27 de junho, o Conar concedeu liminar para suspender anúncios de bets exibidos durante as transmissões.
Em menos de uma semana, Fazenda, Ministério da Justiça, Conar, Ministério Público e uma parlamentar atuaram no mesmo sentido. O resultado foi enfraquecer a maior transmissão gratuita da Copa pela Internet justamente no momento em que ela disputa público e anunciantes com a Globo.
A justificativa apresentada é a proteção das famílias endividadas. Trata-se de uma fraude política.
O endividamento da população brasileira não começou com as casas de apostas. Sua causa principal está nos baixos salários, no preço dos produtos básicos e, sobretudo, nos bancos. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Confederação Nacional do Comércio, 80,9% das famílias brasileiras estavam endividadas em abril de 2026.
O levantamento inclui cartão de crédito, cheque especial, carnês, crédito consignado e financiamentos. Ou seja, a maior parte da dívida popular está ligada ao sistema bancário. Dados do Banco Central também apontam que o comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a 29,8%. Quase um terço da renda mensal vai para parcelas, amortizações e juros.
No cartão de crédito rotativo, uma das principais formas de endividamento do povo, os juros chegaram a 451,5% ao ano. Essa é a verdadeira máquina de destruição da renda da população pobre.
Diante disso, a campanha moral contra as bets mostra seu verdadeiro caráter. Contra os bancos, que cobram juros escorchantes e vivem da exploração direta do trabalhador endividado, não existe multa de R$2 bilhões, nem operação coordenada de vários órgãos, nem escândalo permanente. Contra a CazéTV, bastou uma transmissão da Copa para que o aparelho estatal fosse mobilizado.
A notícia sobre a publicidade na Internet também desmonta a aparência de neutralidade da ofensiva. A TV aberta está perdendo dinheiro. A Internet cresce. O setor de vídeo digital cresce ainda mais.
Segundo os dados publicados pelo Metrópoles, dentro da publicidade digital os anúncios em vídeo tiveram aumento de 82% na comparação anual. O segmento passou de R$124,2 milhões para R$226 milhões e já representa 10,6% de toda a publicidade digital no País.
Isso atinge diretamente a televisão. O anunciante que antes dependia da TV aberta agora pode pagar por anúncios em vídeo na Internet, com público mais jovem, maior possibilidade de segmentação e integração direta com a transmissão. A CazéTV é uma expressão concentrada dessa mudança.
A Globo continua sendo um monopólio gigantesco, mas já não controla sozinha os grandes eventos esportivos. A Copa do Mundo de 2026, a primeira com 48 seleções e 104 partidas, ampliou o valor comercial do torneio. A CazéTV entrou nesse mercado exibindo todos os jogos gratuitamente. Com isso, retirou da Globo uma parte da audiência e, principalmente, uma parte da verba publicitária.
É nesse ponto que entram os órgãos do Estado. Ao proibir ou restringir a publicidade integrada às transmissões digitais, eles procuram obrigar a Internet a funcionar como a televisão. A CazéTV é pressionada a abandonar o formato que lhe dá vantagem: a inserção comercial durante o jogo, com cotações, comentários, artes na tela e participação dos apresentadores.
Os números do Cenp mostram que a campanha contra a CazéTV ocorre no momento em que a TV aberta perde a liderança da verba publicitária. Em 2023, a Internet concentrava 33,9% dos investimentos, enquanto a TV aberta ficava com 46,3%. Em 2024, a Internet subiu para 36,3%, e a TV aberta caiu para 42,4%. Em 2025, os dois setores praticamente empataram: 36,5% para a Internet e 37,1% para a TV aberta.
A virada ocorreu no primeiro trimestre de 2026: 38,3% para a Internet e 31,3% para a TV aberta.




