Eleições 2026

Luta ‘antifacista’ eleitoral é puro suco de oportunismo

A esquerda pequeno burguesa faz alarmismo sobre o fascismo para justificar sua luta não pelo socialismo, mas pela democracia burguesa

Magritte

A “luta antifascista” é uma espécie de coringa que a esquerda pequeno-burguesa utiliza conforme sua necessidade. Se, nas últimas presidenciais, tentou utilizá-la para colocar um elemento “do campo democrático” (direita) no lugar de Lula, a utiliza agora para apoiar o petista.

Essa política está expressa no artigo “Eppur si muove” – um mundo em movimento, de Israel Dutra, publicado no sítio Revista Movimento (ligado ao MES-PSOL), neste domingo (28).

Não é mais a burguesia, mas “a extrema direita deve ser derrotada e esse deve ser o compromisso do PSOL atuando nas lutas e nas próximas eleições”. É o que traz o olho do artigo.

A ‘novidade’

Segundo Dutra, e esse é um argumento recorrente, “estamos diante de mudanças extraordinárias, num embate cada vez mais aberto entre as forças neofascistas e a necessidade de resistência popular. A extrema direita comemora a vitória de Espriella na Colômbia, um novo cenário que aumenta a intervenção imperialista na América Latina.”

O intuito desse tipo de fala não é outro que o de criar um ambiente de medo e urgência. A classe trabalhadora precisa parar tudo, esquecer suas bandeiras e se concentrar nesse terrível inimigo: o fascismo.

No texto, lê-se que “o vetor das recentes eleições regionais, como Colômbia e Peru, serve de alerta, pelo peso e resiliência da extrema direita; porém, seria um erro apenas indicar o avanço das forças alinhadas com Trump, sem entender a dinâmica que abre mais crise e polarização.”

Porém, o que o texto não diz é que um dos fatores de polarização, além da crise do imperialismo, é a classe trabalhadora não ter encontrado na esquerda uma alternativa, visto que a maioria dos partidos tem se concentrado em defender a democracia burguesa, disfarçada de “luta antifascista”.

As urnas

“As eleições do Brasil serão marcadas por essas mudanças, onde temas como a soberania, o uso da IA e as ações das big techs estarão na ordem do dia do debate político”, alega o autor, e isso demonstra que é a burguesia quem pauta aquilo que diz a maioria da esquerda.

É a burguesia que tem se preocupado com a democratização da informação que as redes sociais acabam proporcionando. Daí a campanha de censura que tem se alastrado pelo mundo com a exclusão da juventude a essas plataformas. A desculpa é que se deve protegê-la da pedofilia, etc. No entanto, o medo é que essa importante parcela da população se politize.

A propaganda sionista é a principal vítima das redes sociais. A divulgação em tempo real das atrocidades cometidas por “Israel” na Faixa de Gaza, no Líbano e no Irã, têm feito crescer exponencialmente o repúdio ao Estado genocida.

Nos Estados Unidos, país que dá maior sustentação e apoio ao sionismo, a juventude passou majoritariamente a apoiar a Palestina, e mais especificamente o Hamas, o principal grupo do Eixo da Resistência.

Enquanto isso, a esquerda reformista fica alegando que “para compreender a natureza de tais mudanças e embates, onde temos a derrota dos Estados Unidos no Irã como vetor principal, devemos estudar a relação entre os processos e a eleição nacional”; ou seja, a preocupação está nas eleições, em se conquistar cargos dentro do aparato do Estado em vez de envolver a classe trabalhadora e a juventude no confronto contra a burguesia. Isso é importante porque, embora o texto não diga, a extrema direita tem vencido na América Latina com o apoio do “centro” político, os “democratas”, o “campo progressista”.

A burguesia é o principal inimigo, e as eleições no continente têm provado que não existe uma contradição fundamental entre a democracia burguesa e o fascismo.

Quanto ao uso das IAs, essa tem se mostrado uma importante ferramenta. Pequenos partidos, sindicatos, entidades comunitárias ou agrupamentos de baixo orçamento podem produzir vídeos e materiais com qualidade e quantidade para publicar nas redes sociais, o que tem preocupado a burguesia, que detém o monopólio dos meios de comunicação.

A maioria da esquerda, mais uma vez, respondendo aos desejos da classe dominante, passa a criticar o uso das IAs em vez de as utilizar para propagar suas bandeiras.

Oportunismo

“A complicada expressão em latim, proferida por Galileu”, continua o autor, “Eppur Si Muove”, ilustra o atual estado do mundo. Dramaticamente, a frase pode ser traduzida como “Ainda assim, ela se move”. O mundo em movimento condiciona a batalha política e eleitoral no Brasil.”

Temos aí o caráter oportunista de uma esquerda que carece de um programa político. O que esses grupos fazem é se mover para onde a maré empurra. Se tivessem um programa e defendessem de fato os interesses da classe trabalhadora, agiriam de maneira coesa de acordo com cada circunstância. Cada luta responderia a uma necessidade específica sem o abandono dos princípios, como a troca do socialismo pela defesa da democracia.

Dutra utiliza a derrota dos EUA-“Israel” contra o Irã para dizer que a consequência disso é “colocar o planeta em alerta para uma militarização ainda maior do que a que estava em curso. E a terceira, é o retorno, após a vergonha no Oriente Médio, das armas e olhos de Trump para a América Latina.” Essa constatação, no entanto, serve apenas para criar alarde, não é seguida de uma política de enfrentamento real.

O alerta tem como intuito dizer que isso “acende um alerta para o que virá na eleição brasileira: as big thecs e a extrema direita não vão parar um minuto de conspirar para derrotar Lula.” A conclusão não pode ser outra que o PSOL irá se juntar ao PT, mas obviamente, fazendo a ressalva de que seria sem “subordinar-se ao programa e à estratégia da Frente Ampla”, coisa que esse partido já fez nas eleições passadas.

Nesse ponto, o texto fala apenas em eleições e fecha alegando que “o mundo está em movimento. Trump pode e deve ser derrotado. Esse deve ser o compromisso do PSOL para entrar de cabeça nas próximas eleições gerais.” O que demonstra que esse grupo, pseudotrotskista, engana a classe trabalhadora ao sugerir que se pode derrotar Trump, ou o que quer que seja, por meio do voto e das urnas.

É uma política reformista em toda a linha e está fadada ao fracasso. A classe trabalhadora enxerga a esquerda como parte do sistema, o que não deixa de ser verdade, pois só se vê essa gente defendendo as instituições do Estado burguês, como o STF; e pedindo sempre mais punições, bem como criando novos tipos de crimes que, em última instância, servem apenas para punir os mais pobres.

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