Copa do Mundo 2026

Árbitros agora podem interpretar ‘impacto no jogo’ ao dar faltas

Ao tornar a arbitragem “mais tolerante” ao contato físico, campeonato aumentou o peso da leitura individual do juiz sobre o que é lance punível e o que deve ser deixado seguir

A Federação Internacional de Futebol (FIFA) orientou árbitros a evitar interrupções menores durante o torneio nos Estados Unidos, no Canadá e no México em 2026. A diretriz reduziu a marcação de contatos leves, diminuiu o número médio de faltas, o que provocou partidas mais corridas e com maior possibilidade de tratamento desigual por juízes na fase de grupos e no início dos mata-matas.

A Copa do Mundo de 2026 passou a ser marcada por uma arbitragem mais tolerante ao contato físico. A orientação geral é deixar o jogo seguir quando houver disputas menores, sem impacto claro na jogada. A tese cria uma zona cinzenta de interpretação para o juiz decidir se a falta impactou ou não na jogada. O objetivo declarado da FIFA é reduzir paralisações e aumentar o tempo de bola rolando, evitando que qualquer contato seja transformado automaticamente em infração. No entanto, o caso se soma a um cenário mais amplo de arbitrariedades na Copa.

A mudança aparece nos números. Análise da NetSI Sport, núcleo de pesquisa em dados esportivos da Universidade Northeastern, apontou queda na média de faltas por partida: 24,3 em 2026, contra 27,7 em 2022 e 29,3 em 2018. O número de cartões amarelos também caiu. Ao mesmo tempo, houve aumento nos cartões vermelhos, o que indica uma distinção mais acentuada entre contato tolerado e jogadas consideradas graves.

A interpretação mais permissiva favorece jogos de maior velocidade. Seleções com equipes mais velhas, como a própria seleção brasileira, podem sair prejudicadas com a decisão unilateral da FIFA. Com menos apitos, as equipes conseguem manter transições ofensivas, pressionar a saída de bola adversária e acelerar retomadas. Especialistas em preparação física  afirmaram que a distância total percorrida pelos atletas se mantém parecida em relação às últimas Copas, mas cresceu a quantidade de corridas em alta velocidade e arrancadas. Isso exige mais dos músculos posteriores da coxa e da panturrilha.

O preparador Chris West, ligado ao futebol da Universidade de Connecticut, apontou que o jogo moderno passou a exigir pressão constante. As equipes correm em velocidade para atacar e, ao perderem a posse, continuam correndo para recuperar a bola o mais rápido possível. A arbitragem mais branda reforça esse modelo, porque reduz as pausas que antes permitiam reorganização, descanso curto e interrupção do ritmo adversário.

A tendência também se relaciona às mudanças de regra adotadas pela FIFA para o torneio. Pierluigi Collina, chefe de arbitragem da entidade, já havia defendido menos interrupções para “melhorar o fluxo das partidas”. O resultado é um jogo mais contínuo, mais intenso e mais físico, mas menos estratégico, com mais jovens e menos veteranos, privilegiando ainda mais a força em detrimento da técnica. O comentarista brasileiro Ledio Carmona observou, durante partida entre Uruguai e Espanha na fase de grupos, que muitos carrinhos e disputas deixaram de ser marcados, com a intenção de “manter a partida em andamento”.

A orientação tem efeito direto sobre jogadores que chegam ao torneio sem plena condição física. Atletas retornando de lesões musculares ou com dificuldades em movimentos explosivos ficam mais expostos. A Copa exige não apenas resistência, mas aceleração repetida, mudança de direção e retomadas em velocidade. Um atacante ou meio-campista que antes poderia se beneficiar descansando durante interrupções frequentes agora enfrenta sequência maior de ações em alta intensidade.

A fase de grupos também teve média elevada de gols: 2,95 por partida, superando marcas recentes da era moderna da competição. A arbitragem não é o único fator para isso, mas contribui para o aumento de tempo útil de jogo. 

A arbitragem mais permissiva da Copa do Mundo de 2026 não pode ser vista isoladamente como simples escolha técnica para tornar os jogos mais rápidos. Em um torneio marcado por restrições migratórias, retenções em aeroportos, vistos negados e tratamento desigual contra delegações de países como Irã e Iraque, a orientação para “deixar o jogo correr” se soma a um quadro mais amplo de arbitrariedade. Ao reduzir a intervenção dos árbitros em contatos físicos e faltas consideradas menores, a FIFA ampliou a liberdade de escolha a critério próprio das decisões em campo. Essa margem subjetiva ganha outro peso quando o próprio ambiente da competição já demonstra que nem todas as seleções competem sob as mesmas condições materiais, políticas e logísticas.

No caso iraniano, por exemplo, a questão não se limitou a uma jogada ou a uma marcação específica. A seleção teve de enfrentar deslocamentos incomuns, restrições de entrada nos Estados Unidos, ausência de integrantes importantes de sua delegação e atrasos impostos por autoridades do país-sede.

Outro ponto importante foi a anulação de um gol decisivo para o Irã. O lance ocorreu no empate por 1 a 1 entre Irã e Egito, em Seattle, pela última rodada do Grupo G. Já nos acréscimos, aos 93 minutos, o iraniano Shoja Khalilzadeh marcou o que seria o segundo gol iraniano, após uma pressão final em que Mehdi Taremi também havia acertado o travessão. O gol provocou comemoração imediata porque transformaria o empate em vitória, levaria o Irã a cinco pontos e mudaria completamente sua situação na tabela. 

Em vez de terminar a fase de grupos com três empates e depender de combinações entre outros terceiros colocados, a seleção iraniana passaria a ter uma posição muito mais favorável para avançar à fase eliminatória. O lance, porém, foi revisado pelo VAR e anulado por impedimento de Khalilzadeh, deixando o placar em 1 a 1. Com isso, o Irã terminou com três pontos e teve de aguardar os demais resultados. No dia seguinte, o empate por 3 a 3 entre Áustria e Argélia, decidido por um gol austríaco praticamente no último lance de longo acréscimo, tirou o Irã da zona dos melhores terceiros colocados e confirmou sua eliminação, mesmo sem derrota na competição. 

A Copa criou um ambiente em que decisões administrativas e decisões de arbitragem se acumulam convenientemente contra determinadas delegações. E é nesse cenário que os juízes ganham mais poder para interpretar a relevância de uma falta para decidir se a consideram para o jogo ou não. Fica assim mais fácil entender o porquê do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan ser impedido pelos EUA de apitar na Copa.

A situação do Iraque e a proibição de entrada do árbitro reforçam essa leitura. Não se trata apenas de futebol, mas da submissão do torneio às políticas imperialistas do país-sede. A FIFA vende a Copa como competição universal, mas aceita que atletas, funcionários, jornalistas, fotógrafos e até árbitros sejam tratados de forma desigual antes mesmo de chegarem ao estádio. Nesse cenário, a arbitragem mais “branda” não aparece como neutralidade, mas como mais um fator de interferência em uma competição já contaminada por critérios políticos.

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